Bienal de Arte Digital chega à segunda edição refletindo mudanças tecnológicas ocorridas na pandemia

A segunda edição da Bienal de Arte Digital, que começou sábado no Oi Futuro, no Flamengo, tem o tema “Condições de existência” — condições estas que mudaram bastante entre a primeira edição, em 2018, e a volta pós-pandemia, com o universo digital mais integrado ao cotidiano. Neste novo contexto, o evento (realizado no Rio e em Belo Horizonte) volta com obras de 60 artistas nacionais e estrangeiros, retratando a busca por formas de convivência.

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— Em 2018 a temática era mais técnica, sobre as linguagens híbridas. Agora, queríamos um pensamento mais filosófico — comenta Tadeus Mucelli, curador e idealizador do evento.

A série “obs-cu-ra”, do fotógrafo Bruno Alencastro, é um dos exemplos de trabalhos desenvolvidos no período da pandemia presentes na mostra. Sem poder sair de seu apartamento em Copacabana durante a quarentena, em abril de 2020, Alencastro transformou a residência numa espécie de câmera escura gigante, limitando toda a entrada de luz externa a um único ponto, o que fez com que o exterior fosse projetado de forma invertida no interior dos cômodos. No seu Instagram, o fotógrafo gaúcho criou uma rede de colaboração com mais de 80 pessoas em todo o mundo reproduzindo o experimento em suas casas, e algumas destas imagens estão no Oi Futuro.

— Aflito, sem poder sair, me perguntei: como trazer o mundo para dentro dela? — recorda Alencastro. — O interessante foi usar um processo anterior à própria fotografia e poder compartilhá-lo pelos meios digitais.

Após participar da primeira edição da bienal, o espanhol Solimán López volta ao evento com o projeto “Olea”, a partir da produção de um azeite que contém em sua fórmula o código de uma criptomoeda sintetizada em DNA. O líquido dá origem a NFTs e instalações digitais.

— É uma estratégia para se valorizar este produto da terra, que como arte digital chegou a ser vendido a 15 mil euros — destaca López. — O azeite já foi usado como moeda na Grécia Antiga, e na Espanha era chamado de “ouro líquido”. É ótima metáfora abordar o universo cripto, no mercado e na arte.

Se o azeite é “pessoal” para López por suas origens na Andaluzia, terra do ingrediente, a escritora, artista e MC sergipana Débora Arruda também apresenta um trabalho íntimo. No poema audiovisual “Álbum de estrelas”, ela estabelece um diálogo com o pai, que morreu de câncer em fevereiro. A origem indígena, com o lado materno descendendo dos aranãs de Minas Gerais, também é destacada na obra:

— Em 2015, comecei a ter contato com meus parentes, sanguíneos e indígenas, e isso começou a entrar de forma mais consistente na minha produção. Isso me deu outra perspectiva com essa dificuldade ocidental que a gente tem de lidar com a morte.

Para Tadeus Mucelli, as questões levantadas pelos trabalhos também apontam que mecanismos podem levar à coexistência:

— Temos esse desafio à frente de buscar formas de coexistir em sociedades fragmentadas, com realidades paralelas propagadas por meios digitais. Vamos precisar encontrar essas novas formas de convivência.