'Billdog 2' acompanha dúvidas existenciais de um matador

Gustavo Cunha

Para um assassino de aluguel, a falha no cumprimento de uma missão criminosa pode inspirar uma encorpada crise existencial seguida por consultas a um psiquiatra. Está aí o pontapé da história de “Billdog 2”, que estreia nesta sexta-feira no CCBB, em montagem inédita para o texto do inglês Joe Bone.

Segunda parte de uma trilogia elogiada na Europa, o espetáculo novamente põe Gustavo Rodrigues na pele do mercenário que dá nome à peça — desde 2012, o ator encena o primeiro pedaço da obra (“Billdog”) em diferentes cidades do país. Mais uma vez ele assina a adaptação da dramaturgia, dirigida a quatro mãos com o próprio Bone, e com supervisão artística de Guilherme Leme Garcia.

Apesar do caráter sequencial, a narrativa não exige que o espectador tenha assistido à primeira parte. Longe disso. Há personagens que se repetem, mas sempre com autonomia.

— A pergunta que sobressai agora é: como esse homem chamado Billdog se tornou uma máquina de matar? Ele vive um drama ao vislumbrar tudo o que poderia ter sido se morasse numa casa no campo, por exemplo. É uma questão de todos nós. O que poderíamos ter sido se não fôssemos o que somos? — diz Rodrigues.

A trama se sustenta sobre uma linguagem irreverente. Em cenário neutro, acompanhado pelo músico Tauã de Lorena, Rodrigues se divide entre todos os 46 personagens do espetáculo, além do protagonista, incumbindo-se de reproduzir uma série de efeitos sonoros para compor a sonoplastia marcada por tiros, motores de motos, rangidos de portas e faíscas de isqueiros. À ambientação noir com pitadas de humor, instalada numa cidade fictícia, somam-se referências fisgadas de filmes, músicas e HQs dos anos 1970 e 80.

— A peça se constrói na imaginação do público. Tudo é muito claro, apesar de também subjetivo. E isso é genuíno, ainda mais nesta era de imagens tão mastigadas, porque exercita o imaginário de quem assiste — ressalta Rodrigues, que iniciou os ensaios em março do último ano, em encontros na casa do autor, na Inglaterra.

Centro Cultural Banco do Brasil (Teatro III): Rua Primeiro de Março 66, Centro — 3808-2020. Qua a dom, às 19h30. R$ 30. 65 minutos. Não recomendado para menores de 18 anos. Até 23 de fevereiro.