'Big Brother depois do Big Brother', CPI da Pandemia gera audiência na TV e engajamento nas redes sociais

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“Essa pergunta agora foi sugerida pelos internautas”, disse o senador Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia, durante o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello nesta quarta-feira. O parlamentar alagoano tinha aberto uma caixinha de comentários em seu Instagram oficial, no dia anterior, com os dizeres: “O que você gostaria de perguntar ao ex-ministro?”. Não se sabe se as perguntas feitas vieram do “Insta” do senador (“Foram milhares, separei algumas para fazer hoje”, escreveu ele num Stories”) ou do Twitter. Afinal, o tema é onipresente em todas as redes sociais.

— Essa CPI é o Big Brother depois do Big Brother — diz o cineasta Douglas Duarte, que tem experiência com esse vai e vem do Congresso como produto midiático. É dele o documentário “Excelentíssimos”, que acompanhou as movimentações dentro do Congresso Nacional durante os meses do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. — A única que lembro ter tão grande atenção foi a do Collor e do anões do Orçamento. Só que essa tem a novidade da mídia social.

Douglas não tem visto a CPI pela transmissão tradicional e nem precisa. Assim como nenhum fã do “BBB” precisava ver o resumo capitaneado por Tiago Leifert para saber o que se passava dentro da casa. Quem está no Twitter ou no Instagram está por dentro. E geralmente já com uma torcida para chamar de sua.

— Vemos certas coisas pela lente de alguém, com comentário, e nem sempre o bruto. Isso é rico, mostra um meio de a sociedade moldar o que está sendo feito ali. Por exemplo, o Marcelo Adnet imitando o Galvão Bueno (no Twitter, o humorista tem narrado as sessões). Cada pessoa reinventando a CPI está fazendo cinema e política. Alguns bem intencionados, outros não, mas cada um fazendo seu documentário.

Os parlamentares sabem que os cidadãos vão interferir nas transmissões, fazer escolhas de edição e criar memes — faz parte da construção de narrativa política que segue cada um - e por isso fazem suas intervenções “cinematográficas”. Douglas ressalta a existência de um “ecossistema” de produção de imagem desses servidores.

— Eles sabem que a TV Câmara e TV Senado não são suficientes e começam a filmar a si mesmos. Para mim, que trabalho com cinema, é interessante ver coisas sutis, como a mudança de ângulo de câmera que eles empreendem ali. Todas as câmeras oficiais estão mais altas que os atores, pela arquitetura da sala. Eles acabam diminuídos. — explica Douglas. — Eles, então, começam a se filmar debaixo para cima. São atores com seus celulares, fazendo seus documentários.

Na TV, a GloboNews vem liderando o ranking da audiência de TV por assinatura desde que a comissão começou, no dia 4 de maio. Com as transmissões dos depoimentos ao vivo, o canal apresenta um crescimento de 65% em relação ao seu próprio desempenho nas quatro semanas anteriores. No Twitter, GRANDE DIA (assim mesmo, em caixa alta), #CPIdoGenocidio e #CPIdaPandemia foram alguns dos trending topics.

— Uma novidade é que, como nos reality shows, os ex-ministros e gestores não estão sendo julgados apenas pelos senadores, as redes sociais estão ativamente apresentando desmentidos das falas, contradições e omissões, em tempo real. Confrontando o que é dito com as postagens nas redes — diz a pesquisadora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ivana Bentes. — A CPI é uma resposta a um outro tipo de pandemia, a infodemia, ou seja a circulação de informações desencontradas ou falsas que podem literalmente matar e comprometer quem as difunde.

Nada tradicional

Além da audiência crescente na TV e o engajamento recorde nas redes sociais, novas formas de transmissão também têm se aproveitado do interesse da população sobre o desenrolar da pandemia. A produtora de conteúdo Andreza Delgado sente esse efeito nas transmissões ao vivo de seu canal no Twitch, o Irmãos Delgado. Desde o início dos trabalhos da comissão, ela comenta as sessões (por cima das imagens da TV Senado), usando recursos de sonoplastia para animar ainda mais as reuniões (“Uepa”, de Ricky Martin, clássico da abertura da novela “Salsa e Merengue”, é um dos preferidos na hora dos bate-bocas).

— Hoje, a live chegou a bater 300 espectadores, o que é bastante porque geralmente elas têm entre 30 e 50 pessoas quando estou jogando - diz Andreza, que tem 25 anos e produz muito conteúdo sobre games. — Cada vez mais, as pessoas estão interessadas em acompanhar a situação do país principalmente no que diz respeito à pandemia. E o bom da Twitch é que você sai de uma transmissão tradicional: além dos comentários, tem o chat e os sons.

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