Três vezes Vidigal: Uma jornalista presa na favela

Reportagem 3 por 4

Quando foi agredida pela Polícia Militar dentro da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, a jornalista Mariana Albanese teve uma reação que surpreendeu muitos moradores do morro. Ela cobria o protesto contra a derrubada de uma quadra de futebol, um dos raros espaços de lazer que seria substituído por mais uma base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Enquanto ela filmava com o celular, um dos policiais deu um tapa na sua cara e chutou o aparelho no chão.

Em resposta, Mariana puxou o policial pelo colarinho e tentou dar joelhadas na sua barriga. Com a voz embargada de raiva, ainda recolheu os pedaços do celular e foi tirar satisfação com a polícia. Em poucos segundos, estava algemada e cercada por seis homens armados.

A improvável cena da paulistana de classe média, 30 anos, que reagiu à violência policial na mesma moeda (ou ao menos tentou) foi filmada e circulou pelos computadores e celulares do Vidigal.

Nas semanas seguintes, Mariana passou a ser saudada pelas vielas. Os moradores davam suporte pela coragem. “Você fez mais pela comunidade do que muita gente que mora aqui”, era uma das frases que mais ouvia e ainda hoje ouve, quatro meses depois. Mas a frase lhe incomoda.

Mariana reagiu porque carregava algumas certezas que a maior parte dos moradores do Vidigal não carrega. Ela cresceu em um bairro central de São Paulo, protegida do medo que a convivência com esse tipo de violência planta. Nas palavras dela, levar um tapa de um policial foi “surreal”. Não havia referência, na sua trajetória, de experiências parecidas. “Entrei num transe, não conseguia pensar direito, só tinha uma coisa que eu sabia: eles estavam errados”.

A outra certeza estava dentro do celular quebrado: sua agenda. Lá havia o contato de jornalistas de diversas redações, entre elas do jornal O Dia, onde Mariana trabalhava como repórter. Horas depois, enquanto dava seu depoimento, o telefone da delegacia começou a tocar: eram jornalistas e assessores da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. O caso foi veiculado pelo programa Cidade Alerta, na Rede Record.

O PM foi afastado (para outra comunidade) e sua conduta está sendo investigada. Mariana e a quadra continuam no Vidigal.

Depois de ser fichada por desacato e agressão verbal, ela voltou à comunidade, onde vive há dois anos a fim de ser “testemunha e personagem” das transformações em curso em dos morros mais cobiçados do Rio.

A pacificação promovida pelo governo é só uma das mudanças em curso na favela, que aos poucos troca os barracos por casas de alvenaria e as trilhas de barro por vielas pavimentadas. No novo Vidigal, a vista estonteante emerge entre paredes grafitadas e escadas bem desenhadas. Talvez seja uma experiência possível apenas para paulistanas abobadas pela visão do horizonte, mas andar pelo Vidigal foi como caminhar dentro dos quadros labirínticos do artista gráfico M. C. Escher. A cada novo lance de escada, um ângulo impossível da favela, da cidade e do mar.

Mariana foi fisgada pela veia cultural do Vidigal, que ela conheceu anos antes, ao entrevistar os músicos do Melanina Carioca para matéria na revista Contigo. A banda é um dos muitos rebentos do grupo Nós do Morro, entidade que oferece formação em teatro e cinema para os moradores e de onde saiu boa parte do elenco de Cidade de Deus.

É difícil uma noite no Vidigal sem roda de samba, show, peça de teatro ou festa. Durante o dia, Mariana vai cumprimentando artistas e fotógrafos franceses, belgas e alemães. Os estrangeiros moram ou passam longas temporadas no local para viver a “cultura da favela”. Há também os “gringos” de passagem, turistas que buscam vista para o mar por menos de R$ 50 a diária.

O Vidigal de Mariana está nessa mistura. “Eu não gostaria de morar no Leblon, nem numa favela comum. A integração é o que me fascina”. Por isso, ela é a abertura da série Três vezes Vidigal, na qual esse blog apresentará três retratos de quem vive o morro de ângulos diferentes.

Desde que fixou raízes, Mariana criou um blog onde registra os acontecimentos e divulga a agenda cultural. Por meio dele, acabou envolvida em investigações sobre a especulação imobiliária.

Logo que subimos o morro de moto-táxi, ela me levou para ver dezenas de casas marcadas para remoção. Elas ficam no ponto mais alto, de onde se avista São Conrado e Ipanema em um giro de pescoço. A área é considerada de risco pela prefeitura. Não muito longe, está a obra de um hotel que se apresentou como cinco estrelas em matéria do jornal O Globo. Perto da construção, muros para conter deslizamentos foram recentemente erguidos. “Por que a prefeitura não faz o mesmo para os moradores que estão aqui há 50 anos?”, questiona.

Mariana recebe e recusa pedidos para mediar a venda e aluguel de imóveis. Ela é crítica ao processo de saída dos moradores tradicionais. Para ilustrar o problema, conta da francesa que comprou três casas no morro: uma para virar pousada e duas para alugar para turistas. Na última, pagou R$ 50 mil e o morador saiu do Vidigal. "Meses depois, ela me perguntou se conhecia alguém para alugar. Indiquei um amigo e fui com ele ver a casa, mas ela não sabia nem onde era. Saiu perguntando 'você sabe onde é a casa que eu comprei?''".

Mariana prefere a difícil tarefa de convencer o comércio local a anunciar no seu blog. Quando o aluguel subiu e suas contas apertaram, ela morou por dois meses em uma quitinete úmida e sem janelas, onde era preciso afastar a mala para acessar a boca elétrica que fazia as vezes de fogão. “Eu ouvia cada palavra dos vizinhos. Só não entrei em depressão por causa do blog, tentava ver como uma experiência antropológica”.

Nos joelhos, cicatrizes do tempo em que suas pernas ainda estavam aprendendo a geografia do morro. A maior queda foi no dia da ocupação pela polícia, em novembro de 2011. Os traficantes jogaram óleo na rua para impedir a subida do caveirão – o que apenas retardou a ocupação, pois os militares subiram com tanques. Mariana foi uma dos muitos moradores que escorregaram no óleo destinado à polícia.

O capitão da UPP Fábio da Silva Pereira garante que a pacificação no Vidigal é um sucesso e que a agressão contra Mariana foi um “fato isolado”. “Nada exime o policial, mas ela também se complicou quando desrespeitou o delegado”. Mariana admite que discutiu na delegacia. Ela explica que isso aconteceu quando foi impedida de registrar, no seu depoimento, que foi obrigada a entrar no camburão de algemas - procedimento que lhe machucou mais do que o tapa do policial. “Isso aqui não é romance para você ficar contando história”, teria ouvido do policial, ao que respondeu na mesma altura.

Depois que a história sobre o episódio circulou, Mariana passou a ser procurada por moradores que queriam dividir seus relatos de violência policial, o que deixou a vida no local mais azeda – e perigosa. Nessa fase, quase aceitou convite de uma amiga para trabalhar na Itália por alguns meses. Mas ficou.

“Esse lugar tem alguma coisa que me puxa de volta”. Ela está tão adaptada que, quando passou duas semanas “no asfalto”, experimentou sensações de falta de equilíbrio. Como um marinheiro que pisa em terra firme depois de meses no mar. “Sentia falta do terreno irregular, das subidas, descidas, viradas”. Por pouco, Mariana não ficou detida pela polícia do morro. Felizmente, os laços que lhe prendem ao Vidigal são de outra ordem.