Bill Nighy: o ator indicado ao Oscar que todo mundo ama, mas quase ninguém lembra o nome

O ator britânico Bill Nighy tentava descrever como tinha se preparado para seu personagem no novo drama "Living", que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Ele interpreta o sr. Williams, burocrata sério e lacônico na Londres pós-Segunda Guerra Mundial que, ao saber que está morrendo, decide finalmente viver. "Por favor, não leve muito a sério qualquer coisa que eu disser de agora em diante", disse Nighy. Ele estava em um carro, indo de Los Angeles a Palm Springs, na Califórnia, onde receberia o Prêmio de Astro Internacional no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, e ouvia "That's the Way I Feel About 'Cha", de Aretha Franklin, de sua playlist.

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"Nunca sei como falar sobre isso", continuou, referindo-se à sua profissão. "Quando o assunto é a mecânica da atuação, desconfio. Não porque seja extravagante, misteriosa, complicada ou etérea. Tudo é prática. Atuar é..." Aqui ele parou. Dava para ouvir o humor em sua voz, mesmo a 4.825 quilômetros de distância. "Comecei uma frase com 'Atuar é', e isso é um mau sinal", brincou.

Nighy, que tem 73 anos e já fez mais de 70 filmes, é uma espécie de arma secreta, porque suas interpretações são primorosamente calibradas e sempre memoráveis, embora raramente chamativas. Na pele de um famoso cantor pop entrado em anos que decide gravar uma música de Natal em "Simplesmente Amor", como o pai hipocondríaco da personagem-título na versão de 2020 de "Emma", como o espião envelhecido no filme da BBC "A Oitava Página", ou como o viúvo visitando sua ex-amante muito mais jovem, interpretada por Carey Mulligan, na nova montagem de "Skylight", de David Hare, no West End e na Broadway, ou mesmo (em uma parte pequena, mas marcante) como um historiador de arte falando liricamente sobre Vincent van Gogh em um episódio de "Doctor Who", Nighy assume plenamente seus personagens, permanecendo muito ele mesmo.

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É uma figura amada pelo público, pelos londrinos que muitas vezes o veem na cidade – uma das coisas que mais gosta de fazer é se sentar sozinho em um café e ler um livro –, e, a julgar pelas respostas quando seu nome é mencionado, por praticamente todos com quem já trabalhou. "Ele é infalivelmente gracioso e gentil. Um dos momentos mais sortudos da vida é quando você encontra um ator clássico muito bom que tem toda aquela profundidade emocional e tantas habilidades de atuação e que também é muito engraçado", definiu o diretor Richard Curtis, que escalou Nighy em "Simplesmente Amor" e com quem frequentemente trabalha desde então.

"Living" foi escrito especificamente com Nighy em mente. É um remake de "Viver", de Akira Kurosawa, sobre um burocrata no Japão do pós-guerra que desperta de uma inércia paralisante em seus últimos meses de vida. O romancista e ganhador do Prêmio Nobel Kazuo Ishiguro, cuja família se mudou de Nagasaki para a Inglaterra quando ele era menino, adora o filme e reconhecia os paralelos entre o Japão do pós-guerra e o Reino Unido do pós-guerra – ambos tentando se reconstruir depois das devastações da guerra, dominados pela repressão cultural e pelas expectativas sociais –, vendo o potencial para um remake do filme ambientado na Londres dos anos 1950.

Uma noite em Londres, Ishiguro e sua esposa, Lorna MacDougall, jantavam com o produtor Stephen Woolley e Elizabeth Karlsen, esposa deste. Nighy chegou atrasado. Foi então que Ishiguro mencionou a ideia de um remake – e comentou que seria um filme perfeito para Nighy. "Para um ator, é muito fácil interpretar estereótipos do cavalheiro inglês. Mas interpretar essa pessoa inglesa e adicionar a ela algo profundamente humano, assombrosamente humano, que não é só inglês, mas universal – é uma coisa muito especial. Foi por isso que pensei que tinha de ser Bill Nighy. Eu não conseguia pensar em mais ninguém", declarou Ishiguro em entrevista.

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Woolley concordou e convenceu Ishiguro a escrever o roteiro, mesmo que o autor estivesse escrevendo "Klara e o Sol" e afirmasse não ser bom de roteiro, relutando em assumir qualquer outra coisa. Ishiguro deu ao personagem principal o nome de sr. Williams, homenagem ao primeiro nome de Nighy.

Os diálogos – pelo menos no início, antes que o sr. Williams tenha uma epifania silenciosa, mas sísmica, sobre como deve viver sua vida agora dramaticamente encurtada – são austeros e lacônicos, com muitas cenas em que as pessoas tentam e não conseguem se expressar. (O personagem de Nighy recebe seu diagnóstico de câncer terminal de um médico que observa como a conversa é estranha. "Bem estranha", diz Nighy, quase se misturando aos móveis.)

"Bill tem uma compreensão inata do minimalismo quando se trata de cinema", observou Woolley. E comparou a atuação dele com aquela mais operística e emotiva de Takashi Shimura, estrela de "Viver": "Nighy tem uma maneira incrível de se comunicar fazendo muito pouco, só um pequeno gesto ou um sorriso. Consegue te derrubar só levantando uma sobrancelha. É um ator fantástico e um ser humano maravilhoso, e você raramente encontra isso na mesma pessoa."

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Nighy não sonhava em ser ator. Nascido em Caterham, no condado de Surrey, cresceu ao lado do posto de gasolina e da oficina mecânica que seu pai dirigia. Quando seu plano inicial de ser jornalista fracassou, matriculou-se na Guildford School of Acting. "Fiz escola de teatro porque alguém sugeriu que eu fosse para a escola de teatro, e a ideia de ser aluno era muito atraente. Pensei em fazer isso durante algum tempo. Eu nunca tinha pensado seriamente em atuar. Mas então consegui um trabalho, depois outro, e continuei."

No início, ganhava tão mal que era isento do imposto de renda. Complementava seus ganhos com outros bicos. "Fui motorista de táxi por algum tempo. Foi uma péssima ideia. Eu gastava muita gasolina, por razões óbvias. O que mais fiz? Fui lixeiro. Trabalhei em uma fábrica de plásticos. Vendi roupas simples na Feira da Surrey Street, em Croydon."

Ele apareceu em vários filmes ao longo da década de 1990, mas foi só em 2003, quando Richard Curtis o chamou para interpretar Billy Mack, a estrela pop que rouba cenas em "Simplesmente Amor", que seu momento chegou. "Fizemos uma grande leitura do roteiro com três quartos do elenco. Pedi ao diretor de elenco que encontrasse alguém a quem eu não pudesse dar o papel. Eu tinha visto Nighy no palco e pensei que ele era astuto, gentil, esquerdista e completamente errado para o papel", contou Curtis. Mas, cinco minutos depois da leitura, escalou Nighy, e o colocou em quase tudo que fez desde então.

Não que Nighy tenha visto qualquer um desses filmes ou, de fato, qualquer filme em que atue. "Bom, você gostaria de se sentar e se observar por algumas horas? Tentei quando era mais jovem e era menos complicado de olhar, e percebi que isso não é para mim. Não sou o público do meu trabalho. Se eu assistir ao que faço, a coisa toda é roubada de mim."

Em seu tempo livre, Nighy prefere ler e fazer longas caminhadas por Londres, visitando suas livrarias favoritas. Se tiver de ir a qualquer outro lugar, pega um táxi ou o metrô até a estação de trem. ("Não tenho carro, porque é inútil. Não sou um motorista natural. Tenho dificuldade em prestar atenção.")

Nighy levou a sério a mensagem sugerida no filme, a de que você deve viver cada dia como se fosse o último? "Muito da maneira como você pensa sobre sua idade e sua mortalidade é mítica ou é marketing. De alguma forma, você é persuadido a pensar que certas coisas não são para sua idade, ou que você deve ser atraído para as coisas por causa de sua idade. Mas não quero cair em nenhuma dessas armadilhas que dizem que eu deveria esperar isso ou aquilo. Sou um cara de sorte. Só quero manter as coisas animadas."