'Blitz — O filme': de roupa como cachê a proibição da censura, Evandro Mesquita antecipa histórias de documentário

Bruno Calixto

Do primeiro cachê (uma camiseta e uma calça de uma grife famosa) à formação atual com novos integrantes, a trajetória da banda Blitz, uma das representantes do rock brasileiro dos anos 1980, será contada no documentário "Blitz — O filme", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 5 de março. Dirigido por Paulo Fontenelle, o longa sobre o grupo que estourou ao som de "Você não soube me amar" (1982) traz uma série de imagens de arquivos, com cenas de bastidores de shows e turnês internacionais, e entrevistas com artistas, como Evandro Mesquita, vocalista e líder do grupo.

— O documentário exibe uma pesquisa muito precisa do Rio e do Brasil daquela época. O espectador terá a oportunidade de acompanhar tanto os fatos históricos como a trajetória da banda que furou uma barreira que antes era impossível para este tipo de música. A juventude saindo do underground para conquistar espaço em plena ditadura. Em suma, um registro histórico de derrotas e conquistas — diz Evandro Mesquita, que narra, no filme e na entrevista a seguir, passagens curiosas da banda, como o show para apenas seis pessoas feito em Juiz de Fora no início da carreira.

Quais conquistas e derrotas são contadas no filme?

Uma vitória, como eu disse, foi sair do underground, deixar de ser uma banda de garagem tocando para 15 pessoas e, de repente, tornar-se um sucesso astronômico, conquistando o Brasil inteiro e se apresentando em ginásios lotados ou em campos de futebol. E, ressalto, numa época em que a juventude não tinha voz ativa.

E as derrotas?

São algumas, como quando fala do fim da banda. Mas a pior delas acho que é sobre o disco de estreia, em 1982. "As aventuras da Blitz" estava todinho pronto e a censura proibiu duas músicas minhas, "Cruel, cruel esquizofrenético blues" (com Ricardo Barreto) e "Ela quer morar comigo na lua". Tivemos que riscar com prego a master do LP, o todos os álbuns saíram com as duas faixas riscadas.

Qual foi a energia deste trabalho de estreia censurado?

A mais estranha. A gente achava que isto só acontecia com o Chico (Buarque) ou Caetano (Veloso).

Além do primeiro cachê da banda, que foi um par de roupas, que outra roubada será mostrada na telona?

Tem um lance que eu conto no filme de quando a gente foi fazer um show numa pista de patinação em Juiz de Fora (MG), onde havia muitos carros estacionados na porta. "Hum, vai ser demais", a gente falou. Mas quando começamos a tocar só havia meia dúzia de pessoas. Então falamos chamamos o cara da portaria e pedimos para ele abrir a porta, liberar geral. Só que ele já estava tudo aberto, foi um fracasso. E olha que era baratinho ver a Blitz naquela época, hein, agora ficou mais caro (risos).

Para quem acha que viu tudo da Blitz, o filme traz imagens inéditas da banda?

Sim, a inauguração do Circo Voador na Lapa, algumas fotos do Circo no Arpoador, do cortejo que partiu da Praça Nossa Senhora da Paz até o Arpoador no pôr do Sol, além de imagens de vários grupos de teatro, nos quais atuavam nomes como Débora Bloch, Deborah Colker e Andréa Beltrão.

Que Rio de Janeiro está contido nestas imagens?

Um Rio que era mais nosso. Apesar da censura, tinha uma coisa acontecendo muito forte no underground, a turma da poesia da geração mimeógrafo (movimento ou fenômeno sociocultural brasileiro que ocorreu imediatamente após a Tropicália, durante a década de 1970, em função da censura imposta pela ditadura militar) também está neste retrato de época.

O que despertou mais sua atenção ao ver o documentário pela primeira vez?

A nossa estreia no (Cassino do) Chacrinha com "Você não soube me amar". Quando eu era membro do (grupo teatral) Asdrúbal Trouxe o Trombone encontrei o Chacrinha num restaurante em São Paulo e disse para ele: "ainda vou cantar em seu programa". Ainda não tinha nem a Blitz. Depois desta primeira apresentação, ele adorou. Lembro que depois do programa fomos correndo para a casa da Tia Silvinha, na Gávea, para ver. Ela era a única pessoa que conhecíamos com vídeo cassete em casa e sempre gravava o Chacrinha.

Além de entrevistas, quais suas outras colaborações?

Cedi fotos e filmes do meu arquivo pessoal, aquele baú velho no quarto de casa, com as reportagens.

Como a banda é apresentada nos dias de hoje? Como está a banda atualmente?

A Blitz é formada por quatro músicos da primeira formação: eu, Billy Forghieri (teclados), Juba, que entrou no lugar do Lobão (bateria) - dias depois do lançamento do disco de estreia "As aventuras da Blitz" (1982) -, e Claudia Niemeyer (baixista que substituiu Antonio Pedro Fortuna e que, no começo da Blitz, chegou a tocar com eles em alguns shows), além de mais duas meninas novas no backing vocal e Rogério Meanda (guitarrista, ex-parceiro de Cazuza, no lugar de Ricardo Barreto). Com 13 anos na estrada, esta atual formação tem feito grandes shows e nos deixado muito emocionados, principalmente pela reação da plateia, alguns nos acompanham nestes 37 anos. Estamos vivos e produzindo muita coisa.

Em 2017, o álbum "Aventuras II" foi indicado ao Grammy Latino. Isto comprova que o público de vocês também se renovou?

Total. A Blitz sempre teve uma entrada muito forte no universo das crianças, e olha que a gente só tocava depois da meia-noite. Mas esta atração vem do humor, tudo vira uma festa, e as crianças adoram. Recentemente fizemos uma matinê na Cidade das Artes, foi um estouro.

Quais são os planos para 2020?

Dia 16 de maio vamos fazer um show histórico, com os Paralamas do Sucesso no Morro da Urca, como nos velhos tempos. É uma das nossas casas. A Blitz tem o humor carioca, uma questão forte de representatividade.

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