Bingo do Heinze: Entenda como Mia Khalifa virou assunto da CPI da Covid

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Mia Khalifa, ex-atriz pornô (Foto: Reprodução)
Mia Khalifa, ex-atriz pornô (Foto: Reprodução)
  • Declarações do senador governista Luiz Carlos Heinze na CPI da Covid viraram meme nas redes sociais

  • Parlamentar usa dados distorcidos para defender 'tratamento precoce' contra a covid, sem eficácia

  • Didier Raoult, Rancho Queimado, Big Pharma e uma atriz pornô são termos constantes nas falas do senador

Senador Luiz Carlos Heinze, integrante da tropa de choque do presidente Jair Bolsonaro na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, é defensor do chamado “tratamento precoce” com medicamentos comprovadamente ineficaz contra a covid. O parlamentar defende o uso do 'kit covid', com medicamentos como cloroquina e hidroxocloroquina, ivermectina e azitromicina.

Em todas as suas falas, ele cita diversos "dados" e "estudos científicos" para sustentar sua defesa pelos medicamentos.

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Por esse motivo, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) anunciou que vai entrar com uma representação no Conselho de Ética contra o senador governista pela divulgação de informações falsas durante suas falas na comissão.

Nas redes sociais, Heinze já virou motivo de chacota pelas fake news divulgadas. Em quase todas as sessões da CPI da Covid no Senado, quando Luiz Carlos Heinze tem a palavra, ele cita termos como Didier Raoult (chamado nas redes de DJ Raul), o município de Rancho Queimado, Big Pharma, entre outros. 

O parlamentar gaúcho chegou a dizer que haveriam “interesses econômicos” contra o “kit covid” - uma teoria da conspiração chamada de Big Pharma.

"[Precisamos] Tirar a ideologia de lado, tirar a Big Pharma de lado e ver o tratamento eficaz", disse ele.

Senador Luiz Carlos Heinze (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)
Senador Luiz Carlos Heinze (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)

Entenda alguns nomes da cartela de Bingo do Heinze:

Bingo do Heinze
Bingo do Heinze (Reprodução/ Redes sociais)

Mia Khalifa

O vice-presidente da CPI da COVID, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ironizou que pretende convocar a ex-atriz de filmes pornôs Mia Khalifa para prestar depoimento no Senado.

"Ao que tudo indica, considero inevitável ter que convocar a Mia Khalifa para a CPI”, brincou Randolfe, após uma fala de Heinze.

O senador governista Luiz Carlos Heinze faz referência a uma pesquisa sobre a eficácia de cloroquina feita por uma empresa que tinha como funcionária uma atriz pornô, mas na verdade nunca citou o nome de Mia. Essa pesquisa foi divulgada pela revista científica The Lancet.

"Pesquisadores começaram a investigar e descobriram que a gerente de vendas da Surgisphere era, pasmem, Sras. Deputadas que estão aqui, Srs. Senadores, a gerente de vendas da Surgisphere era uma atriz pornô. Uma atriz pornô. Nada contra ela", disse o senador durante a CPI da Covid.

No entanto, nas redes sociais, internautas lembraram de uma postagem feita no início da pandemia por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que divulgaram uma notícia sobre a pesquisadora Marcela Pereira, com uma foto de Mia Khalifa.

“A pesquisa em Harvard, uma universidade respeitada, e essa pesquisa foi publicada na The Lancet e houve a retratação. Quem pagou essa pesquisa, senador Omar Aziz? Foi um escritório de uma moça, nem citei o nome dela, mas já saiu que eu tinha citado o nome de uma atriz pornô. Eu citei o nome de uma atriz? Só falei que era uma empresa de uma atriz pornô. Como essa moça tem interesse em fazer essa pesquisa de hidroxicloroquina?”, disse Heinze.

Mia, que ficou mundialmente conhecida como fenômeno da indústria pornográfica depois de fazer 11 filmes do gênero entre 2014 e 2015, entrou na brincadeira.

“Eu não sei quem precisa ouvir isso, mas eu não sou uma médica, então não aceite conselhos médicos de memes falsos meu que você encontrou no WhatsApp. Tchau”, escreveu no Twitter.

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Didier Raoult

Um dos nomes preferidos do senador Heinze é o microbiologista francês Didier Raoult, que fez um suposto estudo provando que a hidroxicloroquina seria eficaz contra a covid-19.

Durante o depoimento da infectologista Luana Araújo, Heinze voltou a utilizar o argumento. A médica, então, perguntou se o senador tinha conhecimento sobre o “prêmio” Rusty Razor, cujo vencedor em 2020 foi justamente Didier Raoult. Heize disse desconhecer.

O “prêmio” Rusty Razor, criado pela revista britânica “The Skeptic”, é uma sátira. O vencedor é considerado o pior promotor da pseudociência. Ou seja, o “prêmio” é dedicado a pessoas que propagam a desinformação – como é o caso do francês, que alegou ter provado a eficácia da cloroquina contra a covid-19.

Na ocasião da premiação, o editor da revista Skeptic, Michael Marshall, revelou que a publicação recebeu diversas indicações para o prêmio, entre eles Donald Trump e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“É difícil achar um exemplo de charlatanismo que tenha se espalhado tanto, influenciando a resposta da saúde pública para uma pandemia e criando uma confusão ao redor de todo o globo”, declarou Marshall. “Pela promoção dele da hidroxicloroquina, e as falhas científicas que formaram a base dessa promoção, Raoult é um vencedor digno do prêmio Rusty Razor 2020 para a pseudociência.”

Rancho Queimado

O município catarinense Rancho Queimado, de 2.887 habitantes, ganhou fama na CPI da Covid como um suposto exemplo de sucesso no uso de medicamentos do 'tratamento precoce' contra a covid-19, resultado da distribuição do chamado 'Kit covid'.

 No entanto, segundo os dados disponíveis no governo Estado, Rancho Queimado tem taxa de letalidade de 1,06%, maior do que cidades como Florianópolis, Blumenau e Jaraguá do Sul.

Jair Bolsonaro em Chapecó
Jair Bolsonaro em Chapecó

Chapecó (SC) também é outro município citado por Heinze. Apontada como exemplo no combate à covid-19, a cidade chegou a ter 100% dos leitos de UTIs lotados no SUS e na rede privada. O município acumula ainda mais mortes por 100 mil habitantes do que o país e que Santa Catarina. A cidade apresentou taxa de 243 mortos para cada 100 mil habitantes, superior à média nacional (157,7 vítimas) e de Santa Catarina (158), segundo dados do Ministério da Saúde.

Revista Jama

Em abril de 2020, parte de uma pesquisa sobre o efeito de doses altas versus doses baixas de cloroquina em pessoas com quadro grave de Covid-19 hospitalizadas em Manaus foi interrompida depois que 11 pessoas que receberam dosagens mais altas do medicamento morreram. 

O estudo duplo-cego randomizado foi conduzido por pesquisadores brasileiros e publicado na revista científica The Journal of the American Medical Association (Jama) em 24 de abril do ano passado.

Na época, Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito para investigar a suspensão do estudo no grupo que recebeu alta dosagem. Ainda em junho de 2020, o Ministério Público do Amazonas (AM) instaurou um procedimento de investigação criminal. Não há nenhuma comprovação de que houve má prática ou negligência.

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