Big Brother: tecnologia já é usada nas empresas para controlar seu trabalho

Letycia Cardoso

Se alguém contasse que uma empresa americana começou a instalar chips sob a pele de seus funcionários para agilizar tarefas — como acessar informações em computadores e pagar compras —, ou ainda que companhias no Reino Unido monitoram remotamente a webcam de seus empregados para vigiá-los, você acharia que é coisa de ficção científica?

Apesar de inusitado, as práticas já acontecem no exterior. A tecnologia chegou no ambiente de trabalho para ficar e no Brasil não é diferente: o gerenciamento de dispositivos móveis permite desde saber a localização em tempo real do funcionário até bloquear aplicativos de redes sociais para que sejam usados apenas em horários de intervalo, por exemplo no almoço.

Vinicius Boemeke, diretor executivo da Pulsus, start up que oferece a solução para Ambev, Translovato Transportes e Infoco Distribuidora, explica que as companhias visam aumentar a sua produtividade. Por isso, a empresa até desenvolveu uma calculadora que estima o quanto é possível economizar a partir do gerenciamento dos dispositivos.

— Quando são usados apps que não são necessários ao trabalho, o gasto com internet é bem maior — explica: — Tivemos um cliente que conseguiu reduzir a franquia de dados de 5GB para 500Megas.

A Mobiltec é outra empresa que oferece a solução: aproximadamente 100 mil dispositivos de grandes empresas na América Latina, como Mc Donald’s, são gerenciados pelo software “cloud4mobile”. De acordo com o presidente Roni Silveira, com acesso remoto, empregadores podem até impedir que o funcionário desligue o aparelho pra não ser rastreado.

A empresa de segurança G4S também adota ferramenta semelhante para otimizar o uso de aparelhos celulares. O coordenador de sistemas de controle da informação, Wanderley Muniz, conta que a multinacional já estuda como a solução poderia substituir o ponto eletrônico. Ao invés de fazer a marcação ao chegar na empresa, o expediente só começaria a contar quando o empregado fizesse login no celular corporativo.

A tecnologia não é problema, mas, se é usada de forma ruim, acaba sendo nociva aos trabalhadores. Em minhas pesquisas sobre violência e relações de trabalho, comecei estudando as câmeras de vigilância de mercados, que vieram para substituir o segurança patrimonial, que era truculento. Como nenhuma tecnologia funciona sozinha, permanece submetida ao julgamento de um humano, que pode tirar conclusões com base em preconceitos.

Com certeza é um dispositivo de controle e punição. O trabalhador se sente o tempo todo vigiado e, se algo der errado, ele é o primeiro a ser investigado. Além disso, se o considerarem suspeito, ele é demitido sem nem saber o motivo, sem ter sequer a oportunidade de se defender.

O trabalhador acaba aprisionado em prol de uma maior produtividade. Deixa de tirar intervalos que são benéficos para a saúde. Só é considerado trabalho o tempo em que exerce a função, mas o tempo ocioso também é positivo: uma conversa com um colega pode deixá-lo mais criativo.

 

Greenpeace... utiliza o gerenciamento de sistemas mobile para atualizações remotas ou para efetuar bloqueios da instalação de aplicativos. Segundo a organização, o objetivo é otimizar os trabalhos de Tecnologia da Informação e proteger os dados.

A G4S... utiliza a solução para serviços de vigilância, sendo possível fazer o registro de ocorrências de forma remota. No dia a dia da empresa, o celular substituiu o bastão de ronda, promovendo economia com material que foi repassada aos clientes.

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