Blocos voltam às ruas com animação, mas no ‘aperto’ por falta de banheiro

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Não teve falta de infraestrutura e proibição que aplacassem a animação dos foliões. Ontem, na estreia do feriadão de Tiradentes em pleno reinado de Momo, blocos informais foram às ruas da cidade para extravasar o jejum provocado pela pandemia.

Mas a alegria não livrou cariocas e turistas do aperto: nenhum banheiro químico foi montado pela prefeitura este ano, já que a festa fora da Sapucaí não foi autorizada. Sem alternativas, muitos pagaram para usar banheiros de bares ou contaram com a gentileza de moradores no caminho dos cortejos. Mas houve quem urinasse nas ruas mesmo.

Neste momento, entrou em cena o “bloco” da Comlurb, que usou hipoclorito de sódio para amenizar o mau cheiro em alguns pontos da cidade. Garis foram vistos atrás de alguns cortejos na Zona Portuária. A produtora cultural Katia Medeiros, que curtia um bloco sem nome na Praça Mário Lago, no Largo da Carioca, fez críticas à desorganização:

— Tenho que procurar uma árvore, um desses banheiros improvisados, fazer xixi numa rua vazia. É ruim, a gente não gosta porque suja a cidade, mas fazer o quê? Não tem banheiro químico, e os estabelecimentos estão cobrando de R$ 2 a R$ 5 para usar o banheiro. Se a prefeitura colocasse banheiro químico, não ia sobrar para a gente nem para o pessoal da limpeza.

Para a médica Fernanda Wolf, os percalços fazem parte da diversão e não tiram o brilho da folia carioca:

— Carnaval no Rio é um pouco de perrengue, mas é o melhor lugar do mundo. Banheiro é na rua. Só puxar e fazer xixi.

Com um copo de café quente na mão direita e uma garrafa de cerveja na esquerda, Ana Reale, de 27 anos, era mais uma a se divertir ontem no Centro. Ela veio de Botucatu, no interior paulista, com as amigas Lays Fernanda, de 28 anos, Thais Randazzo Enz, de 28, e Ana Beatriz, de 26 anos. O quarteto enfrentou quase 12 horas de viagem para chegar ao Rio e reclamou da falta de assistência da prefeitura.

— Não tem lugar para fazer xixi. A gente precisou pedir a um estabelecimento, mas tem a galera que está fazendo no meio da rua porque não tem banheiro químico. O prefeito Eduardo Paes atraiu gente para o carnaval do Rio, mas não se preocupou em dar assistência aos foliões — criticou Ana Reale. — Tem ambulante perguntando onde tem bloco porque precisa ganhar dinheiro e não sabe para onde ir. Está uma bagunça, mas está divertido.

Preocupados com a sujeira do portão e do muro de suas casas, moradores do Morro da Conceição colaram placas pedindo para que os foliões não fizessem xixi ali. Funcionários da Comlurb reclamaram que não houve reforço nas equipes para o trabalho extra.

— No carnaval normal, tinha um planejamento. Vinha reforço de outra gerência. Este ano, na teoria não teria carnaval, mas está tendo, e é o mesmo trabalho para poucas pessoas. A falta de banheiro público atrapalha demais, ninguém vai aguentar o mau cheiro, e a gente vai ter que limpar depois — disse um gari.

A Comlurb informou que os efetivos estão atuando de acordo com o que é demandado. As equipes, segundo a companhia, são deslocadas quando há passagem de algum bloco. Apesar de Paes ter dito que os blocos estão proibidos, O GLOBO observou a presença de equipes da Guarda Municipal em alguns cortejos, sem interferir nos desfiles.

Procurada, a prefeitura não quis se manisfestar.

IRREVERÊNCIA E CRIATIVIDADE

E, no fim das contas, se a prefeitura não oferece infraestrutura, a irreverência do carioca dá um jeito. Em um bloco no Morro da Conceição, uma jovem que curtia a folia usava um crachá que a identificava como “monitora de cortejo”. Além do “documento” pendurado no pescoço, vestia um jaleco azul com a descrição “agente de monitoramento”. Por medo de receber represálias no trabalho, preferiu não se identificar, mas falou que a fantasia, na verdade, era um protesto contra a falta de apoio:

— Eduardo Paes, de alguma forma, decidiu mais uma vez negligenciar o carnaval de rua. Decidiu não se posicionar sobre o carnaval de rua que está acontecendo, porque a rua é um direito do povo. Então, eu me senti na obrigação de vir de monitora de cortejo. É para dizer que a gente também quer segurança.

Questionada sobre que atividades uma monitora exerce, ela explicou que verifica se o lugar onde a folia está acontecendo é seguro e passa a informação aos amigos. Fica de olho ainda se alguém precisa de ajuda quando bebe demais, por exemplo. Claro que também tenta se divertir. Afinal, até fiscal tem direito a cair na folia.

A criatividade também buscou inspiração na telinha. A novela “Pantanal”, da TV Globo, virou tema de um bloco na Zona Portuária, que saiu ontem da altura do AquaRio e foi até o Museu do Amanhã. Com o nome de “Pantanal Gostoso Demais”, o grupo de músicos com pouco mais de dez pessoas em minutos gerou um movimento que atraiu foliões de pernas de pau, muitas “onças” e até um dos personagens principais da novela.

Curtindo as tradicionais marchinhas de carnaval, o professor de história Fabiano Lima decidiu se fantasiar de Jove, o herdeiro do peão José Leôncio:

— Não consigo acompanhar o ritmo das séries e prefiro as novelas. Como eu tinha uma onça de pelúcia, decidi vir como Jove. Aí fiz uma câmera de papelão e vim.

Representada pela jornalista Michele Oliveira, a onça de “Pantanal” também decidiu aparecer para curtir o primeiro dia de festa. Morando em São Paulo, a jovem veio ao Rio só para curtir o feriado pelas ruas da cidade:

— Vim inspirada na Juma Marruá. Descobri o bloco por um grupo de amigos e decidi me juntar para curtir essa festa maravilhosa. Vim para compor o time da novela.

O assessor de imprensa Pedro Motta foi quem sugeriu o nome do bloco. Segundo o jornalista, tudo foi fruto de uma brincadeira em um grupo de mensagens:

— Eu fiz um grupo de WhatsApp e coloquei todo mundo. A ideia era fazer um bloco que todo mundo pudesse participar e expressar um pouquinho suas vontades no carnaval.

Já em outra parte do Centro, no Largo da Carioca, o que chamava a atenção era o casal formado pelo professor de economia Rafael Pinho de Moraes e pela designer Daniela Rocha. Vestido de Jesus, ele segurava uma placa em que pedia um estado laico; ela, como Diabo, usava uma capa em que pedia mais respeito à diversidade.

Veteranos do carnaval carioca, eles contaram que saem usando fantasias “antagônicas” desde 2015 e veem o momento de folia como uma oportunidade de protestar e reivindicar direitos.

* Estagiários sob supervisão de Leila Youssef

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