A música de Recife: a potência e os gargalos

Recife é um assunto à parte na história da música brasileira. Desde a época contracultural já encontrava, na produção do jovem Alceu Valença e de outros artistas míticos, como Lula Côrtes e o grupo Ave Sangria, um jeito meio selvagem de juntar as linguagens locais e universais. Uma equação que a Tropicália baiana-paulista-carioca, herdeira conceitual da bossa nova, resolveu de um modo mais cerebral, digamos, e influenciou a maior parte do país.

Também outras iniciativas, como a gravadora Rozenblit, que além da produção popular fabricou obras como o também mítico disco de MPB psicodélica Paêbirú (Zé Ramalho e Lula Côrtes; na foto com Alceu), marcou essa independência em relação ao sudeste. Fortaleza também teve um movimento contracultural forte, cujo ápice foi o festival (e depois disco) Massafeira, no fim dos anos 70. A diferença é que, nos anos 90, o Mangue Beat de Pernambuco atualizou essa força criativa, e desde então o processo local nunca desacelerou.

image

Pelo contrário, encontrou uma forma espontânea de lidar também com a eletrônica, como na produção de Otto e do DJ Dolores (enquanto que em Fortaleza essa produção continuou se dando de uma forma muito contemporânea, mas underground, como no trabalho de Karine Alexandrino e do Montage). Hoje, a ‘cena Beto’, que tem entre seus artistas bandas inclassificáveis como os Ex-Exús e o ótimo compositor Juvenil Silva, voltaram inclusive a uma verve mebos digital. Meu amigo Ad Luna produziu uma reportagem que permanecia inédita (por motivos alheios à sua vontade), e que reproduzo aqui, porque mostra ao mesmo tempo a força e os gargalos dessa produção toda.

Como curiosidade, a lista de discos mais vendidos da (citada na matéria) Passa Disco, em 2014, é uma espécie de memória desse período todo, trazendo desde Ave e Alceu até a Nação Zumbi, passando até pelo paraibano Don Tronxo, um velho parceiro de Alceu, Lula e Zé Ramalho, e sobrevivente daquela turma maluca que aparece quase toda nas participações do Paêbirú. Na ordem, os mais vendidos, até dezembro: 1 – Ave Sangria (Ave Sagria), 2 – Valencianas (Alceu Valença), 3 – A.M.A.R.T.E (Cláudia Beija), 4 – Nação Zumbi (Nação Zumbi), 5 – Cezzinha E Convidados Ao Vivo (Cezzinha), 6 – Amigo Da Arte (Alceu Valença), 7 – Pernambuco Frevando Para O Mundo 2 (coletânea), 8 – Latada Pra Vaqueirama (Josildo Sá), 9 – Frevo Acústico (Don Tronxo), 10 – Na Quentura Do Mormaço (Maciel Melo).

A Passa Disco, além de loja, funciona como espaço cultural. Acabou se firmando como uma espécie de ponto de resistência cultural. A cada dois meses, em tardes de sábado, acontece uma Feira do Vinil, com cerca de vinte expositores, e venda, troca, audição e conversas sobre os apreciados LPs. No espaço também acontecem lançamentos de discos, com pocket shows. Recentemente, o proprietário Fábio Cabral conseguiu incentivo do Funcultura local com o objetivo de melhorar a estrutura das apresentações, com som, luz, minipalco e outros itens de produção.

A evolução dos lançamentos pernambucanos, desde que Fábio Cabral começou a computa-los: 2010 – 97; 2011 – 170; 2012 – 180; 2013 – 200 e 2014 – 220. Aqui um link, com a lista consolidada e detalhada até 215 lançamentos (outros cinco foram listados após essa postagem). E, como nota Fábio, esse aumento de 2014 se deu em ano de eleição e de copa. Não é pouca coisa. Muitos desses artistas, sempre é bom lembrar, têm uma noção de engajamento que é herdeira da contracultura, expressa em iniciativas como a do Ocupa Estelita, como eu conto aqui e aqui, e um desdobramento com Karina Buhr, aqui.

Esse movimento cultural é acompanhado por jornalistas de outras regiões, como as radialistas paulistas Patricia Palumbo e Roberta Martinelli. Diz Patrícia: “Admiro essa ligação estreita e natural com as raízes, com o clássico, com a tradição e a ousadia que dá originalidade ao som contemporâneo” de Pernambuco. Para Roberta, “vivemos um momento riquíssimo da música brasileira, e estamos todos unidos por uma só rede”. Na foto, um encontro meu com Lula Côrtes, meses antes de sua morte, em 2011, no estúdio Casona (Candeias, PE), quando ele gravava participação no disco de Lirinha. Cedida por Ad Luna, aí vai a reportagem.

image

Pernambuco: cerca de 220 discos lançados. Mas e a difusão?

O ano de 2014 vai chegando ao fim com marca expressiva de discos lançados em Pernambuco ou por músicos que moram no Estado. Cerca de 220 títulos, entre CDs, DVDs, LPs e álbuns virtuais foram produzidos por gente do forró, frevo, pop, rock, samba, instrumental, entre outros estilos. A compilação é feita, desde 2010, pelo produtor cultural e empresário Fábio Cabral, dono da loja recifense Passa Disco. Naquele primeiro ano, foram registrados 97 lançamentos.

"Todo calor" (Isaar), "Super qualquer no meio de lugar nenhum" (Juvenil Silva), "Marrom Brasileiro ao vivo", "Vá se acostumando" (MC Cego), "Alexandre" (Mombojó), "Nação Zumbi" (Nação Zumbi), "Na quentura do mormaço" (Maciel Melo), "Limbo" (Rua), "Negona" (Karynna Spinelli), "Movido a vapor" (Tagore), "Concerto armorial" (Sergio Ferraz) são alguns dos títulos que constam da lista. “No início do ano eu esperava que chegaríamos perto de 200. Depois fiquei receoso por causa da Copa do Mundo e das eleições. Mas veio a superação”, expõe Cabral.

De acordo com ele, a lista dos estilos líderes em lançamentos anuais não muda muito. Forró, pop-rock, frevo são os que mais se destacam. Obviamente, as maiores variações ocorrem em épocas específicas do ano. Em tempo de festas juninas, por exemplo, discos de forró assumem a dianteira.

É bom que se registre o fato de que lista não configura como retrato 100% fiel da totalidade de lançamentos registrados. “Nunca é completo. Deve haver CDs que saíram este ano e não tomei conhecimento”. Dos tempos áureos da fábrica e gravadora Rozenblit, passando pela fértil movimentação do manguebeat, a produção fonográfica pernambucana chama a atenção de quem não mora no Estado, mas a acompanha por admiração e interesse profissional. Caso da escritora e jornalista paulista Patrícia Palumbo, apresentadora do Vozes do Brasil - programa veiculado em diversas emissoras do país e que já foi premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

“Esse número impressionante de discos é reflexo dessa cena mas também de uma realidade mundial que é o acesso aos meios de produção. Fazer disco é muito mais simples hoje. O difícil é manter a qualidade”, comenta Patrícia Palumbo.

Para ela, a produção musical de Pernambuco é especial por conta da riqueza de linguagens sonoras. “Admiro essa ligação estreita e natural com as raízes, com o clássico, com a tradição e a ousadia que dá originalidade ao som contemporâneo de Karina Buhr, Siba, Mombojó, Otto e Caçapa, por exemplo”. O link para ouvir o Vozes do Brasil é este.

Outra que sempre recebe artistas de Pernambuco em seu programa é Roberta Martinelli, apresentadora do programa Cultura Livre, veiculado na Rádio Cultura Brasil e TV Cultura, de São Paulo. Por lá já tocaram e foram entrevistados Junio Barreto, Maquinado, Eddie, Alessandra Leão, Di Melo, Orquestra Contemporânea de Olinda, Mombojó, Lirinha, Rodrigo Caçapa, além de inúmeros artistas de outros locais. “Tenho pensado cada vez mais a música sem separar por região. Vivemos um momento riquíssimo da música brasileira, e estamos todos unidos por uma só rede”, diz. O conteúdo do Cultura Livre pode ser acessado neste link.

Distribuição Diante dessa volumosa produção fonográfica, questões sobre a difusão e distribuição dos discos lançados anualmente sempre emergem. O que fazer para melhorar tal situação?

Para Vinícius Carvalho, produtor cultural e um dos articuladores do Coligação da Cultura – PE, o problema “clássico” é o da não veiculação maior das produções pernambucanas nas rádios locais. “Se não toca, não chega nos ouvidos das pessoas. Não vejo outra solução se não abrir os espaços de difusão de forma profissionalizada, equilibrada e democrática”, aponta. Ele defende uma maior intervenção do Estado e mais pressão social para mudar a lógica do mercado, o qual considera “engessado”, “atrasado” e “ignorante”. “Felizmente hoje existe a internet como válvula de escape, não fosse isso a música estaria presa nas garagens”, complementa Vinícius.

Ex-integrante do Cordel do Fogo Encantado e atual líder do grupo Os Sertões, Clayton Barros reclama da programação veiculada pelas rádios e TVs locais. “As concessões públicas desses veículos estão nas mãos de um monte de gente que não tem o menor interesse em expandir nossa cultura, nossa diversidade de artistas, gerando assim um público que se alimenta da mesma coisa eternamente, impossibilitando o conhecimento de outros estilos e o escoamento dessa arte, desse discos”, critica.

Mais opiniões“A distribuição virtual é uma saída inteligente e interessante. Liberando o disco na rede quando o artista vai fazer o show o repertório já é conhecido e as vendas acontecem nesse momento do contato do artista com o público. Há iniciativas de fomento para produção e divulgação mas para distribuição do disco físico, não conheço. Se as empresas, os editais contemplassem essa etapa, talvez desse certo, mas o que tenho visto é o próprio artista se encarregar disso. Tulipa Ruiz é um exemplo bem sucedido. Ela envia por correio, vende pelo site”. Patrícia Palumbo, escritora, jornalista e apresentadora

“Acho que no momento em que estamos, o melhor modo de distribuição de um disco é o modo como ele está sendo feito na internet (com vídeo, uma música por vez, disponibilizar para streaming, colocar para download, pague quanto puder). Isso da parte dos músicos. Fazer shows em outros estados é o modo da música circular, e aí também acho que temos que pensar como chegar com a banda em outros estados para apresentar o show sem que ela tenha que pagar para tocar”. Roberta Martinelli, radialista a apresentadora

“O mercado musical do artista médio e pequeno no Nordeste e no Brasil consiste muito mais no tocar do que na venda da obra, quer seja física ou virtual. O disco é a ‘isca’ da apresentação, que é o produto fundamental deste mercado atualmente. A falta de espaços (bares, pubs casas de shows) voltados para artistas com carreira produção autoral é o que mais atrapalha o desenvolvimento de uma cadeia produtiva da música”. Patrick Torquato, DJ e coordenador de música da Prefeitura do Recife

Siga-me no Twitter (@lex_lilith)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos