Bilionários jogam dinheiro para o espaço num mundo de pandemia à beira do colapso climático

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto um vírus domina o planeta e o faz parar, os seus homens mais ricos passam a disputar quem vai mais longe para escapar da órbita terrestre.

Nos filmes, os bilionários costumam aparecer bem preparados para se abrigar do apocalipse -muitas vezes gerado por sistemas de exploração do qual se beneficiam. Hoje, a distopia ultrapassa referências do cinema e requer estudos sociológicos sobre o fenômeno, já descrito como escapismo.

"Se essa casa queimar, não importa, eles levam seus recursos para seu outro planeta, no céu, no paraíso", disse à Folha o filósofo e sociólogo francês Bruno Latour, em referência ao negacionismo (da ciência, do clima e dos fatos) como recurso narrativo. Os mais ricos do mundo, no entanto, querem levar ao pé da letra a aposta maníaca de que seus poderes dispensam este planeta cheio de problemas.

Nove dias depois de Richard Branson, fundador da Virgin Galactics, ter se tornado o primeiro bilionário a alcançar a borda do espaço, nesta terça (20) foi a vez de Jeff Bezos, à frente da Blue Origin e também da Amazon, cujos lucros lhe renderam o título atual de homem mais rico do mundo. Logo atrás nas disputas olímpicas está Elon Musk, que fez sua fortuna com a empresa de carros elétricos Tesla e agora aposta no turismo espacial com a SpaceX, que deve decolar pela primeira vez em setembro.

A disputa dos bilionários sinaliza que suas fortunas não estão a serviço deste mundo (embora o contrário seja bastante evidente).

De turismo espacial a assentamentos humanos na Lua, as possibilidades das decolagens vingarem como negócio seguirão expandindo a lógica de que o topo da pirâmide econômica pode mesmo escapar deste mundo exaurido em busca de um lugar seguro -conceito absorvido pela lógica da elite econômica como um espaço restrito, privado, particular, pouco acessível. Ostentação no foguete, claro, afinal os aeroportos há muito tempo viraram rodoviárias.

Os 20 minutos de Branson até a borda do espaço custaram US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões). Os ingressos para embarcar em um passeio turístico pelo espaço podem custar de US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões) até US$ 28 milhões (R$ 145 milhões), valor já arrematado em leilão.

Um mundo profundamente desigual, à beira do colapso climático e ambiental e ainda atravessando uma pandemia exige um mínimo de ponderação ética diante da liberdade de se usufruir de fortunas pessoais.

Sem qualquer propósito científico, o capricho dos bilionários deliberadamente joga dinheiro para o espaço quando aqui ele é questão de vida ou morte, máscara ou contaminação, leito ou vacina, comida ou fome, trabalho ou miséria. Como diz o bordão criado pela atriz Ilana Kaplan, que fez sucesso na internet ironizando a ostentação em tempos pandemias: "é de bom tom? Não é de bom tom".

O constrangimento deveria ser ainda maior diante da revelação da agência jornalística americana ProPublica, no início de junho, de que os revezadores do pódio dos mais ricos do mundo têm feito manobras legais para pagar menos impostos do que o restante dos mortais.

"Em 2007, Jeff Bezos, então multibilionário e agora o homem mais rico do mundo, não pagou um centavo em impostos federais sobre a renda. Ele alcançou a façanha novamente em 2011. Em 2018, o fundador da Tesla, Elon Musk, a segunda pessoa mais rica do mundo, também não pagou imposto de renda federal", diz a reportagem.

A fuga dos bilionários também custa recursos naturais e gera impactos ambientais severos, que precisam ser estudados com mais profundidade antes que os voos sejam difundidos e se tornem mais frequentes. Se o turismo espacial vingar, precisará ser regulamentado para que os combustíveis das naves espaciais não se tornem mais um pesadelo ambiental.

Além da geração de lixo espacial, que implica riscos para a própria continuidade das atividades espaciais, segundo artigo publicado em 2018 pela agência de pesquisa Aerospace, o impacto ambiental mais pesquisado até aqui é a destruição do ozônio estratosférico, causada pelos combustíveis propelentes, segundo artigo publicado no último ano pela revista científica Science Direct.

A ameaça à camada de ozônio estava superada pelo Protocolo de Montreal, um dos mais bem sucedidos tratados ambientais, que em 1987 determinou a eliminação de gases danosos à camada protetora contra raios ultravioleta.

De lá para cá, o mundo passou a traduzir o desafio do desenvolvimento sustentável como aquele que respeita os limites planetários, condicionadores da saúde humana e da vida como um todo.

A crise ecológica e também a pandemia nos lembram que a humanidade pertence à Terra -e não o contrário. É justamente dessa verdade básica que tentam escapar quando disputam a altura a partir da qual podem se ver livres da atmosfera terrestre. Os bilionários tentam provar o poder sobre-humano de não precisar deste planeta.

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