Biografia destaca importância do Fundo de Quintal para o samba e autor afirma: 'Não é chapa-branca. Conto sobre brigas, drogas...'

Na música “A batucada dos nossos tantãs”, um dos maiores sucessos do grupo Fundo de Quintal, os artistas cantam: “No seu ecoar, o samba se refez”. A frase pode até ser julgada como modesta vindo deles. No mundo da música, há consenso de que foram os próprios que revolucionaram o samba, pautando a formação instrumental (especialmente pelo repique de mão e tantã) dos grupos do gênero até hoje.

Para traduzir tal importância, chega à livrarias a biografia “Fundo de Quintal — O som que mudou a história do samba” (Ed. Malê), que tem lançamento hoje, às 18h, na Blooks (Praia de Botafogo 316). O grupo, claro, estará presente.

— É muito importante historiar a evolução e a revolução do samba do Fundo de Quintal. Deixar esse legado registrado para que as próximas gerações possam se inspirar e para dar sentido à canção que diz “o show tem que continuar”. Fui um dos fundadores, com muita honra! Tenho orgulho de dizer. Não saí para fazer carreira solo, queria ficar só escrevendo música — avalia Jorge Aragão, que esteve no primeiro álbum do grupo, ao destacar a relevância do livro.

Quando decidiu escrever sobre o Fundo de Quintal, em 2017, o autor Marcos Salles se surpreendeu ao saber que outros jornalistas já tinham proposto uma biografia, mas não tinham tido adesão dos sambistas. Ou autor também é músico e participou da produção de discos do grupo.

— No início, falo que estou dentro da história. Não tem como eu não estar, porque participei de várias coisas. Porém, não é um livro chapa- branca. Há um capítulo falando de brigas, outro das drogas... — avisa Salles, que dedicou um capítulo a Beth Carvalho, que abriu portas para o grupo nas gravadoras e na TV.

Última morte

Marcos precisou incluir uma nota triste à obra. Assim que terminou de escrever, no fim de 2020, Ubirany, um dos fundadores, morreu de Covid-19, aos 80 anos:

— Contei o final do Ubirany, seus últimos dias, como tudo aconteceu e a parte médica. Assim como tem os últimos dias do Mário Sérgio, do Neoci e do Almir Guineto, que foram ex-integrantes.

Entrada do banjo

Almir, aliás, faz parte de um momento inédito do livro. Ele foi responsável por incluir o banjo no samba. Salles sempre ouvia que Almir havia serrado o banjo para deixá-lo com um braço menor, como o conhecemos no samba. Não satisfeito com essa versão, o autor tirou a história a limpo.

— O Almir tocava cavaquinho com os Originais do Samba, grupo do Mussum, que viu o banjo fora do Brasil e insistia para que ele tocasse o instrumento com eles, já que Almir arrebentava muito as cordas do cavaquinho por conta do andamento acelerado das músicas. No banjo as cordas são mais resistentes — explica o autor, que completa: — Almir viu numa loja o banjo com um braço curto e comprou. Ele não era luthier. Não seria simples serrar o instrumento.

Chegadas e partidas

Com 45 anos no mundo do samba, o Fundo de Quintal teve muitas mudanças de formação. Atualmente, apenas Bira Presidente e Sereno são da formação original.

Os integrantes que saíram, no entanto, continuam conectados com o espírito do Fundo. O cavaquinista Márcio Alexandre lembra de quando entrou na trupe, em 2016.

— Sombrinha me chamou na casa dele e falou das músicas que causavam efeitos, mostrou como era a levada dele, para eu fazer parecida — recorda Márcio sobre o artista que já deixou o grupo há mais de 20 anos.

Outros livros

Salles também trabalha em biografias de outros nomes do samba, como Jovelina Pérola Negra, Sombrinha, Almir Guineto e Arlindo Cruz. Esta última deve ser a próxima a ser publicada. Marcos vem visitando a família do cantor, que sofreu um acidente vasculhar cerebral (AVC) em 2017.

— É incrível o olhar dele nos acompanhando. Estou na torcida para que Arlindo volte a falar, pelo menos. Outro dia, a Babi (sua mulher) foi dar uma bitoca e ele meteu a língua na boca dela. Aí foi um beijão.