A carapuça do amigo secreto

Eu estava aqui escrevendo meu textinho sobre a prisão do Delcídio (e a do Bumlai no dia anterior, e a treta toda para cima do Lula e do PT), mas fui desviado por um outro grande acontecimento do dia – sintoma de algo que talvez venha a ser mais importante no médio prazo.

Trata-se da hashtag #meuamigosecreto, a terceira do recente ascenso feminista, depois de #primeiroassédio e #agoraéquesãoelas. Ao contrário das outras, que tinham um foco claro, essa terceira causou alguma confusão e uso desviante, sendo até apropriada por homens (a #primeiroassédio também foi, mas ainda dentro da lógica proposta, a de denunciar abusos, digamos, formalmente imputáveis).

A #meuamigosecreto, ao contrário, não indica um funcionamento tão claro. É uma espécie de #primeiroassédio mais abrangente, incluindo referências a babaquices ou patetices que não renderiam necessariamente uma denúncia policial. Mas que caracterizam bem a enorme variedade dos comportamentos machistas. Alguns exemplares, pescados na minha TL no facebook:

#meuamigosecreto fantasia que flerta comigo e isso só me faz achar a namorada dele muito mais areia pro caminhãozinho dele

#meuamigosecreto é uma besta quadrada é acha que mulher não deve transar no primeiro encontro, mas se ela fizer uma chupeta tá tudo bem

#‎meuamigosecreto‬ fala que apoia o feminismo, mas quando uma feminista argumenta contra pornografia e prostituição, ele a chama de “feminazi” e “moralista”

#‎meuamigosecreto‬ paga de namastê coração de ouro simpatia cósmica mas bate em mulher e diz que é “normal as pessoas se baterem”, especialmente quando a mulher “é louca”

#‎meuamigosecreto‬ adora menina descolada, desde que ela seja magra, linda e não dê trabalho. Ele é super liberal e acha que lésbicas são aquelas duas minas se pegando com um cara num filme barato. Ele está obsoleto. Ele tem medo de mim

E assim acabou incomodando e expondo machistas não tão óbvios. Cito como exemplo o escritor e colunista Antonio Prata, que escreveu no facebook: “#‎primeiroassédio‬ foi fundamental. ‪#‎agoraéquesaoelas‬ foi lindo. Agora, esse ‪#‎meuamigosecreto‬… Se você tem uma acusação séria, a Maria da Penha tá aí. Se você tem uma acusação menos séria, vai lá e briga com o cara. Mas ficar nessa delação velada, nesse clima de ‘A Lava Jato vai te pegar e você sabe que é de você que eu tô falando’… Meio esquisito, não é não?”. A citação paranóica à Lava Jato, bem no dia que atingiu dignitários e amigos petistas, é sintomática.

Surpreendido com três centenas de reclamações de moças, Prata tentou explicar/ corrigir, dizendo “’Meu amigo secreto’ é como a gente começa a brincadeira natalina cujo objetivo é fazer com que os outros descubram quem é o nosso amigo secreto. O que vi na minha timeline no ‪#‎meuamigosecreto‬ foi exatamente isso: amigas usando a hashtag pra criticar o comportamento de ex-namorados, ex-maridos, amigos ou conhecidos de forma que não ficasse muito difícil descobrir quem eram. Me parece que esta luta tão grande e que está sendo travada de forma tão bonita nos últimos meses se apequena na fulanização e se amesquinha mudando o foco da justiça para o expurgo. Além de reforçar a caricatura machista e equivocada de que o feminismo é o ressentimento das mal amadas. É o que eu penso. E se você pensa que por ser homem eu não posso pensar nada sobre feminismo, beleza. É o que você pensa”. Piorou.

Aparecem alguns termos-chave aí: “luta tão grande”, “travada de forma tão bonita”, “se apequena na fulanização”, “mudando o foco da justiça para o expurgo”. Ora ora. Uma das características do machismo é exatamente a fulanização descabida. Toda mulher é atingida coletiva e pessoalmente pela pressão patriarcal. É uma coisa feia de ver, montada inclusive com minúsculas peças de aporrinhação, provocação, desqualificação e “abusinhos”, não só os criminalizáveis; não tem grandiosidade nenhuma. Só uma pequena parte do que agride o feminino está contemplado pela lei Maria da Penha, isso é bastante óbvio.

É como disse a escritora e professora Giovanna Dealtry, sobre as postagens: “Maravilhosas, inteligentes, sarcásticas, por vezes trágicas. Porque pra tudo que está sendo dito aqui não existe Lei Maria da Penha que dê jeito e, ao contrário do que os homens pensam, e algumas mulheres também, isso não é algo ‘menor’. Narrar é resistir. Narrar é re-existir. Tomar o nosso discurso de volta – não importa se na rua ou no ativismo de sofá – é um caminho só de ida. Nós estamos, como não conseguíamos há muito, muito tempo, dar conta, por meio do riso, da sátira e mesmo do drama, desmontar o enredo de nossas vidas, remontar a peça, narrar ao invés de ser narrada. Eu, se fosse você, comprava uma pipoca e recostava, porque o filme vai ser longo”.

Eu não chegarei ao ponto de afirmar que #meuamigosecreto é mais importante que #primeiroassédio, porque não se pode nunca diminuir denúncias de violência. Mas certamente é mais contundente que #agaoraéquesãoelas, esse espaço institucional e concedido momentaneamente por homens (como o próprio Prata). E, em relação às outras duas hashtags, traz uma novidade, ao abrir o leque de “abusos” e “abusadores”: atinge os machistas que se acham “do bem”, “de esquerda”, “artísticos” etc. Também trata a empáfia dos caras com chacota. Mais algumas ilustrações:

#‎meuamigoecreto‬ está tão acostumado a ser o centro das atenções, que se reconheceu em todas as postagens. Ficou tão incomodado, que resolveu assumir o papel de consciência crítica masculina do feminismo, aquela que diz quais são as iniciativas boas e quais são as ruins. As boas são aquelas que não o incomodam, claro. Meu amigo acha que as críticas estão “muito personalistas” - talvez, porque ele seja “personalista”. Não entendeu que estamos retratando estereótipos machistas: as histórias se repetem

#meuamigosecreto tem uma barba de esquerdista e faz umas músicas chatas, cheias de chorume, ele aos 30 anos começou a namorar uma cantora de 16. Todo mundo acha ele genial e fica indo aos shows. As pessoas não conseguem entender que quando ela tinha 6, ele tinha 20

#meuamigosecreto falava que era celibatário, mas dormia com as sobrinhas menores de idade. Além disso ele culpava as mulheres pelo estupro que elas sofriam, dizendo que era “impossível violar uma mulher sem a vontade ela”. Mas ele é conhecido como um homem pacifista que pregou a não violência

#meuamisosecreto abusou das esposas, abusou emocionalmente do filho, e é um mentiroso patológico. Mas todo mundo acha ele um gênio qorque ele fez musiquinhas mentirosas sobre “all you need is love” e “imagine”

#meuamigosecreto separou da mulher porque ela encontrou fotos da filha nua em posse do marido, e casou com essa filha, que tem 35 anos de diferença, mas segundo ele deu tudo certo pq afinal eles tinham uma relação pai-filha antes do relacionamento! Mas todos fecharam os olhos para esse fato, afinal ele é um gênio

#‎meuamigosecreto‬ sempre leva skoll nas festas e toma heineken (descupa ai pessoal, não me aguentei)

Aqui neste link a escritora Clara Averbuck coleciona mais algumas postagens, e analisa a hashtag. Não estranha que caras que jogam para a plateia, como Prata ou Jean Wyllys (ou Marcelo Camelo, ou Woody Allen, ou os fãs de John Lennon e Mahatma Gandhi) possam ficar descompensados em ser colocados na mesma cesta com o Bolsonaro. Na verdade, quando chama isso de expurgo, Prata percebe que há um componente, digamos, lilithiano no feminismo atual, que trata todos os homens como um conjunto de abusadores em algum grau.

Podemos dizer que #primeiroassédio e #agoraéquesãoelas eram friendly com o que algumas feministas chamam pejorativamente de “esquerdomachos” e “feministos”. Já #meuamigosecreto realmente resolveu distribuir patadas num âmbito maior, incluindo caras que deram, ou facilmente dariam “uma força pras minas” nas duas primeiras. Como disse uma amiga minha, “aposto que achou #agoraéquesãoelas lindo porque foram homens dando espaço. Tipo abrir a porta do carro”.

Meu colega de Yahoo, Matheus Pichonelli, pontuou: “Se alguém ainda associava qualquer debate sobre feminismo a uma bandeira da ‘esquerda/ governista/ bolivariana’, os vícios expostos na campanha #meuamigosecreto mostra que precisamos, todos, repensar sobre uma série de condutas aparentemente banais. O tema é difícil porque entra no campo da violência psicológica, e não física. A figura do esquerdomacho está no centro deste debate, e todos nós, em algum momento da vida, esbarramos ou continuamos esbarrando nessas condutas. Pensar um pouco sobre isso é o mínimo que podemos fazer. Demonstrar em público a irritação com uma suposta ‘humilhação’ é quase um crime confesso de inaptidão. Melhoremos”.

O “lugar de fala” de #meuamigosecreto é deslocado, desconfortável, porque não pretende mesmo fornecer um território de embate bem demarcado e seguro. Quer, ao contrário, fazer o instantâneo de nossa sociedade. Sociedade em que, sim, todos os homens parecem possuídos por uma mesma energia predadora (eu tento desenvolver o assunto neste texto, Como Era Doce Meu Rio).

Penso que essa nova hashtag trata de um feminismo com a cara deste século: líquido, desconstrutor, eventualmente beirando o non sense. Mas cheio de combatividade, com uma impiedosa leitura da sociedade, e um sentido de sororidade agudo, ainda que informal. Caras que pensam em si mesmo como “artistas humanistas”, ou coisa que o valha, certamente devem odiar virarem alvo. É, como diria Roberto (em uma letra que aliás é uma confissão de abuso), #essecarasoueu.

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