Biden sabe que EUA estão conectados aos problemas da América Latina, diz Samantha Power

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Ex-embaixadora dos EUA para as Nações Unidas durante a gestão de Barack Obama (2009-2017), Samantha Power se prepara para voltar à função pública. A jornalista foi indicada por Joe Biden para comandar a Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e espera seu nome ser confirmado pelo Senado —o que deve acontecer na volta do feriado de Páscoa. Enquanto isso, lança no Brasil suas memórias, "A Educação de Uma Idealista" (Companhia das Letras), e relembra de modo nostálgico, em entrevista à reportagem, sua passagem pelo jornalismo. Power é também autora da biografia do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, lançada no Brasil pela mesma editora ("O Homem que Queria Salvar o Mundo"). PERGUNTA - Você mergulha fundo em suas origens em "A Educação de Uma Idealista". Qual a importância de seu trajetória para a pessoa em que você se transformou? SAMANTHA POWER - Tenho alma de escritora. Creio que ter sido escolhida para trabalhar com Barack Obama foi um grande acontecimento. Mas eu queria escrever um livro que fosse importante também para pessoas não necessariamente interessadas nos EUA e em Obama. Queria fazer um tipo de livro de memórias em que o personagem principal, no caso eu, aparecesse dentro de um arco narrativo de vida que é comum a muita gente. Muitas pessoas experimentam a imigração, a ideia de serem novos em um lugar, e quis voltar às minhas origens na Irlanda para me conectar com pessoas que também se sentem "a criança nova na classe", neste país. No fundo, a mensagem é de que essas pessoas podem fazer uma diferença no mundo, que seu caminho será complicado, mas há essa possibilidade. A figura de sua mãe aparece como grande influência. Que importância ela teve em sua vida e que importância crê que há em mais mulheres estarem em posições de destaque como ocorreu com você? SP - Nossa mãe é a força da natureza em nossa vida. E minha mãe particularmente teve muita força, ao mudar-se da Irlanda para cá comigo e meu irmão menor. Era uma mulher habilidosa e que não se deixava assustar por limites. Era atleta, jogava squash, tênis, hóquei, era médica. Sempre me ensinou que se você tem um sonho na vida, não deve jamais desistir de tentar. Embora a perspectiva do fracasso exista. Quando fui trabalhar com Obama, um presidente feminista, ainda assim me surpreendeu o quão masculino era aquele ambiente. Creio que ter mais mulheres tomando decisões no governo aporta muita coisa. Em geral, as mulheres são boas construtoras de pontes, de diálogos entre as partes. Numa negociação de paz, por exemplo, acho fundamental ter mulheres, porque elas têm uma visão mais complexa de uma situação de crise. Entendem melhor as causas socioeconômicas, são mais sutis e mais conciliadoras, pelo menos em geral. Você conta no livro sobre como ficou excitada com seu primeiro trabalho como correspondente, quando foi enviada para cobrir um conflito nos Bálcãs. Qual a importância, hoje, de os meios de comunicação continuarem enviando jornalistas para cobrir crises in loco? SP - É fundamental, e vejo com muita tristeza que vem sendo uma área que sofre muitos cortes no jornalismo. Hoje a crise do coronavírus nos mostrou de maneira muito dolorosa e clara o quanto estamos conectados. Mas também estávamos antes, pela economia, pelas crises, pelas explosões migratórias. Eu, como americana, posso tentar descrever um acontecimento para o público brasileiro, mas nunca será igual a um brasileiro contando para um brasileiro. Não digo apenas pelo conhecimento do idioma, mas pela escolha das palavras, a percepção dos sons e cheiros. A vivência como um todo. E isso é essencial para o bom jornalismo. Eu sei que vem havendo muitas mudanças na indústria jornalística, e é uma pena, mas crises como esta que vivemos atualmente deveriam ser ideais para que tivéssemos mais trabalho de cobertura in loco acontecendo. O timing da diminuição dos postos de correspondente no mundo é péssimo. Qual sua opinião sobre a mídia norte-americana hoje? Comparando com o modo como atuou durante a gestão de Donald Trump? SP - Há muito que se criticar na cobertura de Trump, desde a eleição de 2016, quando foi tratado mais como uma celebridade e um showman do que como um político. Até Trump, jornalistas não estavam tão acostumados a desconfiar tanto de cada palavra que um presidente diz. Já com ele no cargo, isso mudou, e o "fact-checking" passou a ser necessário a cada pronunciamento ou tuíte. Creio que se acordou tarde para isso. Mas há muito a ser feito, ainda mais num ambiente em que as pessoas já não têm apenas a imprensa "mainstream" para se informar e há uma campanha contra isso, nas redes sociais, na "dark web". Já na gestão Biden, ainda não surgiu um grande desafio para que a imprensa se mostre crítica. Achei graça outro dia ao ler uma reportagem que criticava a quantidade de vezes em que Biden viajou a Delaware, que é sua casa, desde que assumiu. Bom, se os escândalos agora serão desse nível, estamos bem melhor do que antes [risos]. Antes lidávamos com acusações de assédio sexual para cima. Você escreveu um belo livro sobre Sérgio Vieira de Mello (1948-2003). O que acha que ele estaria pensando em relação ao mundo de hoje? SP - Creio antes de mais nada que ele já seria secretário-geral da ONU. Não sei se isso seria bom para ele, num tempo tão desafiador. Estaria preocupado com muitas coisas, por exemplo com o aumento do poder da China em seu desejo de mudar as regras internacionais no que diz respeito aos direitos humanos. Se irritaria também com Trump tentando reescrever essas regras ou fazendo campanha para minimizar esforços de organismos internacionais, assim como ocorre no Brasil, em que há hoje uma desconfiança com relação a essas leis e à atuação desses organismos. Creio que demonstraria como a aplicação dessas leis internacionais de direitos humanos são importantes para a estabilidade dos países e para o Estado de Direito. Estaria preocupado com o excesso de nacionalismo e com a xenofobia nos EUA. Mas, mais do que nada, creio que ele estaria muito incomodado com o fato de que uma crise como a do coronavírus, que parece estar designada a ser enfrentada com cooperação internacional, em vez disso esteja sendo cercada pelo crescimento de nacionalismos, dificultando a chegada de vacinas a diversos países e comunidades. Ele demonstraria que não haver colaboração científica, de intercâmbio de conhecimento, de programas de distribuição de vacinas a países que têm menos recursos não apenas é uma coisa imoral, mas é uma política estúpida, que vai causar danos a muita gente. O que a América Latina deve esperar da gestão Biden? SP - É muito pouco usual ter um presidente dos EUA que conheça tanto a região, e isso é muito positivo. Desde a época do Senado, Biden viajou muito e conhece muito. Ele sabe, também, que nosso país está conectado aos problemas de países como El Salvador, Guatemala e Honduras. É de lá, principalmente, que vêm tantas pessoas fugindo da violência e de uma situação financeira precária. Seguramente isso será uma pauta muito importante. Também creio que Biden colocará ênfase na democracia e nos direitos humanos e que valorizará a questão da preservação da Amazônia. Ele ficou bastante impactado de modo positivo com o gesto da Colômbia, que permitiu que os venezuelanos em seu território trabalhem e tenham acesso a direitos. Creio que ele estimulará que outros países que recebem imigrantes venezuelanos também sejam acolhedores. Biden não crê que com um muro ou uma política nacionalista vá ser possível eliminar o coronavírus. É preciso colaborar com os outros países da região também. Ele quer uma América que seja acolhedora, sem esquecer que esta é uma nação de leis. RAIO-X SAMANTHA POWER, 50 ​JORNALISTA E ESCRITORA, VENCEDORA DO PRÊMIO PULITZER, FOI EMBAIXADORA DOS EUA PARA A ONU DE 2013 A 2017, NA GESTÃO DE BARACK OBAMA. É FILIADA AO PARTIDO DEMOCRATA.