Doutor bandido, OU bebê não é rojão, para sair para cima

O dr. César Fenandes é uma das autorida- des médicas da ginecolo- gia no Brasil, e foi eleito para assumir, em janeiro, a presi- dência da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Hoje, domingo, em entrevista à Folha de S. Paulo, ele diz que “não tem simpatia pelo parto domiciliar, porque em dois minutos você pode perder um bebê”. Bom, em dois minutos ou mesmo menos, em circunstâncias desfavoráveis, você pode perder qualquer um.

Ah, dirá alguém, mas um parto é uma circunstância especial. Claro que é. Os mamíferos têm filhotes assim o tempo todo. O especial do parto não é ser uma circunstância de risco extremado. O parto é um supremo ato de saúde, não de doença. Mas parece que interessa à medicina ocidental tratar o parto como um momento de perigo e sofrimento – o que a coloca numa perspectiva estranhamente próxima das religiões (particularmente as monoteístas) que tratam os fatos da reprodução como inadequados e repulsivos.

Em março deste ano, começou uma campanha em que mães, médicas, doulas e ativistas do parto humanizado propõem que os obstetras aprendam a sentar no chão para acompanhar os trabalhos (com a tag #‎sentandoparaopartonormal‬). A campanha surgiu porque um obstetra teria dito em um congresso no Rio de Janeiro que é humilhante sentar no chão, e que não estudou tanto tempo para isso. Lembrei desse episódio porque o dr. Fernandes declara na entrevista que doulas, as acompanhantes de parto, devem se restringir a “pegar na mão, fazer massagem no pé, cantar musiquinha no ouvido”, mas que estão para o médico como o pedreiro está para o engenheiro. Outra imagem que o doutor usa é a de um maestro. O dr. Fernandes reclama de que está se construindo uma imagem de que o médico é “bandido e a doula guardiã” da mulher.

Além do despropósito da comparação (o “engenheiro” ou “maestro” do parto é a própria natureza, não o médico), o doutor manifesta desconhecimento sobre a função e formação das doulas, acompanhantes que dão apoio físico e emocional às mulheres no parto, cuja presença é recomendada pela Organização Mundial de Saúde e pelo Ministério da Saúde. Nos últimos anos, várias polêmicas sobre restrições às doulas têm surgido, em nome dos protocolos higiênicos e biológicos dos hospitais, em contraposição ao avanço das práticas de parto humanizado.

Já uma outra referência da área, a dra. Melania Amorim, da Universidade de Campinas, que é ativista do parto humanizado e da formação de doulas, chegou a postar no facebook um tutorial meio brincalhão ensinando a sentar no chão. Como a dra. Melania explica, “ninguém está propondo que a única forma de atender partos seja sentando no chão, da mesma forma que (espera-se) ninguém precisa ser ensinado a sentar, posto que a maioria de nós (presume-se) senta desde os seis meses (…) Às vezes nós ficamos em pé, às vezes acocorados, às vezes até deitados, da mesma forma que as mulheres têm liberdade para assumir múltiplas posições nós vamos nos adaptando a elas e escolhendo a posição que achamos mais adequada para assistir a cada parto”. Neste link e neste outro, fotos e depoimentos das dras. Amorim, Roxana Knobel, Claudia Polido, Patricia Varanda (foto) e outras explicam as possibilidades de posições de parto.

Na minha única experiência como pai, em que fomos assistidos por uma maravilhosa parteira (com formação de enfermeira obstétrica), minha ex-mulher pariu em casa, com liberdade para levantar, relaxar na cama, no chuveiro, se hidratar comendo pedacinhos de melancia, enquanto as contrações se aceleravam naturalmente. Ela vinha de um parto anterior, em hospital, que tinha sido traumático: em jejum, com as pernas para cima (ou seja,contra a lei da gravidade), em ambiente hospitalar tenso e hostil, preparado física e simbolicamente para enfatizar a autoridade absoluta do médico – e do patriarcado, por extensão. Como explica o link acima, a visão “tecnológica” do parto é totalmente disfuncional: “O ‘simples’ ato de colocar a mulher deitada de pernas para cima em uma posição antinatural dificulta as contrações involuntárias do útero. Para solucionar esse problema – que foi criado pelo modelo atual de assistência ao parto -, é necessário administrar um hormônio sintético para acelerar essas contrações (a ocitocina). Sem liberdade para se movimentar e com a aceleração artificial das contrações, as dores do parto ficam mais intensas e entra em cena a anestesia”. 

Se o dr. César Fernandes estranha que as doulas estejam simbolizando a defesa da mulher, e certos médicos a sua opressão, deveria repensar suas fantasias de “maestro” e “engenheiro”. Ele está na mesma posição que o tal obstetra que acha que sua autoridade não deve ser humilhada, e que a mulher tem que parir com o canal vaginal virado para a sua pessoa, ou seja, para cima, que é onde ele acha que deus se encontra. Mas bebê não é rojão para nascer para cima.

Siga-me no Twitter (@lex_lilith)