É o dinheiro, estúpido – ou o “tiro na cabeça do PT”

Alex Antunes

A primeira parte do título acima parafraseia duas declarações clássicas da política moderna. “É a economia, estúpido”, dita por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, em 1992, na vitória contra um George Bush pai afundado na crise econômica. E “siga o dinheiro”, o conselho que o informante incógnito Garganta Profunda deu ao jornalista Bob Woodward, na investigação do caso Watergate, que derrubaria Nixon em 1974.

Eu acho as análises políticas de Ferreira Gullar um tanto simplórias, mas na sua coluna deste domingo, em O Fenômeno Lula, seu approach básico resume bem uma parte do problema. O início do fenômeno Lula foi resumidamente a convergência de um sindicalista não-revolucionário, Lula, com intelectuais marxistas frustrados com o socialismo real da União Soviética e seus satélites (só faltou mencionar os movimentos de esquerda ligados à Igreja).

Depois de descartados os intelectuais sinceros do governo, e embarcados os partidos fisiológicos da base, como disse Gullar, “um dos instrumentos principais desse projeto de poder era a Petrobrás. E ele não demorou a tomá-la nas mãos, nomeando para cargos fundamentais gente do partido e aliados, numa aliança corrupta que, mais tarde, a Operação Lava Jato revelaria”.

Como se vê, um dos centros da questão é a sustentação de todo esse imenso aparato que o PT se tornou. Com conjuntura econômica internacional favorável tudo funcionou – dava para continuar enriquecendo as grandes corporações e distribuir algum para o povo sem que o rombo da corrupção (e da contratação de “companheiros” incompetentes em cargos bem-remunerados em toda a máquina estatal) ficasse muito visível. Não é mais o caso.

Esta semana, começaram a se configurar situações que envolvem a sustentação financeira do PT, e dos partidos da base. PT, PMDB, PSDB e o antidilmismo não-partidário se angustiam com os movimentos do jogo de xadrez que a conjuntura política se tornou, mas estão se apresentando questões mais pragmáticas que poderão vir a ter um peso importante.

Primeiro, é o temor do PT que uma multa literalmente milionária seja inflingida ao partido pelo Ministério Público Federal. O valor poderia vir a ser equivalente ao que o delator Pedro Barusco, ex-diretor da Petrobrás, avalia que o PT tenha recebido em uma década de corrupção, cerca de US$ 200 milhões (quase R$ 600 milhões). O valor que o PT recebe do chamado fundo partidário (cerca de R$ 25 milhões em 2014) ficaria retido pela Justiça Eleitoral.

Na semana passada, o PT havia anunciado que não vai mais receber doações de empresas privadas, ao mesmo tempo em que escolhia o sucessor de José Vaccari, que foi preso (assim como o tesoureiro anterior, Delúbio Soares, havia sido, pelo envolvimento no mensalão). Claro que nestas circunstâncias o PT já não estava recebendo doação empresarial nenhuma – a solução será voltar às velhas campanhas de arrecadação com os filiados, mas essas só cobrem os antigos “custos amadores” da agremiação.

É nesse cenário que Dilma sancionou o Orçamento Geral da União. Sem vetar a emenda contrabandeada pelo relator Romero Jucá, que triplicou o valor destinado ao fundo público partidário (dos R$ 289,5 milhões propostos pelo Executivo para R$ 867,5 milhões), num ano em que nem há campanha eleitoral. O orçamento foi aprovado em votação simbólica, e Jucá incluiu o aumento na pauta sem que ele tivesse sido debatido. No meio da tentativa de ajuste fiscal, Dilma ficou tentada a vetar, mas foi convencida do contrário pelo PT.

Romero Jucá é do PMDB. Numa ciranda bizarra, o vice-presidente e articulador político do governo, Michel Temer, que é do mesmo partido, disse inicialmente que o valor sancionado para o fundo poderia ser contingenciado (retido pelo governo) em parte. Alertado de que essa verba não é suscetível de contingenciamento, Temer agora quer que o PMDB devolva 25% do valor que deveria receber – e assim colaborar com o ajuste fiscal. A iniciativa de Temer pegou o PSDB, na oposição, de surpresa – o partido estava pensando em fazer uso político, exatamente, da devolução, para afirmar que o aumento foi irresponsável.

Depois dos protestos contra Dilma, no dia 12 de abril, o líder do movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri (foto), foi acusado pelos blogueiros petistas de dizer que o PT tem que “levar um tiro na cabeça”. Disse mesmo. A frase foi tirada de contexto. Era uma resposta ao senador do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira, que tinha declarado que não queria o impeachment, mas sim deixar o governo sangrar. Na sexta feira, Kataguiri iniciou uma caminhada rumo a Brasilia, pelo impeachment. As caminhadas são, como se sabe, um instrumento tradicional da esquerda. Está tudo de cabeça para baixo – o governo Dilma e o PT inclusive, e continuam sangrando. Podem não levar tiro, mas acabar asfixiados – pela falta de dinheiro, estúpido.