Meu mártir é mais mártir do que o seu (não)

Ontem, estava escrevendo a segunda parte de Como era doce o rio da vida, quando fui surpreendido pelos acontecimentos de Paris. Queria relacionar o ataque criminoso à natureza com o levante feminista, retomando ideias de textos recentes, onde assistimos a estupros reais e simbólicos, e o mundo está mudando para melhor e para pior, simultaneamente.

A estranha reação das redes sociais hoje, no entanto, se impõe como assunto. Em desgraças anteriores, já assistíamos a reclamações de que quem reage com indignação a algum abuso ou violência não estaria se indignando igualmente com todos os abusos e violências. A isso costuma se chamar indignação seletiva. Já comentei em algum lugar que nossa indignação é sempre seletiva – não há empatia que dê conta de toda a injustiça que se pratica no mundo. Nós nos identificamos, sim, com alguns sofrimentos específicos mais do que com outros. E o que é injustiça para uns nem sempre é para todos.

No atentado terrorista anterior em Paris, o ataque ao Charlie Hebdo, de certa forma essas divergências tinham justificativa política. Houve quem visse o jornal satírico como culpado por sua própria tragédia, ao insistir em fazer piada com Maomé, um personagem histórico mas que foi divinizado pelos muçulmanos. Tratei do assunto nos  textos Ataque à inteligência e Porque o Islã é, sim, violento, cujos títulos falam por si.

Consigo entender (ainda que eu não concorde com) quem reivindica respeito às religiões. E também quem acusa a França, como potência ocidental e país colonizador, de ter culpa no cartório da trama de encrencas geopolíticas do mundo, que explicaria o ataque. Hoje, no entanto, o embate bizarro foi entre quem “preferia” se solidarizar aos franceses mortos, e quem achava que isso era desrespeitoso com nossas próprias tragédias, particularmente a tragédia ecológica de Mariana.

Alceu Castilho, em seu blog, faz algumas colocações interessantes, chamando a atenção para Minas Gerais. Por exemplo a de que “o papel da imprensa graúda é o de reforçar a imagem de um ‘acidente’ – como se esse acidente não fosse inerente a esse sistema econômico genocida. Não fosse também o horror (…) O problema é o dimensionamento. Não haverá avalanche noticiosa sobre o desastre ambiental como o volume de exclamações sobre Paris. O efeito geral, a médio prazo, é o de minimização”. Fato.

No entanto, creio que o texto de Castilho erra ao tentar estabelecer uma hierarquia (mesmo após afirmar que não vai fazê-lo) entre o crime da mineradora Samarco e o do Estado Islâmico. Diz ele: “o Estado Islâmico é um inimigo conveniente para o sistema. O que não o exime de seus horrores. A Samarco, não. A Samarco é o próprio sistema. A Samarco é a brasileira Vale e a angloaustraliana Billinton. A Vale tem capital japonês, tem dedo do Estado brasileiro, tem fundo de pensão, tem o Bradesco. A Vale é o sistema que se perpetua diariamente nas páginas da imprensa – tanto as jornalísticas como as publicitárias (…) O Estado Islâmico e a Vale não representam o mesmo campo ideológico; nem a mesma religião; nem têm os bolsos recheados com a mesma intensidade. Um aposta no desespero como recurso político; a outra aposta no amortecimento”.

Já meu amigo Roberto Verta escreveu, no facebook, em sentido oposto: “Você, que compara o lamentável acidente em Mariana com o terrorismo do Estado Islâmico, precisa saber do seguinte: o EI não é apenas um grupo terrorista, e sim uma organização paramilitar bilionária, aliada da anteriormente temida Al-Qaeda até o ano passado. A Al-Qaeda, que matou milhares de ‘infiéis’ nos últimos 15 anos, cortou um acordo de cooperação entre os dois grupos em 2014 por considerar os jihadistas do Estado Islâmico como ‘violentos’ e ‘intratáveis’ (!!!). Você também precisa saber que a ‘estratégia de guerra’ do EI é tomar todos os territórios possíveis (no Oriente Médio ou não), e transformá-los em territórios muçulmanos, através da ocupação, matança, estupro e saques (não necessariamente nessa ordem)”.

E conclui: “Saiba que, se você estiver em um dos territórios ocupados, pelas leis do EI, vai ter 3 opções: 1. converter-se ao islamismo (não o islamismo da maioria dos muçulmanos, mas o islamismo radical do EI, para que sirva aos propósitos do grupo). Opção 2: pagar uma fortuna em impostos para que continue vivo e professando sua religião. Porém, isso se aplica somente aos ricos, porque a maioria de nós estaremos enquadrados na opção 3: a morte. Em outras palavras, se você estiver em um território ocupado pelo EI e for um homem cristão, por exemplo, sua opção vai ser a execução; e se você for mulher (de qualquer religião) o seu destino será o ‘casamento’ com um membro do EI e o estupro, sendo que grande parte das jovens estupradas nos territórios ocupados na Síria, Líbia e Iraque acabam cometendo suicídio. Saiba que as famílias sírias não estão pedindo refugio na Europa em busca de um emprego na Zara, se é isso que você pode achar. Enfim, aconselho a se informar sobre o que você está comparando, porque empresas multinacionais e governos podem ser perversos e insensíveis, porém o que aconteceu ontem em Paris é fruto do que o ser humano tem de mais baixo e mais selvagem e isso precisa a todo custo ser extirpado da face da Terra”.

Assim como Castilho, Verta enxerga uma ameaça mais perigosa (ou mais insidiosa) por trás de um dos crimes. Já a jornalista e professora Sylvia Moretzsohn, neste texto, estabelecer diferenças de natureza entre as duas ocorrências, insistindo em que elas são simplesmente incomparáveis. E que há um motivo por trás da diferença de ênfases: “do ponto de vista humanístico, nenhuma vida deveria valer mais (ou menos) que outra. Entretanto, não foi assim ao longo da história, e menos ainda no capitalismo, que tende a transformar tudo e todos em mercadoria: não é muito difícil constatar que as vidas têm valores muito diferentes conforme a posição social que se ocupa. Numa crítica mordaz aos critérios de notícia que orientavam — e orientam — a imprensa, Alexander Cockburn dizia que ‘os editores devem se lembrar de que há extensas partes do mundo nas quais as pessoas não existem a não ser em grupos de mais de 50 mil’”.

Para Sylvia, “Deplorar o sangue derramado é uma necessidade em qualquer circunstância. Mas, do ponto de vista da política, as circunstâncias fazem toda a diferença. É isto que o bem intencionado apelo humanitário ignora, ao promover essa generalização que só ajuda a confundir e dificulta a luta necessária por um mundo menos desigual e violento”. Procede. Mas o que se viu nas redes sociais hoje, sábado, não foi uma reação ingênua aos apelos humanitários.

Pelo contrário, a sensação é de que se falou cada vez menos sobre os fatos, e sim sobre o que se falou sobre os fatos, e sobre o que se falou sobre o que se falou sobre os fatos, numa espiral verborrágica que se distancia do ocorrido – e dos apelos humanitários inclusive, com grande contundência verbal. Eu creio que isso não se dá à toa. Pois, ao mesmo tempo em que Samarco e Estado Islâmico podem sim ser vistos dentro de uma mesma ordem destrutiva, o que rege essa ordem é a noção de culpa e martírio.

Nesse sentido, o que estava em discussão não era se um ou outro ataque é mais atroz, mas se “meu morto é mais mártir do que o seu”. Quem insiste em lembrar que há mais gente sendo assassinada nas periferias do Brasil e do mundo do que em Paris, sem deixar de ter razão quanto ao horror disso, tem uma espécie de apreço mórbido por “seus” mortos, como se o martírio deles os honrasse de alguma forma. A outra face da moeda é que, como a mão punitiva muçulmana que se levanta, também temos nossos próprios fundamentalistas criminosos.

Neste vídeo pavoroso (para mim tão pavoroso quanto as degolas do Jihad John), este “pastor” brasileiro descreve a lavagem cerebral de jovens cristãos e o ataque a manifestações afrobrasileiras. Chama de “dar uma busca e apreensão no Preto Velho” – o discurso repressor não é coincidência. O violento e ilegal “pastor” Lucinho, da Igreja Batista de Lagoinha (Belo Horizonte), do ministério de Louvor Diante do Trono, tem programa na rede Super de televisão. Sabemos que terreiros têm sido atacados, o que já levou a mortos e feridos. Um outro oportunista, Silas Malafaia (foto), logo após os ataques descreveu seus  iguais, os assassinos de Paris, como os inimigos que as igrejas cristãs barram.

Samarco, Estado Islâmico e esses “pastores” respondem, todos, ao mesmo comando: ao da ordem patriarcal e sua pulsão de morte, que destrói o mundo natural e a dignidade humana, de um jeito ou de outro. O mesmo perigo, aqui e lá.

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