Quem é o republicano pró-legalização do aborto e da maconha que desafia Trump nas primárias dos EUA

(AP Photo/Andrew Harnik)

Ele é um pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos que historicamente defende os direitos da população LGBT e a legalidade do aborto e da maconha medicinal. Seu principal estímulo para entrar na disputa de 2020 foi conter Donald Trump, dizendo que "fará de tudo" para evitar a reeleição do empresário.

O personagem em questão poderia ser um dos vários democratas que estão se enfrentando nas primárias. Mas trata-se de Bill Weld, teoricamente o republicano com maiores chances de tirar de Trump a oportunidade de concorrer à reeleição em novembro.

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As chances 'maiores' em relação aos outros republicanos, no entanto, não configuram um cenário exatamente favorável a Weld. Trump conta com apoio quase integral dos dirigentes e parlamentares republicanos e é aprovado por cerca de 90% dos eleitores do partido, segundo o instituto Gallup.

A nomeação de Trump para as eleições de novembro é tão previsível que pelo menos sete estados cancelaram suas prévias republicanas, sacramentando o apoio ao presidente nesses locais.

Mesmo assim, o ex-governador de Massachusetts está tentando suas chances. "Planejo vencer essa corrida", disse Weld em entrevista à Boston Magazine. "Acho que esse país está em perigo com o Trump, porque acredito que a ideia que ele tem na cabeça está sistematicamente desmontando nossas instituições democráticas."

Como Weld poderia ganhar de Trump?

 Assim como a eleição presidencial, as prévias representam um voto indireto do eleitor americano. A população escolhe seu pré-candidato favorito e os votos são convertidos em um número de delegados que representarão os políticos na convenção nacional do partido. 

Para conquistar a nomeação, não há muito segredo: é preciso receber o maior número de votos nas prévias e, assim, colecionar delegados. Quem conseguir mais de 50% dos delegados – no caso dos republicanos, 1.277 de um total de 2.552 – garantirá sua indicação. 

Na primeira etapa, Weld conseguiu um feito em Iowa, primeiro estado a realizar as prévias, em 3 de fevereiro. Ele recebeu 426 votos contra mais de 31 mil de Trump, mas foi o único pré-candidato republicano a conquistar um delegado – o atual presidente levou os outros 39 em disputa. "Apesar desse enorme obstáculo, chegamos em segundo, e parece que ganhamos um delegado", comemorou o ex-governador no Twitter, após a prévia.

O resultado, no entanto, foi mais uma indicação de que a confirmação de Trump como nome republicano é apenas questão de tempo, e não deve demorar muito.

Liberal nos costumes, conservador na economia

Enquanto isso, Weld continua fazendo campanha intensa nos primeiros estados a realizarem suas prévias e é um personagem de apelo para os pouco republicanos insatisfeitos com Trump.

Weld governou Massachusetts entre 1991 e 1997, inclusive conquistando a reeleição em 1994 com 71% dos votos. Mas sua experiência em eleições posteriores não foi positiva: foi derrotado em corridas para o Senado em 1996 e para o governo de Nova York em 2006 – nesse último, caiu ainda nas prévias republicanas. 

O ex-governador ainda disputou a última eleição presidencial em 2016 como vice de Gary Johnson no Partido Libertário – a chapa recebeu quase 5 milhões de votos (3,28%) pelo país e ficou em terceiro lugar, atrás de Donald Trump e Hillary Clinton. 

A aproximação de Weld com os libertários expõe o perfil "liberal nos costumes e conservador na economia" adotado pelo ex-governador, que defende bandeiras progressistas ligadas a drogas, direitos de minorias e à liberdade de as mulheres realizarem aborto. Ao mesmo tempo que essas características o aproximam dos democratas e republicanos moderados, elas são uma barreira como o eleitorado republicano tradicional e conservador, que é a maioria no seu partido.

Mas Weld não desistiu, pelo menos por enquanto, do sonho de ser presidente. Segundo ele, se os republicanos não pararem o "racismo ultrajante" do presidente agora, o partido corre o risco de se fragmentar em dois, com uma ala tradicional e outra ligada a Trump. "E o caminho do Trump tem um apelo anti-imigração, comícios violentos e teorias da conspiração", disse ele à Boston Magazine.