Biden toma posse como 46º presidente dos EUA e defende 'verdades sobre mentiras'

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  17-06-2014 - O presidente americano Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 17-06-2014 - O presidente americano Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Em uma cerimônia histórica, Joe Biden, 78, fez seu juramento em frente ao Congresso americano e tomou posse nesta quarta-feira (20) como o 46º presidente dos EUA, colocando fim à era de Donald Trump.

Com discurso contundente, em uma Washington sitiada, o homem mais velho a assumir a Casa Branca em um primeiro mandato celebrou a democracia, fez um apelo à união e marcou a ruptura definitiva com o antecessor republicano ao dizer que é preciso derrotar mentiras e defender a verdade. "Aprendemos mais uma vez que a democracia é preciosa, a democracia é frágil. E, nessa hora, meus amigos, a democracia prevaleceu."

Biden, que assume um país radicalizado e severamente dividido, chamou o terrorismo doméstico pelo nome e prometeu vencer o que hoje é considerada uma das principais ameaças nos EUA.

"Precisamos acabar com essa guerra incivil. [...] As últimas semanas e meses nos ensinaram uma lição dolorosa. Existe a verdade e existem mentiras. Mentiras contadas para obter poder e lucro", afirmou Biden, em uma referência indireta a Trump, que não estava na cerimônia.

"E cada um de nós tem o dever e a responsabilidade, como cidadãos, como americanos e, especialmente, como líderes --líderes que se comprometeram a honrar nossa Constituição e a proteger nossa nação-- de defender a verdade e derrotar as mentiras."

O democrata, segundo presidente católico na história do país, jurou sobre a Bíblia, como é tradição nos EUA, diante do presidente da Suprema Corte americana, John Roberts. Ao faltar à cerimônia, Trump se tornou o quarto presidente da história do país a não comparecer à posse do sucessor, o que não acontecia havia 152 anos --o representante do agora antigo governo foi o ex-vice Mike Pence.

Biden passa a comandar um país devastado por uma crise econômica e uma pandemia que já matou mais de 400 mil americanos e preparou um discurso para mostrar sua disposição em superar não apenas crises mas também desavenças políticas, ancorado na ideia de que é possível discordar no campo ideológico sem que o ódio lidere o debate.

O novo presidente lembrou do ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro, quando apoiadores de Trump, insuflados pelo então presidente, invadiram a sede do Legislativo para tentar impedir a certificação do resultado da eleição, ação que deixou cinco mortos.

"Aqui estamos, apenas dias depois que uma turba pensou que poderia usar a violência para silenciar a vontade do povo, para parar o trabalho da nossa democracia, para nos tirar do solo sagrado. Não aconteceu, nunca vai acontecer. Não hoje, nem amanhã, nem nunca. Nunca", afirmou Biden. "Este é o dia dos EUA, é o dia da democracia, um dia de história e esperança, de renovação e determinação. Os EUA foram testados, e um novo país ergueu-se perante o desafio. Hoje celebramos o triunfo não de um candidato, mas de uma causa. Da causa da democracia."

Antes do pronunciamento de 20 minutos de Biden, a cantora Lady Gaga interpretou o Hino Nacional diante de uma plateia reduzida, de cerca de mil convidados, todos de máscaras. Cercada de simbolismos, a posse do democrata tem outra credencial inédita, com Kamala Harris assumindo o posto de primeira mulher negra como vice-presidente dos EUA. Ela vai exercer papel definitivo no que se tornou o principal desafio de Biden: conseguir, de fato, governar. Os democratas têm maioria na Câmara, mas Kamala é o voto de desempate no Senado dividido.

A diversidade permeou toda a estética da cerimônia, com muitos negros na plateia, entre políticos e outros convidados, além da poeta negra Amanda Gorman, a mais jovem escritora a se apresentar numa posse presidencial, e dos cantores Garth Brooks --ídolo country de muitos republicanos-- e a filha de porto-riquenhos Jennifer Lopez.

JLo, como é conhecida, cantou "This Land Is Our Land" (esta terra é nossa terra), clássico da música folk americana. Antes de terminar a apresentação, a cantora repetiu, em espanhol, um trecho do juramento que seria declamado por Biden minutos depois: "Uma nação sob Deus, com liberdade e justiça para todos".

Nascida na Nicarágua, Fabiola Cardenas, 66, viajou de Boston a Washington para ficar apenas oito horas na capital. Ela sabia que o esquema de segurança, que contava com barreiras físicas e de milhares de homens armados, não a deixaria ver Biden nem mesmo de longe. Fabiola está há 25 anos nos EUA e disse que a vida de todos os imigrantes vai mudar com a chegada do democrata, que não tem a abordagem racista de Trump. "É o começo de uma nova era, estou aliviada."

No mesmo espírito de estimular "a cura" de um país dividido, como fez durante toda a campanha eleitoral, Biden usou grande parte de seu discurso para clamar aos americanos que fiquem juntos.

"A história americana não depende de um de nós, mas de todos nós. Nós, o povo, buscamos uma união perfeita", afirmou o presidente. "Devemos acabar com esta guerra incivil que opõe o vermelho ao azul, o rural ao urbano, o conservador ao progressista. Podemos fazer isso se abrirmos nossas almas em vez de endurecer nossos corações."

Depois do juramento e posse, Biden passou as guardas em revista, num gesto que busca sinalizar a transição pacífica de poder para o novo comandante-chefe, e visitou, ao lado de outros ex-presidentes americanos --Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama--, o Cemitério de Arlington, em uma homenagem ao Soldado Desconhecido, memorial a militares sem identificação mortos em combate.

A parada na avenida Pensilvânia e o baile de inauguração, tradicionais da posse, foram substituídos por eventos virtuais ou transmitidos pela TV.

Na política há 48 anos, como vereador, senador e vice-presidente nos dois mandatos de Barack Obama, Biden sabe que terá de lançar mão de seu perfil moderado e sua conhecida habilidade conciliatória para negociar com os dois lados do tabuleiro em meio à radicalização insuflada por Trump. Ao contrário do clima festivo das posses presidenciais, a cerimônia desta quarta foi marcada pela segurança sem precedentes e atos simbólicos, devido às restrições impostas pela pandemia e às ameaças de protestos e atos violentos contra a inauguração.

Cerca de 200 mil bandeiras dos EUA foram colocadas no National Mall, onde geralmente o público espera para ver o novo presidente, para representar os americanos que não puderam ir ao evento.

Desde 6 de janeiro, quando apoiadores de Trump invadiram o Congresso para tentar impedir a certificação da vitória de Biden, Washington está sitiada e assistiu à chegada de 25 mil soldados da Guarda Nacional.

A região central, onde ficam os principais pontos turísticos de Washington, virou uma zona militarizada, bloqueada por veículos militares e fuzis que dividem espaço com quem vive nas cercanias. Moradores e pessoas autorizadas precisam se identificar aos agentes antes de cruzar ruas, e cada espaço tem sido monitorado pela maciça operação coordenada pelo Serviço Secreto.

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