Atentado à inteligência

Freud publicou, em 1905, um ensaio que é um tanto deslocado do resto da sua obra: O Chiste E Sua Relação Com O Inconsciente. Sem ser exatamente sinônimo de humor, o chiste tem a ver com os mecanismos que levam a humanidade a rir. Não qualquer riso – o humor linear, disparado pelo preconceito e a exclusão do outro, não é um chiste.

Por outro lado, um bom chiste também pode provocar não apenas a hilariedade solta, mas algum nível de inquietação, uma coceirinha psicointelectual. Quem é fã de humoristas anárquicos, como o Monty Python, conhece essa sensação. Para Freud, os chistes liberam material inconsciente. Têm algo da inteligência inconformista do bobo da corte, pois “numa brincadeira pode-se dizer até a verdade” (como nota a psicanalista Marília Brandão Lemos Morais, é o “sem querer querendo” do Chaves). O chiste é uma forma de inteligência libertadora.

Digo isso tudo para tentar explicar porque um terrível ataque terrorista se voltaria… contra um semanário de humor, uma espécie de “Pasquim sobrevivente” da França. Charlie Hebdo tem uma longa lista de escaramuças com o ódio islâmico. Uma bomba incendiária já tinha sido jogada na redação, sem fazer vítimas, em 2011.

Mas o editor Stephane Charbonnier, que morreu no atentado de hoje, não se acovardou naquela ocasião: “Maomé não é sagrado para mim. Eu vivo sob a lei francesa, não sob a lei do Corão”. Segundo Ziraldo, o desenhista Wolinski, dos mortos no atentado o mais conhecido e querido dos brasileiros (era publicado na revista Status na década de 70), também era um “francês bem irreverente, bravo e combativo”. Filhote de 68, Wolinski “influenciou todo mundo que vocês conhecem: Ziraldo, Jaguar, Nani, Henfil, Fortuna… O cara era uma escola. Que dia tenebroso!”, disse André Dahmer, no Twitter. Aqui, no blog do Flávio Moura, uma geral sobre os mortos.

Na verdade, a encrenca começou em 2006, quando Charlie republicou as charges dinamarquesas de Maomé do Jylland-Posten, assunto que eu comentei lateralmente outro dia, falando de, err, intolerância humorística no caso do filme A Entrevista (Cinema, dinheiro e liberdade OU o pop, esse demônio). E vem em um momento político delicado para a Europa, em que os avanços da direita incluem, na Alemanha, mobilizações antimuçulmanas, convocadas pelo movimento Pegida (Patriotas Europeus Contra A Islamização Do Ocidente).

Ler o jornal de hoje, no começo da tarde, após o atentado, foi estranho. Pelo menos duas matérias estavam irremediavelmente superadas. A que tratava em tom otimista das manifestações anti-Pegida na Alemanha; porque é claro que os antimuçulmanos vão ganhar um impulso com o atentado, em toda a Europa. E a matéria no caderno cultural falando (com certa desconfiança) de Soumission, o novo romance do polêmico escritor Michel Houellebecq, que ficcionaliza a chegada de um partido muçulmano ao poder na França, em 2022.

Acontece que, fechando o círculo ameaçador, Submission vem a ser o mesmo título do filme que provocou o assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh, por um extremista islâmico, em 2004. Os dois títulos, do filme e do livro, derivam do fato de “Islã” significar exatamente “submissão a Deus”. E Houellebcq foi a capa da Charlie Hebdo que foi hoje para as bancas, poucas horas antes do atentado.

Numa charge de Charb (o editor Charbonnier) nessa mesma edição de hoje, que viria a ser a última publicada em vida do desenhista, um jihadista diz “temos até o fim de janeiro para mandar nossos votos (de ano novo)”. Nem precisou de tanto tempo. Mas o atentado ao Charlie Hebdo toma uma dimensão enorme, principalmente na França, que é tão ciosa da sua intelectualidade. É uma espécie de 11 de setembro contra o lápis, um alvo infinitamente mais frágil e simpático que as torres do capital financeiro; ou mais ou menos como se Tom e Chico fossem mortos numa mesa de bar do Rio.

É claro que é direito dos muçulmanos (e de outros funda-  mentalistas, inclusive os cristãos, que por enquanto nos são mais próximos; e também de funda- mentalistas políticos) serem “submissos” a seu deus (ou concepção de sistema social). Mas a característica central do fundamentalismo é exigir que todos o sejam, ao mesmo deus ou sistema. É nisso que o humor, ou o chiste, se converte num inimigo central dos fundamentalistas: ele é a farpa que esvazia o balão autoinflado dessa “autoridade moral”, dessa solenidade patética, dessa angústia pela infalibilidade – que é a mais humana das características.

Assim como é certo que todos os sistemas religiosos (e provavelmente os políticos também) contenham sempre uns fragmentos de verdade, tomá-los como o todo da verdade será sempre um erro. Como escreveu meu amigo Bruno Torturra no facebook, é “o humor que iguala as pessoas em seu denominador mais comum e generoso: o ridículo. É isso que clérigos, extremistas, teocratas, fascistas da direita e da esquerda não suportam”. É o “direito de zombar” que Charb declarou ao Libération em 2006, o nosso direito de trollar, que essa noção de autoridade não aceita.

No livro de Houellebecq, o partido muçulmano chega ao poder beneficiado por estar disputando o segundo turno contra a Frente Nacional de Marine Le Pen, de extrema direita, e acaba recebendo os votos dos partidos tradicionais de todo o espectro. Gera-se um confronto direita versus direita. Não deixa de ter algo a ver com o paradoxo das últimas eleições brasileiras, onde a possibilidade de um confronto esquerda versus esquerda (Marina versus Dilma) foi cuidadosamente desconstruída pelo PT, que acabou “comprando” todas as pautas da direita, ao sacrificar sua própria história para barrar Marina.

É por isso que o discurso das boas intenções, do bom-mocismo político, não dá mais conta (se é que já deu) do problema. É preciso ter muito cuidado com a tolerância para com convicções que têm a própria intolerância embutida. Pelo contrário, o patriarcado em colapso deixa a intolerância sedutora para muitos jovens; vide a atração que o Estado Islâmico está exercendo sobre milhares de jovens ocidentais, carentes de algum “pertencimento”. Colocar a responsabilidade fora de si mesmo, e ter deus como chefe de gangue parece um bom negócio para uma mente impressionável – e incapaz de entender uma boa piada inconformista.

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