Blocos dão largada no Carnaval de rua em SP com batons borrados e banheiros químicos

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SÃO PAULO, SP, 21.04.2022 - CARNAVAL-BLOCO-SP: Foliões se divertem no Bloco do Amor, no bairro da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista, durante o Carnaval de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 21.04.2022 - CARNAVAL-BLOCO-SP: Foliões se divertem no Bloco do Amor, no bairro da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista, durante o Carnaval de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O outono ensolarado em São Paulo neste ano está mais animado, já que ao menos quatro blocos foram às ruas nesta quinta-feira (21), dando início ao Carnaval fora de época. O clima de flerte e euforia predominou, assim como o medo de repressão por parte da prefeitura, que não autorizou os desfiles independentes.

Em meio às marchinhas e bebedeira, não era raro ver foliões com batom borrado no meio da farra. Mesmo que em fevereiro alguns blocos tenham saído às ruas na cidade, órfãos da festa, que não ocorreu no ano passado, aproveitaram o feriado de Tiradentes para beijar.

Famílias também marcaram presença nas festas de rua, caso de Uriama Toledo e seu filho Martim, de 12 anos, que foram ao bloco Baco do Parangolé, na Água Branca (zona oeste de São Paulo). "Sou rato de Carnaval, o que teve em fevereiro foi angustiante", afirmou Toledo.

Já o garoto mostrou preocupação com a Covid-19. "Eu estava com medo de vir por causa da pandemia, mas como está melhorando resolvi me distrair, uma forma de esquecer um pouco o que passamos."

Uma apreensão constante entre os foliões e os organizadores dos blocos foi com uma possível repressão da Prefeitura de São Paulo. A gestão Ricardo Nunes (MDB) não autorizou os cortejos neste feriado, tampouco deu suporte e infraestrutura, como banheiros químicos e limpeza urbana.

Na terça (19), Nunes se disse preocupado com o evento durante o feriado de Tiradentes. "Não temos tempo hábil para providenciar o plano de emergência, as rotas, [contratação de] ambulância, bem como a Polícia Militar também não consegue disponibilizar efetivo necessário", afirmou.

Nesta quarta (20), a prefeitura chegou a propor, em reunião com representantes de 11 coletivos, que os desfiles nas ruas aconteçam em 16 e 17 de julho. Os presentes ficaram de conversar com suas organizações sobre a adesão à folia na boca do inverno, o que seria a terceira edição do Carnaval em 2022.

Os blocos se viraram como puderam. Pelos microfones, os organizadores do Baco do Parangolé pediam para que o público permanecesse somente na praça e evitasse, por exemplo, bloquear ruas e calçadas.

Segundo Maria Laura Bertazzi, uma das responsáveis pelo cortejo, o grupo contou com recursos próprios para contratar banheiros químicos e bancar gastos como serviço de limpeza e equipamento do som.

"Não sabemos quantas pessoas deverão participar. Esse bloco aqui existe desde 2014 e fecha as ruas ao redor da praça, mas muita gente ficou insegura, com medo de alguma intervenção."

Mesmo com a infraestrutura paga pela organização, dezenas de foliões fizeram da praça Marechal Carlos Machado Bittencourt um banheiro a céu aberto. Enquanto um fazia as suas necessidades, os demais tentavam criar uma barreira de proteção com o próprio corpo e peças de roupas e fantasias.

Outro bloco que instalou banheiros químicos foi o Ano Passado Eu Morri, na Pompeia (zona oeste). Além dos quatro equipamentos, entre uma música e outra, a banda pedia que as latas de cerveja fossem jogadas no lixo.

Apesar de ter saído à rua, Fábio Tremonte afirma que existe um medo de repressão da prefeitura. Por isso, resolveram mudar o bloco de lugar, que antes estava previsto para sair na praça Rio dos Campos, mesmo local onde esteve o Saia de Chita.

"Os blocos não foram para a rua por conta da Covid e também por conta de uma prefeitura que não se preocupou em organizar o Carnaval de rua", diz ele, que considera que ocupar a rua é uma forma de "demarcar o lugar".

O clima político também compareceu na folia de rua. No bloco Saia de Chita, na Pompeia, a comunicadora Fernanda Carpegiani, 34, estava com a placa "nunca não é Carnaval" e "é proibido proibir".

"É ocupação da rua, é resistência das expressões artísticas que estão ameaçadas nesse governo Bolsonaro", define. "E a festa de rua não pode ter? Estou reivindicando o meu direito de ocupar a rua e me expressar. É algo muito forte para mim."

No cortejo vizinho, Ano Passado Eu Morri, organizadores relembravam, no microfone, a importância de jovens tirarem o título de eleitor e também encorajaram que os carnavalescos votem em candidatos de esquerda: "pelo direito à cidade votem nos candidatos do MTST."

Além dos blocos de rua já consagrados em São Paulo, o Carnaval fora de época viu surgir uma nova empreitada. O Bloco do Amor, na Barra Funda (zona oeste), nasceu nesta quinta, às 15h32, depois de uma semana de gestação.

Para não ficar órfão de folia, um grupo de amigos que sempre curtiu o Carnaval se juntou e fez a festa no cruzamento entre as ruas Barra Funda e Lopes de Oliveira, em São Paulo.

Como a crise não dá um tempo nem no Carnaval, o bloco já veio ao mundo endividado. "O aluguel do carro de som custou R$ 3.000 e já paguei metade. Conto com a contribuição dos foliões", disse o músico Lincoln Antônio, um dos fundadores. O grupo divulgou um email por onde quem se divertia poderia fazer um Pix.

Também fundadora do bloco, a artista Paula Flecha Dourada disse que a apresentação foi marcada para esta quinta para homenagear a data de morte de um aderecista amigo de todos. "É manter aceso o Carnaval na Barra Funda, um berço do samba de São Paulo", contou.

Para evitar problemas com as autoridades, Paula volta e meia destacava a importância de deixar espaço livre nas ruas para a passagem dos carros, o que nem sempre era respeitado pelos foliões. Além disso, sem banheiros químicos, quem esteve presente no local precisou recorrer a banheiros dos bares da região.

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