Birmaneses voltam às ruas, apesar da mobilização do Exército

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Manifestantes pró-democracia voltaram às ruas nesta segunda-feira (15) em Mianmar, mas em menor número do que nos dias anteriores, depois que a junta militar intensificou sua repressão com o envio de tropas.

Em Yangon, a capital econômica, milhares de manifestantes se reuniram perto da sede do banco central no norte da cidade para convocar os trabalhadores à greve.

Alguns agitavam bandeiras vermelhas com as cores da Liga Nacional para a Democracia (NLD), o partido de Aung San Suu Kyi, enquanto outros gritavam "fora ditadura!". Na sede do banco central, no norte da cidade, também houve protestos.

Apesar das ameaças, "os movimentos populares não vão parar, o primeiro passo foi o mais difícil, não temos medo de sermos presos ou alvejados", disse Nyein Moe, um guia turístico.

Mas as multidões eram menos numerosas do que nos últimos dias, notaram jornalistas da AFP.

A presença de militares, apoiados por veículos blindados, também limitou o número de manifestantes.

"Estão tentando nos assustar com o envio de soldados", disse Htet Aung, brandindo um cartaz pedindo "desobediência civil" na frente de um caminhão militar.

No dia anterior, o Exército implantou tropas em várias cidades birmanesas.

"Tivemos muito medo. Achávamos que eles atirariam em nós como no passado", comentou Nyein Moe, referindo-se aos levantes populares de 1988 e 2007, que foram reprimidos com violência pelo Exército.

Outras mobilizações foram realizadas em todo o país, como em Naipidau, a capital administrativa, construída pela junta. Dezenas de pessoas foram detidas durante a manifestação, incluindo cerca de vinte estudantes, de acordo com um jornalista local.

Nesta segunda-feira, Mianmar voltou a registrar "cortes de internet" em todo o país pela segunda noite consecutiva, informou a ONG de vigilância da internet NetBlocks.

Essas perturbações nas telecomunicações começaram às 01h00 locais (15h00 em Brasília), informou esta organização com sede em Londres, no dia seguinte a uma interrupção de oito horas.

A ONU condenou os cortes da internet que, segundo a organização, prejudicam "os princípios democráticos fundamentais e setores fundamentais, incluindo os bancos", afirmou nesta segunda-feira seu porta-voz adjunto, Farhan Haq.

A enviada da ONU para Mianmar, Christine Schraner Burgener, alertou que os cortes da internet "vão agravar as tensões nacionais", durante uma conversa telefônica com Soe Win, comandante adjunto das forças armadas birmanesas.

- Suu Kyi permanece em prisão preventiva -

O golpe de Estado de 1º de fevereiro derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi e encerrou uma frágil transição democrática de dez anos.

Acusada de importação ilegal de walkie-talkies, a ex-líder de 75 anos permanecerá detida até quarta-feira, após o adiamento de uma audiência originalmente marcada para hoje, informou seu advogado, Khin Maung Zaw.

Suu Kyi está "com boa saúde" e em prisão domiciliar em Naipidau, declarou a NLD neste fim de semana.

O medo de retaliação está na mente de todos no país, que viveu sob o jugo dos militares por quase 50 anos desde sua independência em 1948.

As forças de segurança dispersaram os protestos com violência, atirando contra manifestantes. Uma mulher de 20 anos, gravemente ferida na semana passada, continua em estado crítico.

- Vigilância cidadã -

Os militares também divulgaram uma lista de sete ativistas procurados. Mandados de prisão foram emitidos, pedindo às pessoas que ajudem a polícia a encontrar esses "fugitivos". Qualquer pessoa que fornecer assistência ou abrigo estará sujeita a retaliação.

Em resposta às ondas de prisões noturnas, comitês de vigilância surgiram espontaneamente, pedindo aos residentes que monitorassem seus vizinhos em caso de operações para deter opositores.

No plano internacional, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, exigiu no domingo que a junta "garanta que o direito à reunião pacífica seja plenamente respeitado", e pediu aos generais que autorizem "com urgência" a diplomata suíça Christine Schraner Burgener a "avaliar diretamente a situação".

Os chefes da junta serão "responsabilizados" pela violência, alertou Tom Andrews, relator especial da ONU para Mianmar.

Washington detalhou há vários dias uma série de sanções contra vários generais, pedindo-lhes que entregassem o poder, até agora sem sucesso.

Mas nesta segunda-feira, o líder os militares golpistas, Min Aung Hlaing, um pária internacional pelos abusos contra os muçulmanos rohingyas em 2017, insistiu que o que acontece no país é "um assunto interno".

Milhares de manifestantes foram às ruas nos últimos dias, nos maiores protestos desde a "revolução de açafrão" liderada por monges em 20007.

Muitos trabalhadores - ferroviários, professores, médicos - entraram em greve em apoio ao movimento, e a mídia local até relatou deserções policiais.

Os generais golpistas, que rejeitaram a legalidade das eleições legislativas de novembro vencidas esmagadoramente pela NLD, autorizaram as buscas sem mandado e as prisões provisórias sem a autorização de um juiz.

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