Biomas destruídos por desmatamento e fogo desmentem Bolsonaro na ONU; veja situação de cada um

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  • Presidente exaltou política ambiental do país, mas situação de biomas destrói tese

  • Especialistas apontam pressão em todos os seis biomas existentes no país

  • A Amazônia é um dos locais mais atingidos negativamente durante a gestão Bolsonaro

O Brasil do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU descreveu um país preocupado com a conservação ambiental que não se vê na vida real. Especialistas, dados e pesquisas apontam para uma pressão em todos os seis biomas brasileiros.

— Nenhum está a salvo. Todos têm desmatamento — avalia Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

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O fogo, por exemplo, queimou pelo décimo-primeiro dia seguido a Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Segundo o Inpe, houve alta de 48% no número de focos de queimadas no bioma em agosto, em relação ao mesmo mês no ano passado: foram 15.043 em comparação com 10.115 no mesmo período em 2020.

No discurso da ONU, o presidente orgulhou-se de que o país tem 66% são vegetação nativa, “a mesma desde o seu descobrimento, em 1.500” — o que, de acordo com Azevedo, também não é verdade.

— Tem uma parte importante que já foi desmatada alguma vez e outra que já foi degradada, por fogo, exploração florestal ou outros tipos de impacto — explica.

Na avaliação de Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil, ter 66% de vegetação nativa significa que temos uma "poupança gigantesca", mas o problema é como está sendo usada.

— O Brasil não precisa mais cortar nenhum pé de árvore para continuar expandindo a agropecuária, já temos áreas abertas e mal aproveitadas, que podem ser usadas para isso. Esse é um dado importante, e cacifa o país para ser um grande provedor de alimentos e conservação. Mas estamos consumindo essa reserva de maneira muito rápida e acelerando seu consumo. Esse discurso de que temos 66% protegidos então estaria "bom" é uma falácia. As fronteiras de desmatamento no Brasil são as maiores do mundo atualmente — avalia.

O presidente ainda defendeu que “nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa” e afirmou que nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países. Oliveira, no entanto, cobra que apesar de completo, ele não está implantado:

— Mais de 90% do desmatamento que acontece no Brasil é ilegal. Temos milícias do desmatamento atuando de maneira bem forte no Cerrado e na Amazônia. Não dá para falar que somos o país que mais conserva com a atual quantidade de terras que estão sendo griladas, e isso apoiado por legislações que facilitam, como a "MP da grilagem" que foi proposta pelo governo. Temos muito dever de casa pela frente — afirma o diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Amazônia: maiores taxas de desmatamento são na gestão Bolsonaro

A área desmatada da Amazônia em agosto de 2021 é a maior para o mês em dez anos, segundo dados do Sistema de Alerta de Desmatamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônica (Imazon).

— Quando falta política pública para o combate, especialmente por parte do governo federal como tem acontecido agora, estimula a derrubada de floresta — diz Carlos Souza Jr., pesquisador do Imazon.

Ainda de acordo com a Imazon, nos últimos dez anos, os meses de agosto com maiores taxas de desmatamento foram justamente nos anos do governo Bolsonaro, em 2019, 2020 e 2021, que atingiu 7.715 km² de floresta derrubada no mês.

Mata Atlântica: situação preocupante de bacias

Relatório do MapBiomas aponta que a situação de importantes bacias hidrográficas para o abastecimento de água dos estados da Mata Atlântica, onde se concentram grandes centros urbanos, é preocupante. Muitas têm baixa cobertura vegetal e isso afeta a produção de águas, diz o estudo. A bacia do Paraná, por exemplo, teve sua cobertura nativa reduzida de 24% em 1990 para 19% em 2020.

— A mata protege a água. Enquanto isso, a gente está desmatando nascente e beira dos rios. A água nasce protegida pela floresta — diz Luis Fernando Guedes Pinto, especialista do SOS Mata Atlântica.

Cerrado: última década foi trágica

Bioma com apenas 54,5% de seu território coberto por vegetação nativa, segundo levantamento do MapBiomas, o Cerrado continua a ser devastado. Apenas entre 2010 e 2020, perdeu quase 6 milhões de hectares de vegetação nativa — inclusive áreas importantes para provisão de água—e quase toda a derrubada foi destinada à agropecuária, que já ocupa 44,2% do seu território.

— Existem algumas áreas muito mal exploradas, altamente degradadas, que produzem muito abaixo do potencial. Ou seja, não é preciso continuar desmatando para aumentar a produção — afirma Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Caatinga: setembro com alta de incêndios

A dez dias do fim do mês, setembro de 2021 já registrou o maior número de focos de incêndio na Caatinga dos últimos dez anos, segundo o programa Queimadas, do Inpe. Eles estão concentrados no encontro com o Cerrado, na fronteira agrícola conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Segundo o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas, 13% da Caatinga está em processo avançado de desertificação. Hoje, há 46,5% da vegetação nativa original do bioma, que também está presente no Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Minas Gerais.

Pampa: agricultura avança sobre bioma

O avanço da soja sobre pastagens naturais e até mesmo áreas de plantio de arroz se transformou na principal preocupação do pampa, bioma que ocupa cerca de dois terços do território gaúcho e perdeu 21,4% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2020, segundo dados do MapBiomas. Em 1985 a agricultura ocupava 29,8% do bioma. No ano passado, passou a usar 39,9%.

Segundo Heinrich Hasenack, coordenador do mapeamento, os campos do pampa permitem que o gado seja alimentado com dieta completa e, com práticas adequadas de manejo, assegura, a criação de bois tem retorno financeiro similar ao do cultivo de grãos, preservando a biodiversidade.

Pantanal: 2020 teve mais de 17 milhões de animais mortos

A área queimada no Pantanal, em 2021, passou de um milhão de hectares nesta semana. A marca equivale a quase o dobro da média histórica para este período, de 616 mil hectares. Os dados são do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ. Em 2020, foram 4 milhões de hectares queimados e 17 milhões de animais vertebrados mortos.

— O período de setembro e outubro é bastante crítico que geralmente é o pico da época do fogo na região. É natural que ele aumente bastante. Mas está muito acima da média e por isso é bastante preocupante — analisa a climatologista Renata Libonati, coordenadora do laboratório.

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