Minha morte; Fátima Bernardes

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No sábado passado acordei logo cedo – tendo um treco. Dor intensa no peito, irradiando para os braços; dificuldade de respirar; impossibi- lidade de achar uma posição razoável para ficar, fosse sentado, deitado ou de pé. Considerei a possibilidade de estar tendo um ataque de pânico (nunca tive, então não sei como funciona). Basicamente porque não vejo muita razão para um corpo falhar. Acho frescura.

Tentei jogar bubble hit. Minha pontaria estava ótima (talvez até um pouquinho melhor do que o normal, mas isso não faz muito sentido). De qualquer modo, não era um ataque de pânico – não concebo que alguém possa ter um e ficar jogando habilmente. Devia ser algo “de verdade”. Vencido pela lógica, peguei um táxi e fui pra o Hospital das Clínicas.

Consegui ser admitido direto para a emergência. Parece que meu eletrocardiograma estava bastante zoado. Fui levado de maca pela pontezinha do Incor, rapidamente cateterizado, angioplasticizado (?), e eis-me aqui para contar a história. O procedimento é divertido – como a anestesia é local, pude acompanhar o jovem doutor com habilidade de videogame me cutucando por dentro e enfiando novas pecinhas.

A menção a videogame não é aleatória. Era desse tipo mesmo a grande habilidade dele, não como o sacerdote de alguma coisa fazendo passes. A expressão “ghost in the machine”, que eu gosto de usar em relação à melhor música eletrônica, espécie de macumba tecnológica, aqui aparecia ao contrário. Como o filósofo Gilbert Ryle a criou, uma chacota com o dualismo corpo-mente, e não a admissão de alguma fantasmagoria.

Menos do que um mecanismo sutil e complexo, eu me senti literalmente como uma… torneira entupida. Não havia transcendência nem espírito imortal nem meu usual banzo do futuro e do absoluto, só um encanamento velho vítima de displicência no despejo de gorduras. E, para minha sorte, um doutor-menino cheio de manha no roto-rooter com olhos de raio X. E só. Isso acabaria por aqui. Talvez eu nem tenha “nascido de novo”, tenha é nascido mesmo, pela primeira vez e meio que em branco.

O problema é a convalescença. Num quarto de hospital com aparelho de TV, você… liga a TV. O que não costumo fazer, muito menos aos domingos, quando a televisão se dedica ao mais depressivo culto do vazio. Não vou aqui falar de meu ódio pela pseudograça de classe média remediada do Faustão, nem pela bizarria ligeiramente perversa da Ana Maria Braga, ou a pseudoassertividade “jornalística” do William Bonner, que voltaram na segunda. Mas sobre uma coisa pior do que isso não posso calar.

Como disse meu amigo Logullo (sobre a situação psicossocial do país, mas que para mim descreve bem esse monstro em particular), “o vazio toma conta de tudo, e o nada toma conta do vazio”. Estou falando da Fátima Bernardes. O programa dela seria como o afundamento do Titanic, ou o baile da Ilha Fiscal, se um e outro terminassem silenciosamente, numa implosão branca, rumo à Coisa Nenhuma.

Descobri assim que: a) eu era uma torneira entupida; b) eu sou uma torneira que foi desentupida – mas estou num mundo de araque onde o “principal canal de televisão” escolhe ter a Fátima Bernardes no meio da manhã. Perto dela e de suas conversinhas, o Louro José se enche de graça, urgência e brilho (até alucinei com um Louro Youssef, que a cada vez que abrisse a boca derrubaria os presidentes do congresso, da nação, ou a diretoria toda da FIFA).

Nem estou reclamando do fato dela ser garota-propaganda da Seara, e a ironia de que a única coisa realmente assombrosa na minha situação é não poder mais comer linguiça (ainda que pareça esquisito uma ex-jornalista praticamente se equiparar ao Tony Ramos na coisa mais questionável que ele já fez na vida).

O que fiquei me perguntando um tanto é se vale mesmo a pena sobreviver em um mundo tão babaca. Parafraseando outro amigo, Luiz Henrique Romagnolli, o Grande Deus Inexistente das Torneiras (G.•.D.•.I.•.T.•.) me botou aqui para alguma coisa, btw. Volto do vale das sombras para o vale das sombras mesmo, e faço minha denúncia: da conspiração da Coisa Nenhuma, quando o vazio toma conta de tudo, e o nada toma conta do vazio. Eu não estou morto, mas Fátima Bernardes está.

(Foto: uma ponta minha no novo filme do Grampá, semanas antes do infarto agudo do miocárdio/ divulgação)

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