Biografia conta que, antes de entrar para a história como fundador de Niterói, Arariboia ajudou a fundar o Rio

Na celebração dos 450 anos de aniversário do Rio, em 2015, a prefeitura formou uma comissão para indicar os personagens do “Livro dos Heróis e Heroínas da Cidade do Rio de Janeiro”. O professor de história e escritor Luiz Antonio Simas integrou o grupo e se lembra ainda hoje de certo espanto provocado pela menção ao nome de Arariboia, entre personalidades como o sambista Cartola, a estilista Zuzu Angel e o escritor Machado de Assis.

— No imaginário geral, há ligação íntima e evidente dele com Niterói, mas trata-se de um personagem essencial na história da fundação do Rio de Janeiro. Arariboia é cariocaço — afirma Simas, que, não por acaso, assina a orelha do livro “Arariboia — O indígena que mudou a História do Brasil”.

Recém-lançado, o ensaio biográfico do jornalista Rafael Freitas da Silva joga luz sobre a origem “da gema” do protagonista. O cacique temiminó que entrou para a História como fundador de Niterói nasceu na Ilha do Governador, na aldeia dos maracajás, em torno de 1520, e, até o fim da vida, em 1589, circulou por diversos cantos cariocas. Estava ao lado de Estácio de Sá na defesa da paliçada aos pés do Pão de Açúcar, onde o militar português fundou o Rio de Janeiro. Dois anos depois, quando a cidade se mudou para o Morro do Castelo, continuou a protegê-la, instalado com seus comandados na várzea da Praia da Piaçava, região da atual Praça Quinze.

No caminho para o Centro houve, em janeiro de 1567, a famosa Batalha de Uruçumirim: na disputa pela conquista da Guanabara, os portugueses e seus aliados temiminós, de um lado, e franceses, apoiados pelos tupinambás (ou tamoios), do outro, se enfrentaram na altura de onde hoje se encontra o Outeiro da Glória. Em um único relato da época, Mem de Sá, tio do capitão Estácio de Sá e então governador-geral da colônia, reconhece que, durante a batalha, “foram mortos e feridos muitos dos cristãos”. Um deles foi seu sobrinho, atingido pela flecha que viria a matá-lo dias depois.

— O Rio louva Estácio de Sá, figura central nos livros de História, mas o fato é que ele não chega a se banhar no Rio Carioca e não governa a cidade. Vai ser lembrado como o fundador, por dar a vida na Batalha de Uruçumirim. Quem sobrevive a essa e a outras guerras é o Arariboia. É ele que vai conquistar o Rio, morar aqui, sustentar suas defesas e tomar banho no Carioca — observa Rafael Freitas da Silva, também autor de “O Rio antes do Rio”, sobre os povos originários da Guanabara, inspiração para o enredo da Portela no carnaval de 2020.

Depois de Uruçumirim, novo embate sangrento contra os tupinambás se deu na aldeia de Paranapucu, em plena Ilha do Governador, reduto original de Arariboia e seus irmãos maracajás. O livro conta como, cerca de dez anos antes da fundação do Rio, acossados por tupinambás do continente e na iminência de ser dizimados, os maracajás foram resgatados por portugueses e levados em quatro naus da Guanabara para a capitania do Espírito Santo — lá, Arariboia e os seus ainda lançariam as bases para a fundação de outra cidade, Serra, mas essa é outra história.

— Em fevereiro de 1567, Arariboia e os maracajás vão suplantar seus inimigos tupinambás (ou tamoios) e terão essa glória na própria região da Ilha do Governador, de onde tinham sido expulsos — conta o escritor.

Àquela altura, o Rio de Janeiro, recém-nascido e no alto do Morro do Castelo, ainda inspirava cuidados com a segurança. Em 1568, o governador-geral Mem de Sá tomou atitude inédita: solicitou a Antônio de Mariz, importante morador da capitania de São Vicente, que abrisse mão de sesmaria recebida do outro lado da baía, “a favor do capitão Martim Afonso de Sousa”, o nome cristão de Arariboia, batizado pelos jesuítas. Por serviços prestados, o cacique temiminó recebeu o vasto pedaço de terra que se estendia do Forte do Gragoatá ao Rio Maruí, hoje na divisa de Niterói com São Gonçalo.

— Em carta à rainha Catarina, Mem de Sá justifica que o negócio é feito “para o bem da república”. Se Arariboia vai embora naquele momento a res publica (a coisa pública) deixa de existir — observa Rafael Freitas da Silva.

Recompensado, Arariboia continuaria no Rio, por determinação do governador-geral. De 1568 até pelo menos 1573, o cacique ocupou a aldeia de Gebiracica, na foz do Rio Comprido, propriedade de jesuítas antes ocupada por tupinambás, na várzea da Tijuca.

Na Zona Norte carioca, também em posição estratégica de proteção da cidade, a comunidade identificada como “Aldeia do Martinho” em mapas da época foi palco da última grande batalha de Arariboia. Atacados por tamoios de Cabo Frio e quatro naus francesas — que tinham como alvo principal o próprio cacique temiminó —, os maracajás resistiram e venceram.

O feito, considerado histórico, inspirou pesado revide contra aldeias dos tamoios em Cabo Frio e levou o prestígio de Arariboia às alturas na metrópole. O próprio dom Sebastião, rei de Portugal, presenteou o cacique com pensão, um traje real e o transformou em Cavaleiro da Ordem de Cristo, tornando-o um integrante da nobreza lusa.

Reconhecido por seus pares e autoridades da colônia, Martim Afonso Arariboia viveu no Rio momentos de celebridade. Em 1570, casou-se na antiga Sé, em cerimônia descrita pelo jesuíta Gonçalo de Oliveira como o grande acontecimento social do ano. Em carta, o religioso conta que o noivo foi recebido no porto pelo governador Salvador de Sá, desfilou pela cidade e promoveu grande festa na aldeia de Gebiracica.

Empolgado, na orelha do livro Luiz Antonio Simas sugere: “atraquem uma enorme aldeia temiminó em Niterói, arranquem a estátua do indígena que parece flutuar altaneira do outro lado da baía e a tragam para o Rio”.

— Niterói se orgulha de ter sido fundada por um indígena. Nosso nome significa “águas escondidas”, em tupi, essa inspiração se espalha por bairros como Itaipu, Icaraí e Ingá. Vamos completar 450 anos em 2023, e Arariboia, símbolo que sempre valorizamos, contribui para pensarmos no futuro que queremos, na cultura, no meio ambiente e em outras áreas — diz Alexandre Santini, secretário das Culturas de Niterói.

— Na estátua diante da estação das barcas, em Niterói, Arariboia está olhando para o outro lado da baía — observa Rafael, antes de contemporizar. — É um ícone, o fundador da cidade, e a referência dele como personagem de Niterói é, mais do que justa, cultivada por pesquisadores da cidade.

A propósito: depois de deliberar, a comissão dos 450 anos do Rio incluiu Arariboia no “Livro dos Heróis e Heroínas da Cidade do Rio de Janeiro”.