Bloco evangélico, da yoga, dos pets: tem Carnaval para todo mundo; confira

(Foto: Getty Images)

Por Bruna Kalaes 

Que o Carnaval é uma festa democrática todo mundo sabe. Mas nem sempre é fácil encontrar um bloco carnavalesco que seja a nossa cara e, ao mesmo tempo, diferente dos demais, não é mesmo? Por isso o Yahoo traz 7 sugestões de blocos diferentões que desfilarão pelo Brasil nos próximos dias. Tem para (quase) todos os públicos: evangélicos, ciclistas, indianos, nerds, praticantes de yoga, mulheres empoderadas e pets.

Vai ter bloco de Jesus no carna sim!

O primeiro bloco de Carnaval evangélico de São Paulo debuta ao som de músicas gospel no ritmo de samba. Para Silvia Fagá, uma das fundadoras, a missão do bloco representa o chamado de Deus para os cristãos “IDE é ir pra rua, pregar o evangelho, amar e levar a paz ao próximo. Normalmente, os evangélicos ficam mais reclusos no Carnaval por não se encaixarem na forma como as pessoas celebram a data ou com medo de pecarem. Vamos levar a mensagem de Deus para as ruas e ainda assim mostrar que somos alegres e divertidos”.

Em sua estreia, o IDE traz um samba-enredo que aborda a história de Jesus, criado por três personagens famosos no mundo do samba: o bispo e intérprete Glauco Leão, que já foi passista da escola de samba Mangueira; Dymys Gil, ex-membro do grupo de pagode 100 Compromisso carinhosamente conhecido como pastor do samba; e Daniel Renovado, renomado cantor e compositor gospel.

Leia mais: Como Sobreviver ao Carnaval: ‘Não é não’ (e o que fazer em casos de assédio)

“O samba é pouco escutado nas igrejas. As mais jovens já aceitam o movimento, já nas mais tradicionais ainda há uma certa resistência. Na África, as músicas dos cultos refletem a cultura deles e aqui quase não usamos o nosso ritmo mais tradicional, o samba. Nosso bloco é um marco nesse sentido”, explica Fagá.

Onde: São Paulo/ bairro do Ipiranga
Quando: 2/3, a partir das 12h
Foliões: em torno de 10 mil
Estilo musical: Samba-Gospel

Bloco da Bicicletinha

Reprodução/Instagram

Um grupo de ciclistas descontentes com as restrições na política municipal queria ocupar os espaços públicos de Belo Horizonte. Assim surgiu, de maneira quase inusitada, o bloco que atualmente tem o percurso mais longo da capital mineira, 12 km, e a maior duração entre a concentração e a dispersão, 12 horas. “Começamos a pedalar em 2013 com a ideia de ocupar as ruas, seguindo um movimento que estava forte em cidades como São Paulo, até que no Carnaval fizemos um passeio fantasiados — Bike Fantasy. Um amigo que mora em São Francisco (EUA) comentou que viu algo parecido por lá e nos deu a ideia de virarmos um bloco oficial”, conta Joca Corsino, um dos organizadores.

Com oito sistemas de som autônomos, os ciclistas desfilam pela cidade ao som de clássicos
dos anos 80 e 90, tanto nacionais como internacionais – o importante é que sejam músicas animadas. O Bloco conta até com apresentação de DJs. Este ano, as bikes se prepararam para seguir em busca do planeta vermelho. Haja criatividade – e fôlego – para se fantasiar com o tema do bloco.

Onde: Belo Horizonte/MG
Quando: 28/2, 20 horas
Foliões: 3000
Estilo musical: anos 80 e 90, nacionais e internacionais

Bloco ‘gratiluz’

Reprodução/Instagram

Quem vê o grupo reunido para um café da manhã seguido de meditação coletiva, talvez não imagine que essa seja a concentração para um desfile carnavalesco cheio de musicalidade com mantras indianos em estilos como funk, xote e frevo. Tudo sob os arranjos do gabaritado mestre de bateria Negão da Serrinha, que também rege um dos mais famosos blocos do país, o Bangalafumenga.

O bloco surgiu da inquietação da jornalista Phydia Athayde em 2016, quando começou a notar um momento de falta energia e intolerância entre as pessoas. Praticante de yoga e meditação, ela teve um insight: “No Carnaval as pessoas se juntam e repetem marchinhas; porque não usar essa força coletiva da festa para entoar mantras e passar um direcionamento de amor e tolerância às diversidades, com alegria?”.

A fantasia da bateria é um misto da batina de São Francisco de Assis –seguindo a premissa ‘Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz ‘– e uma calça de estilo indiano. Entre os foliões, muitos rostos pintados de azul em referência à Gandhi ou fantasiados de animais, como homenagem aos ensinamentos do santo São Francisco.

Preocupados com o impacto ambiental do bloco, na concentração há venda de comida vegana e é disponibilizado um banheiro seco ecológico, que posteriormente vai para um centro de compostagem onde vira adubo. Os 25 ritmistas e staff utilizam maquiagem biodegradável.

Onde: Praça Rio dos Campos, Perdizes – SP
Quando: 9/3, 9 horas
Foliões: 500
Estilo musical: Mantras indianos em ritmo de Funk, Xote, Maculelê, Frevo, Congo e Ijexá;
música popular brasileira com mensagens alto-astral

Hino de Cavaleiros do Zodíaco no bloco? Clarooo

Reprodução/Instagram

Na ativa desde 2013, o bloco foi criado para um público que tradicionalmente dispensava o Carnaval e preferia jogar videogame ou assistir a séries. “O Rio de Janeiro tem pouca tradição de eventos geek, então muitos nerds encontraram no bloco um evento pra se divertir e se conhecer. Temos um público cativo de pessoas que nem gostam de Carnaval, só desfilam com a gente”, explica a cantora e musicista Clara Salim, 28.

Famílias, crianças e jovens saem pelas ruas da cidade entoando, em tom nostálgico, músicas clássicas de desenhos, animes, games e filmes, como He Man, Pokemón, Jaspion e Star Wars. Orquestrados por Clara e seu regente de bateria ao som de ritmos bem brasileiros, os hinos rendem emocionados coros capela, sendo “Pegasus Fantasy”, do Cavaleiros do Zodíaco, um dos mais esperados do dia. Até casamento embalado por uma música romântica do Dragon Ball GT — “Sorriso Resplandecente”, já rolou.

O bloco promove um concurso de cosplay com votação prévia online e premiação no próprio evento. Entre os mais criativos, encabeçam a lista trajes de “Game of Thrones”, “Sailor Moon” e os “cospobre” como um Magneto improvisado com um balde na cabeça. Para facilitar a paquera dos geeks, neste ano, o bloco lançou em seu Instagram a #cupidonerd.

Onde: RJ / Praça Xavier de Brito (Metrô Uruguai)
Quando: 3/3, 14 horas
Foliões: 10000
Estilo musical: Trilhas sonoras de desenhos, animes, games e filmes em ritmos brasileiros,
como samba, funk, frevo e maracatu

Bollywood é aqui!

Reprodução/Instagram/Fheliz

A tradição indiana de ocupar as ruas com suas danças, cores e alegria encontrou um espaço no Carnaval brasileiro. Em seu quarto desfile, o bloco, criado por um casal formado por um indiano e uma brasileira, traz às ruas canções que variam desde as tradicionais do folclore, como o bhangra, até hits pop da Índia, em ritmo de samba. Filha de pai indiano, a cineasta Juily Manghirmalani, 29, explica a origem do nome: “A música e a dança são muito importantes na nossa cultura e o mercado musical é quase 100% vinculado à importante indústria do cinema de Bollywood”.

Inicialmente pensado para a comunidade indiana que vive no país, o bloco também reúne muitos curiosos. Preocupados em apresentar a verdadeira cultura da Índia, sem artifícios de apropriação cultural indevida, o bloco incentiva a integração. “A gente fala para as pessoas irem vestidas como quiserem, elas podem usar roupas indianas ou mesmo as fantasias
carnavalescas de sempre. Até colamos os bindis (acessório que representa o terceiro olho e simboliza a força feminina) nas mulheres. Só não recomendamos o uso do sari (traje típico feminino) para dançar porque é pesado”, avisa.

O pontapé inicial do bloco, tradicionalmente, é uma música para Ganesha, divindade conhecida dentro do hinduísmo por abrir e direcionar os caminhos. Para ajudar os novatos, professores de dança indiana ficam no trio elétrico animando e ensinando os passos coreográficos típicos.

Onde: SP/ Rua Augusta, 1314
Quando: 2/3, 10h
Foliões: 5000
Estilo musical: Músicas tradicionais do folclore e hits pop indianos em ritmo de samba

Vai ter bruxa sim!

Reprodução/Instagram

Idealizado por três amigas em um dia das bruxas, o bloco 100% feminista veio para ajudar no crescente processo de emponderamento das mulheres. Fruto de um grupo do Whatsapp, no qual compartilhavam intimidades, se acolhiam e se ajudavam mutuamente na solução de problemas do universo feminino, como relações abusivas, o bloco de carnaval veio para celebrar a superação dos momentos difíceis.

“Decidimos sair como uma versão feminina dos Filhos de Gandhi, mas usando a simbologia da entrega de colares como um convite ao empoderamento feminino. Em nosso último cortejo, entregamos cerca de 300 colares às mulheres e não foram suficientes” conta Dani Teresa, uma das fundadoras e diretora de arte.

Atualmente, as mais de 80 mulheres da bateria usam as cores azul, amarelo e vermelho, que representam as três orixás da umbanda de quem as fundadoras são filhas: Iemanjá, Iansã e Oxum. O samba-enredo deste ano foi um pedido de abertura não apenas para as suas, como para todas as orixás. Além dos pontos de cada entidade, o grupo canta marchinhas com mensagens de incentivo e com respostas contra frases machistas.

Onde: Escadaria do Bixiga / Avenida Paulista (Ato do Dia Internacional da Mulher)
Quando: 23/02, 9 horas
8/3
Foliões: Cerca de 500 pessoas
Estilo musical: Samba, funk e Ijexá

Animais também têm um bloco para chamar de seu

Reprodução/Instagram

Era só mais um cão vira-lata que vivia no Cambuí, região elitizada de Campinas (SP) Após nove anos morando na pracinha, Bob foi denunciado para o Centro de Zoonoses, que deixou uma notificação enfática para os taxistas que cuidavam e alimentavam o cãozinho: se em 15 dias ele não for retirado do local, a carrocinha vai levá-lo. Foi então que o protetor animal César Rocha entrou na história.

“Entramos com um ofício pedindo para que Bob fosse considerado um cão comunitário, seguindo a lei estadual de 2009, e quando conseguimos o benefício, o levamos para castrar. Já de alta do pós-operatório, eu e um amigo colocamos faixas na praça, cantamos e tocamos saxofone para recebê-lo. Cerca de 40 moradores esperavam pelo Bob – ele era muito querido. Com a proximidade do Carnaval, decidimos repetir o ato todos os anos e assim nasceu o Bloco do Bob”, conta.

A primeira edição, em 2010, reuniu cerca de 150 pessoas. A marchinha de estreia, composta por César, que é músico, contava a história de Bob e como ele era um cão legal que se livrou da carrocinha para curtir a folia. Promovido a patrono do bloco, Bob reinou em uma fantasia de pirata, adaptada de uma roupa de infantil.

Bob desfilou por apenas três carnavais, mas o evento já está na 10å edição. Na última, cerca de 1000 cães e 3500 pessoas se reuniram para cantar o samba em homenagem aos animais que, como ele, já partiram, relembrando casos de repercussão nacional, como o cão Manchinha, morto em um supermercado, e os animais soterrados nas lamas de Brumadinho. Alguns cuidados especiais são tomados em prol dos cãopanheiros: a música é mais baixa que o habitual nos trios carnavalescos, já eles são mais sensíveis aos sons; a concentração, na pracinha onde vivia Bob é um local com sombra, para evitar que o asfalto queime suas patinhas; além disso, tem água disponível o tempo todo para que os cães se hidratem durante a folia.

O cãortejo reúne cachorros fantasiados, inclusive em trajes iguais aos de seus donos.

Onde: Campinas/SP
Quando: 24/2, 16 horas
Foliões: 1000 cães e 3500 humanos
Estilo Musical: Marchinhas de carnaval, entre autorais e famosas

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