Lágrimas de sangue para repensar 2013

Reportagem 3 por 4

O tiro furou o olho que acabara de focar um grupo de policiais da Tropa de Choque disparando balas de borracha contra manifestantes. O fotógrafo Sergio Silva conferia a imagem na sua câmera durante a cobertura do protesto no centro de São Paulo na noite do dia 13 de junho quando sentiu o impacto. “Não tive tempo para pensar, a única chance que eu tinha era fugir para não ser atingido duas vezes. Quando senti o tamanho da dor e percebi a quantidade de sangue que escorria, soube que estava cego”. Assustado com a dor e os disparos que não cessavam, foi levado pela correria da multidão até que trombou com um manifestante e professor da rede pública que viu a gravidade do ferimento e lhe amparou até um hospital.

Como Sérgio, mais de 15 jornalistas foram atingidos naquela noite. Um fotógrafo da Folha de São Paulo que foi alvejado três vezes viu a origem dos tiros e declarou: “o policial mirou em mim e atirou”.

O caso de Sérgio foi o mais grave, pois ele perdeu a visão do olho esquerdo e, assim, seu instrumento de trabalho. São nulas as chances de voltar ao mercado nas mesmas condições. Com a chegada do fim do ano e o resultado de mais uma cirurgia que não lhe devolveu a visão, ele fez um balanço do ano que mudou a sua vida – e marcou a história do Brasil. Ainda não há distanciamento histórico para julgar se os protestos de 2013 e a reação violenta do estado deixarão mais frutos positivos do que negativos para o país. Para Sérgio, foi um ano de dor e luto.

Aos 31 anos, casado e com uma filha de sete, uma das suas resoluções para 2014 é tentar materializar a violência que sofreu em palavras. Como fotógrafo fala com imagens, ele começou a reinventar seu retorno ao ofício com um ensaio de autorretratos. A primeira imagem foi clicada no momento em que viu seu reflexo no espelho depois da segunda cirurgia, um dos muitos em que Sérgio baixou a cabeça e chorou. É a foto que abre este post, publicada no blog do fotógrafo ao lado de um emocionado texto com o título "Lágrimas de sangue", que reproduzo aqui:

“Seis meses após ser atingido no olho esquerdo por uma bala de borracha, passei pela minha segunda cirurgia. Infelizmente, esta intervenção ocorreu apenas com o objetivo de uma correção estética, uma tentativa de minimizar o dano causado pela força do impacto da arma comercializada como “arma menos letal”. De todos os males, o menor. Mas, alguns dias após a realização dessa intervenção cirúrgica, meu corpo, involuntariamente, reagiu. Consequência do trabalho médico que, por sinal, foi muito bem sucedido. Meu olho ficou bastante inchado por conta das duas horas que passei dentro de uma sala fria, de cores também frias, profundamente adormecido por uma anestesia geral.

Em casa, voltei a me encontrar diante do espelho e vi o reflexo da violência que sofri. O golpe mais uma vez foi duro. Nunca achei que fosse tão difícil ficar de frente ao espelho. Olhar para si e não enxergar sua verdadeira imagem, aquela que minha mãe com tanto carinho cuidou para que se transformasse na de um homem, hoje pai de família. O golpe foi demais para o meu fragilizado coração que, logo, murchou. Igual flor ao fim de uma linda primavera.

Baixei a cabeça e chorei. Senti uma lágrima fria escorrer sobre minha pele maltratada pelo tempo. Acreditei que era apenas mais uma, das incontáveis gotas que derramei neste curto período em que o tempo parou minha vida. E, quando resolvi levantar a cabeça e olhar para o espelho, percebi que a lágrima não era uma lágrima comum. Era a resposta do meu corpo que, em uma espécie de vida após a morte, dava ao meu olho ferido uma oportunidade de manifestar-se pela última vez.

Assim, meu olho tristonho resolveu falar e contar sua história através de uma interminável lágrima de sangue. Lágrima que escorreu desenhando em meu rosto uma pergunta, a qual eu não sabia responder. Senti que este era um momento único, entre aquele que perdeu e aquele que se foi. Um instante particular onde um diálogo iniciou-se entre dois seres próximos, mas agora completamente distantes.

Eu precisava responder, mas se eu falasse quem iria me ouvir? Resolvi pegar minha câmera e registrar uma série de autorretratos dentro do único universo que me cercava, um azulejado banheiro. Essa foi a resposta que encontrei para dar ao meu olho. Essa foi a maneira que encontrei para dar voz ao meu corpo. Talvez, essa não fosse a resposta que ele gostaria de ouvir. Mas eu sou fotógrafo, e a imagem transformo em palavras, aquela que meu corpo, completo por um olho cego, balbuciando frases e gestos deseja expressar.

Esta é uma série fotográfica composta por cerca de dez imagens, que retratam o meu atual cotidiano. Cenas da minha vida, compartilhada como forma de expressão. Uma tentativa de transformar a dor em palavra. Dor em fotografia. Dor em arte. Por que agora é chegada a hora de levantar a cabeça e seguir em frente!”

Sérgio Silva – dezembro 2013

O tiro de borracha foi apenas uma das violências que Sérgio sofreu. Dois dias depois do ataque, recuperando-se da primeira cirurgia, ele sentiu o segundo baque ao assistir a declaração do comandante-geral da Polícia Militar Benedito Roberto Meira. O responsável pela ação da Tropa de Choque disse que a responsabilidade pela violência na noite do dia 13 era inteiramente dos manifestantes e que a possibilidade de jornalistas ferirem-se em protestos “é um risco da profissão”.

Ao ouvir as palavras, Sérgio sentiu-se ferido novamente, mas de um jeito diferente. “Se fosse um comandado dele que tivesse ficado cego naquela noite, seria esta a frase que ele diria à família do policial?”. Foi o momento em que percebeu que seu caso não era um acidente isolado e resolveu reagir. Sérgio criou um abaixo-assinado pedindo o fim do uso de balas de borracha e bombas de gás nos protestos. A petição já tem mais de 40 mil assinaturas.

Ele moveu ainda uma ação contra o estado de São Paulo pedindo indenização de R$ 1,2 milhão – entre gastos em saúde, danos materiais e morais. Sérgio não nega a importância do dinheiro para o seu futuro, mas pondera que o maior valor deste processo é simbólico. “O estado deve ser criminalizado por ter atirado contra a cabeça de um trabalhador que apenas cumpria seu papel profissional”.

A história de Sérgio é a segunda relatada por este blog sobre pessoas que foram agredidas pelo estado nas manifestações de 2013. A primeira foi a de Rafael Braga Viera, morador de rua preso e condenado a cinco anos de prisão por portar Pinho Sol perto de um protesto no Rio. Nas próximas semanas você encontrará outras histórias aqui.

Os movimentos sociais prometem mais protestos no ano que entra, ano de Copa e eleições. Discutir os problemas ocorridos em 2013 é fundamental para repensar o modo como o estado controla os protestos e evitar que casos como o de Sérgio voltem a acontecer e se multipliquem em 2014.