O funk e o sertanejo, OU um Brasil que interessa, e um que não

Um texto de Vladimir Safatle sobre música popular suscita uma discussão interessante. Aliás um não, dois, pois ele escreveu uma resposta às críticas intensas que recebeu. No primeiro, O fim da Música,  publicado na Folha Ilustrada de sexta retrasada, ele diz: “Em todos os momentos em que teve desenvolvimento econômico, o Brasil soube acompanhá-lo de explosão criativa em sua produção cultural, menos agora (…) A partir de certo momento, impera o movimento que vai do É o Tchan, da era FHC, ao funk e sertanejo universitário do lulismo. A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas, é certo que elas conseguiram ser deslocadas para as margens, deixando o centro da circulação completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isso quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista. A música brasileira foi paulatinamente perdendo sua relevância (social), para se transformar apenas na trilha de fundo da literalização de nossos horizontes”.

Ele continua: “A música brasileira foi paulatinamente perdendo sua relevância, para se transformar apenas na trilha de fundo da literalização de nossos horizontes. Ultimamente, todas as vezes que se levanta a regressão da qual a música brasileira é objeto se é acusado de elitista. Afinal, tais músicas teriam vindo dos estratos mais pobres da população brasileira. O que se chora seria, na verdade, o fim da dominância cultural da classe média urbana e o advento das classes populares e das classes do ‘Brasil profundo’. Como se fosse o caso de aplicar um esquema tosco de luta de classes ao campo da cultura. Para esses que escondem sua covardia crítica por meio de tal exercício, lembraria da necessidade de desconstruir a farsa de um ‘popular’ que não traz problema algum para o dominante”.

Apesar da enxurrada de protestos, Safatle não está de todo errado. Provavelmente seu principal engano é citar funk e sertanejo como exemplos paralelos. Principalmente para ele, que está propondo (como se verá no seu texto seguinte) a retomada de julgamentos estéticos, para além dos de fundo sociológico, colocar esses dois gêneros no mesmo balaio é um erro – tanto estético quanto sociológico. Uma das melhores respostas a Safatle foi uma republicada pelo professor e ativista Pablo Ortellado, que a escreveu em 2012 com Luciana Lima. Eles dizem: “No Brasil, as manifestações culturais tradicionais conquistaram alguma respeitabilidade – são vistas como os elementos da cultura popular que compõem a identidade profunda da nação, ecoando a visão romântica de uma cultura pura, autêntica e comunitária. O mesmo não se pode dizer de manifestações populares urbanas como o sertanejo e o funk que ainda são vistas como expressões culturais simplórias, primitivas e inautênticas”.

E seguem: “O sertanejo e o funk, assim como outros gêneros populares urbanos, têm organizações simbólicas próprias que são expressão dos processos sociais que lhes são subjacentes (que incluem, mas não se limitam à mediação econômica da indústria cultural). A ideia de que este tipo de manifestação é uma fabricação arbitrária imposta pela indústria a comunidades passivas não encontra respaldo na análise do seu desenvolvimento histórico. A visão de que as classes populares urbanas são desprovidas de cultura é, no fundo, fruto do entendimento de que a cultura se resume ao sofisticado processo de criação simbólica das classes dominantes ou ao repositório simbólico do nosso passado tradicional”.

De novo, ainda que com sinal trocado, Ortellado e Lima tratam funk e sertanejo como manifestações artísticas comparáveis. É claro que toda manifestação cultural tem algum grau de legitimidade: é absolutamente impossível afirmar que a assim chamada indústria cultural seja capaz de inventar e comercializar, do nada, algum tipo de música que não tenha nenhuma inserção ou demanda psicossocial. O sucesso comercial é (por mais que os marxistas simplórios sofram com a ideia) expressão de uma demanda que existe na sociedade, mesmo que distorcida. No século 20, as máquinas de marketing das grandes gravadoras tratavam de projetar para a estratosfera essas “sustentabilidades”, transformando-as em “necessidades” simbólicas.

Hoje, mesmo que a indústria mantenha alguns de seus tentáculos ativos (como lembra Safatle), isso não funciona tão bem. Alguns dos novos casos de sucesso, na verdade, surgem de bases independentes e verdadeiramente populares, como no caso do funk e do tecnobrega do Pará (que suscitou muitos estudos). Com o próprio axé baiano foi assim – mesmo que com o tempo tenha se tornado uma máquina (local) de exploração violenta e expressão caricata. É fácil concordar com Lima e Ortellado que não cabe, neste século, falar de uma “cultura pura e autêntica”. Uma das características desta fase do capitalismo é exatamente o hackeamento dos meios de produção pelos excluídos.

Uma vez acusaram o produtor alemão Daniel Hacksmann, que lançou já em 2004 uma compilação de funk carioca (foto), de estar prestigiando um gênero ligado ao crime, ao abuso de adolescentes, e todas as acusações que o funk sofria (ainda mais 10 anos atrás) com intensidade. Daniel (que, diga-se de passagem, fez o trabalho direitinho, contatando os músicos no Rio e autorizando a utilização das faixas) lembrou que é da terra do Kraftwerk. Foi o grupo que se apropriou dos recursos da música eletrônica abstrata, na década de 70, e transformou numa nova vertente da música popular. Portanto para ele, como alemão, não havia como não se entusiasmar ao subir um morro carioca e descobrir, décadas depois, que a música inventada por seus conterrâneos estava sendo reciclada por favelados, em computadores dentro de barracos, na América do Sul. (Citei o Kraftwerk e não outros precursores, como W. Carlos e J-J. Perrey, porque é com o krautrock alemão que o tecnopop surge e se descola das noções tradicionais de composição e arranjo, entrando em territórios ambiental-timbrísticos, minimalistas, repetitivos e concretos que até então eram conceitos exclusivos da música erudita).

Para mim, é exatamente esse tipo de hackeamento tecnológico (que existe no hip hop, no funk e no tecnobrega, mas também no raï argelino, no bhangra indiano, no kuduro angolano e em outras expressões locais desde a década de 1980) que estabelece a distinção entre funk e sertanejo. Eu costumava brincar dizendo que, ao vermos as dançarinas do Faustão fazendo uma coreografia ao som de um poperô (nome que a música eletrônica popularesca recebeu no Brasil nos anos 90) estávamos vivendo num pesadelo que os caras do Kraftwerk tiveram em 1974 (ano de seu primeiro disco de estrutura repetitiva, Autobahn). Evidentemente é uma piada – mas a piada leva em conta o grau de abstração e impertinência timbrística e rítmica que mesmo um simplório poperô eletrônico tem para um ouvido “popular” analógico de até então.

Como um internauta comentou na postagem de Ortellado no facebook, o funk eletrônico atual (ex-carioca) não é uma derivação do funk setentista americano, mas sim do Miami Bass, que veio do do electro novaiorquino e, portanto, do Kraftwerk. Por extensão, de compositores conceituais como Stockhausen, Boulez, Pierre Henry e Pierre Schaeffer. Não só não é uma música “desinformada”, como é herdeira de uma linhagem da (assim chamada) alta cultura. Evidentemente filtrada pela cultura de gueto. Igualmente intrigante é a origem do hip hop, gênero com o qual o funk tem DNA em comum (e não com o sertanejo). Consistia em executar uma base musical com dois toca-discos, o chamado back to back, uma espécie de sampleagem manual antes da sampleagem. Essa nova concepção musical acompanhava um tipo de poesia, a spoken word, inserida na tradição dos griots, os mestres da transmissão cultural falada africana. Ou seja, outra forma extremamente criativa (e inclusive virtuosa, na sua execução) de apropriação ou hackeamento cultural e tecnológico.

Assim, estou pronto a concordar com Ortellado que não dá para pensar nessa música como sendo “conformada e conformista”. Mesmo afirmando que não, Safatle cai na armadilha adorniana de acreditar que as tecnologias modernas têm um papel necessariamente empobrecedor na produção cultural. O filósofo Theodor Adorno, no seu combate contra o jazz no século passado, desconsiderava que o embate da cultura negra com a cultura branca gerou uma forma híbrida, que se beneficiava ao mesmo tempo de componentes “brancos” como melodia e harmonia trabalhadas, e componentes “negros” como o pulso rítmico tribal e celebratório. Essa acoplagem de yang e yin, ou de música do espírito (agudo e veloz) e música da alma (soul; grave e lento), continuou se desenvolvendo, chegando ao rock e ao funk setentistas. Clinton (o músico negro, não o presidente branco) fez no título do álbum de funk psicodélico Free Your Mind… and Your Ass Will Follow (1970) chacota com essa brincadeira libertadora entre corpo e mente, que a música pode conduzir. Esses componentes continuam presentes na trincheira da música negra atual, e com potencial transformador, ainda que com alguma especificidade de época (tento desenvolver um pouco o assunto no texto Mano Brown, Ed Motta, Seu Jorge: lugar de quem, cara pálida?).

Por outro lado, eu estou pronto a concordar com Safatle que o sertanejo é, ao contrário do funk, uma música derivativa e conservadora, “uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isso quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista”. Nos textos Não sei quem é Cristiano Araújo – e nem quero saber e A hegemonia do sertanejo e a de Eduardo Cunha (saudades da elite que lia) eu abordo o tema. Tentando combinar análise sociológica e análise estética (que afinal não se anulam, mas se complementam), podemos concluir que funk e sertanejo são gêneros que estão em territórios opostos. Onde um hackeia, o outro dilui. Onde um afirma identidades novas para os ex-excluídos, o outro propõe a inclusão com base na ascensão acrítica. Um radicaliza na linguagem urbana e combativa, o outro contemporiza na flacidez agrária e patriarcal.

Como insiste Safatle em sua segunda coluna sobre o assunto, publicada uma semana depois, dar mole para essa busca hegemônica do sertanejo traduz “uma incrível covardia crítica em relação à miséria musical do que circula de forma maciça nesta última década (…) Parte de tal covardia vem do fato de que, mesmo que esta produção seja ouvida em qualquer festa da elite brasileira, mesmo que ela seja o motor da produção da indústria cultural brasileira, que ela embale sem tensão o mundo da integração absoluta, alguns ainda irão querer lê-la como expressão da ‘espontaneidade popular’”. O arrivismo sertanejo é a trilha sonora de um acordo envergonhado entre Dilma e Cunha – tudo de oportunista de que o país precisa se livrar.

No sentido contrário, eu creio que, se a contribuição negra (e parda) é propor formas subversivas em seu vigor tribal e coletivista, a contribuição branca é seguir propondo complexidade conceitual e autoral. Foi essa tensão que alimentou a melhor música do século passado – inclusive a genial (nisso todo mundo concorda) música brasileira de algumas décadas atrás. Era psicossocialmente necessário para o país esse período de inserção e valorização da tal “expressão da classe c ascendente”, e a descontrução da falsa noção de “bom gosto” que era a cara das supostas elites. Mas agora está na hora de ir em frente e separarmos um pouco o joio do trigo.

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