Biografias de ícones do movimento negro desaparecem de site da Fundação Palmares

O Globo
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Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares

RIO — Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo é acusado por funcionários de censurar biografias de personalidades históricas no site da autarquia, sobretudo as identificadas como ícones de movimentos sociais associados à esquerda.

Uma página com um mosaico com links para biografias de figuras históricas como Zumbi dos Palmares (que dá nome ao órgão e já foi alvo de vários ataques de seu presidente), o jornalista e abolicionista Luís Gama, o engenheiro André Rebouças e a escritora Carolina de Jesus não aparece mais no site.

Segundo reportagem da "Folha de São Paulo", servidores da Palmares relataram, em condição de anonimato, que a orientação para censurar os textos partiu da presidência. O site da Fundação chegou a ser alvo da Justiça no dia 29 de maio, quando a juíza federal Maria Cândida Almeida, da 9ª Vara de Justiça do DF, determinou a retirada de artigos que desqualificam a figura de Zumbi dos Palmares. Os artigos em questão, “A narrativa mística de Zumbi dos Palmares”, de Mayalu Felix, e “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de verdade?”, de Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, foram publicados no dia 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil.

O próprio Camargo é alvo de um pedido de tutela provisória de urgência no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para suspender sua nomeação, feito no dia 6 de junho, pela Defensoria Pública da União (DPU). No documento, o órgão solicita que os efeitos da decisão liminar da Justiça Federal do Ceará, que impediram a nomeação de Camargo em dezembro de 2019, sejam restabelecidos. A ação foi motivada pelo vazamento de um áudio gravado em uma reunião em abril no qual o jornalista classifica o movimento negro como "escória maldita".

Camargo também se envolveu em uma briga pública com Alcione, a quem chamou de "barraqueira" pelo Twitter, após desabafo da cantora na live de Teresa Cristina, na noite em que os audios da reunião foram revelados. Alcione chamou Camargo de "Zé Ninguém da Fundação Palmares" e disse que "quando a gente vê uma pessoa da nossa cor falando uma besteira daquelas, tenho vontade de arrancar da televisão e encher de porrada pra virar gente". Camargo escreveu desprezar as declarações de Alcione, "assim como sua insuportável 'música'!". Um vídeo em desagravo à cantora foi publicado dias depois, com a participação de grandes nomes da música brasileira, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marisa Monte, Paulinho da Viola, Emicida e Maria Bethânia.

O presidente da Fundação Palmares é acusado por historiadores de tentar reescrever a trajetória de lutas dos negros e de alguns de seus heróis. O jornalista chegou a propôr no Twitter uma enquete para escolher um novo nome para o órgão, substituindo o de Zumbi.

Ainda segundo a reportagem da "Folha", também foi retirada uma estátua de Zumbi da entrada da sede da Fundação, que estaria guardada em um depósito.