Cinema, dinheiro e liberdade OU o pop, esse demônio

Esta semana, o ataque de um grupo internacional de hackers contra a Sony Pictures motivou o cancelamento do lançamento mundial de um filme, A Entrevista, dirigido e interpretado por Seth Rogen. Confesso que não tenho paciência para comédia, por isso não sei o que esperar de Rogen, um canadense com cara de bobo. Mas certamente daria uma chance para esta, que satiriza o ditador Kim Jong-un, da Coréia do Norte: certamente um dos seres humanos e um dos regimes mais idiotas do planeta.Na verdade Kim e a Coréia do Norte são um assunto bastante coerente com a linguagem da comédia.

O grupo de hackers “Guardiões da Paz” (?) começou seus ataques há duas semanas, vazando mails com mensagens (mais ou menos) comprometedoras para o produtor Scott Rudin e a diretora da Sony, Amy Pascal, sacaneando Angelina Jolie, o presidente Obama e Leonardo DiCaprio. Também vazaram roteiros, cinco filmes (quatro totalmente inéditos), e outros mails, como um ataque de pelanca de George Clooney.

Mas A Entrevista parece estar bem no meio da encrenca: foram as ameaças de ataques terroristas a salas que exibissem o filme que motivaram o cancelamento da estréia, marcada para o dia 25 de dezembro. É aí que começam as dúvidas: se A Entrevista era mesmo o alvo principal do ataque. O que apontaria para a Coréia do Norte, um país que tem uma unidade de hackers de elite, que já derrubou as redes da inimiga capitalista, a Coréia do Sul. E que já havia chamado o lançamento da comédia de “um ato de guerra” e “terrorismo”.

Ou se foram as suspeitas contra a Coréia do Norte que levaram os hackers (nessa hipótese simples extorsionistas) a fingirem motivação política. Alguns especialistas põem a primeita tese em dúvida (aqui uma boa matéria sobre os detalhes do assunto), mas o FBI aposta nela. O fato é que os Guardiões obtiveram sucesso com as ameaças – em qualquer caso, o regime norte-coreano está satisfeito.

O assunto tomou uma dimensão política inusitada, rendendo declarações como a de Obama: “Se alguém é capaz de intimidar pessoas lançado um filme satírico, imaginem o que vão começar a fazer quando virem um documentário ou reportagem da qual não gostam”, e principalmente a do republicano Mitt Romney (candidato vencido por Obama em 2012), que disse que a Sony deveria lançar a comédia on line e de graça. A Sony disse que não vai esconder o filme, e que está considerando as alternativas para exibi-lo.

Se o “mundo livre” (que não é tão livre assim) tem uma única vantagem, é liberar as forças da zoeira e da trollagem contra a pompa autoimportante dos regimes ditatoriais e teocráticos. Como ensina o arquétipo do bobo da corte, a autoridade constituida precisa de uma válvula de segurança por onde passe o imput da crítica, quando ela começa a acreditar demais em si mesma.

Jong-un, que é uma caricatura de um rei da tragédia grega ou do repertório shakespeareano, já mandou matar o tio, e acumula títulos bizarros, alguns herdados do pai, o ditador Kim Jong-il. O que você pensaria de alguém que ostenta, a sério, nomes que se parecem com fantasias de luxo do tempo de Clóvis Bornay, versão comuna, como “Querido Líder Que É A Encarnação do que Todo Líder Deve Ser”, “Suprema Encarnação Do Companheirismo Amoroso Revolucionário” ou “Sol do Futuro Comunista”?

A Coréia do Norte herdou a risível concepção soviética do “realismo socialista”. Esse estilo, que também é sacaneado no cartaz de A Entrevista, é hoje um dos itens de exportação da Coréia do Norte, como se vê nesta interessante conversa com Pier Luigi Cecione, representante no ocidente do Estúdio Mansudae. Mas a graça da coisa diminui se lembrarmos que foi a intolerância cultural matou o cineasta holandês Theo Van Gogh, ameaçou o escritor anglo-indiano Salman Rushdie e envolveu até a publicação de caricaturas, entre outras polêmicas étnico-político-religiosas.

A cultura pop tem essa missão de emular alguns aspectos ditos negativos do psiquismo humano: a disposição para a controvérsia, a provocação e a iconoclastia; a liberdade de dizer que o rei está nu. A “guerra simbólica” aberta entre a Coréia do Norte e a investida satérica (mesmo que boba – quem viu diz que o filme nem é grande coisa) de Seth Rogen é mais importante que os lucros envolvidos na distribuição dessa produção. O conservador Mitt Romney (nisso) está certo.

Já no Brasil, nesta mesma semana, a Ancine (Agência Nacional do Cinema), provocada pela ocupação de quase 50% das salas de cinema do país por um único filme, a terceira parte de Jogos Vorazes, mudou as regras para o setor. O presidente da Ancine, Manoel Rangel, tinha chamado o lançamento de “predatório”, no mês passado, e a decisão se acelerou. Agora, um filme não pode ocupar mais do que duas em complexos de até seis salas. Em espaços com mais de seis salas, não pode ocupar mais do que 35% delas.

É um desses paradoxos da cultura pop. Das franquias jovens, Jogos Vorazes não é das piores. É uma distopia inteligente, que tem uma heroína mulher e inquieta, e evita em geral fetichizar a violência. E ainda tem escalação de elenco de apoio coisa fina: Donald Shuterland, Stanley Tucci, Woody Harrelson, o finado Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore. Mas a lógica da distribuição capitalista leva a série a fazer nos cinemas o próprio papel opressivo que ela tematiza, ao falar dos reality shows assassinos do futuro.

Enquanto a cultura pop faz o papel do bobo da corte: apontando na sociedade suas solenidades e encenações risíveis, ela mostra sua face mais interessante. Já quando ela faz o papel do rei, do opressor, do monopolista, ela perde todo seu potencial transformador. É por isso que vale à pena brigar pelo filme de Seth Rogen, uma bobeira que ridiculariza o ditador Kim Jong-un o suficente para atrair a ira do governo nortecoreano (uma piada sobre uma piada que vira uma terceira piada).

E brigar contra, digamos, nossos “humoristas” playbas, que se batem pelo direito de (re)produzirem humor preconceituoso contra mulheres, negros, gays ou seja lá o que for. Um pouquinho de sagacidade ética no uso da trollagem e do regramento politicamente correto. É dessa habilidade que o demônio – ou o melhor, o exu – do pop trata.

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