Psicodélicos para a paz: o ecstasy antiguerra no Brasil

Alex Antunes
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Uma profunda confusão desorienta nosso relacionamento com as substâncias alteradoras do estado de consciência. Chamadas aleatoriamente de “drogas”, substâncias naturais e sintéticas são acusadas de traírem a nossa justa percepção do mundo, em nome de alguma propensão à fuga da realidade e/ou à destruição da, digamos, produtividade.

Cabe fazer algumas observações. Primeiro, que as culturas ancestrais têm um relacionamento muito mais saudável com os alteradores. Em contextos xamânicos, rituais e/ou oraculares, a mudança de frequência de onda cerebral (associadas a diferentes graus e tipos de transe, e induzida por diferentes substâncias), é aceita e incentivada. Para essas culturas, há níveis de percepção extraordinária desejáveis, e que são acessados no transe.

O estranho para essas culturas seria chamar esse uso de “recreativo”, como se fosse uma espécie de compensação para parcelas da vida que são tensas e indesejáveis. Nessas culturas, o todo da vida está envolvido nos mesmos valores e objetivos. Então o transe não é um momento de fuga ou alienação mas, ao contrário, um dos pontos altos da vida social e pessoal. A concepção de “uso recreativo” é uma espécie de pornografia do transe.

Além disso, para alguns pensadores e cientistas do transe, como Carlos Castaneda, Timothy Leary, Terence McKenna, Stanislav Grof e John Lilly, o que achamos que é o nosso estado de consciência “normal” é apenas uma convenção. Termos como “realidade consensual” ou “túnel-realidade”, ou a frase “qualquer realidade é uma opinião” (Leary), descrevem essa prisão em uma única dimensão, que é apenas uma construção social, um transe exclusivista. E que eventualmente é esburacada por um outro transe, um choque, uma obra de arte.

Todos esses autores tentaram estabelecer “procedimentos de vôo”, num sentido ocidental e contemporâneo, para uma experiência de conhecimento e autoconhecimento produtiva. Alguns deles, como Leary, Grof e Lilly, encontraram nas substâncias sintéticas paralelos com os transes movidos a plantas tradicionais (especialidade de Castañeda e McKenna). Outro fato interessante é que, ao mesmo tempo em que a indústria farmacêutica legitima substâncias voltadas para o ajuste acrítico e a manutenção da produtividade (mesmo que em bases precárias), outro braço do sistema, o policial-judiciário, se ocupa em colocar na ilegalidade e reprimir o consumo das substâncias tidas como “improdutivas”, incluindo a maconha.

E uma das vítimas é a ciência. A pesquisa com o LSD e outras substâncias psicodélicas, desenvolvida ao longo da década de 1960 por Leary, em parte na Universidade de Harvard, levaram a um choque de frente com as instituições. Leary foi chamado de “o homem mais perigoso dos Estados Unidos” – o que, vindo de Richard Nixon, certamente foi um elogio. O trabalho de Leary e de outros pesquisadores acabou reprimido junto com todo o ascenso criativo a que esteve associado, e a explosão contracultural do final dos ambos 1960 e 1970. O acesso ao transe acabou se revelando, mais do que uma questão espiritual e filosófica, um tremendo embate político.

É interessante que o termo “verão do amor”, surgido em 1967 para descrever a cena psicodélica em torno da cidade de S. Francisco (EUA), tenha sido resgatado 21 anos depois para descrever a cena britânica das raves, festas de convivência amorosa movidas a música eletrônica. E a uma “nova” substância sintética, o MDMA, popularizado como ecstasy. Assim como o LSD tinha alimentado um movimento social, artístico e político que partiu dos EUA para o mundo ocidental, o ecstasy teve um profundo impacto sobre uma geração inglesa, com desdobramentos em todo o planeta.

E, da mesma forma que no choque contracultural da década anterior, levou à suspensão de pesquisas científicas. O MDMA, patenteado pela alemã Merk em 1912 (o LSD foi sintetizado pelo dr. Albert Hoffman em 1938, no laboratório suíço Sandoz), teve seus efeitos terapêuticos descobertos no fim dos anos 60, pelo químico russo-americano Alexander Shulgin (foto). Durante mais de dez anos, as pesquisas com o MDMA, em várias frentes, tiveram resultados satisfatórios.

Mas a distribuição de ecstasy adulterado (a um certo ponto da “moda” uma parte considerável do ecstasy vendido já não continha MDMA algum) provocou a decisão do DEA (Drug Enforcement Administration, dos EUA) de colocar o MDMA na categoria de substâncias proibidas. A recomendação do juiz Francis Young tinha sido de que as pesquisas e o uso médico pudessem seguir, mas não foi assim. E a pesquisa com essa substância sumiu de vista.

Acontece que, no Brasil, a CONEP – Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, deu sinal verde para que quatro pacientes sejam tratados com MDMA no Brasil em 2016, sincronizando o país com um estudo internacional no ano seguinte, com o objetivo de regulamentar essa terapia até 2021. O coordenador internacional da pesquisa é a MAPS – Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies, fundada nos EUA na década de 1980.

Porque essa pesquisa é fundamental? Porque o MDMA interfere com a produção de serotonina no cérebro. Serotonina é um neurotransmissor associado a sensações de bem-estar e empatia. E as pesquisas de décadas têm apontado que o MDMA é uma importante ferramenta na cura do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Frequentemente associado aos combatentes que voltam abalados da guerra, o TEPT também está presente em casos de estupro, sequestros-relâmpago e outros abusos violentos, gerando casos de tratamento difícil ou praticamente impossível.

É como se essas situações de violência “trancassem” a pessoa em uma dimensão inacessível, numa sensação de ameaça de terror recorrente. E o que o tratamento que alterna seções com uso de MDMA e de psicoterapia faz é reabrir esse canal de comunicação amorosa, e possibilidade de cura. Nesta matéria da Superinteressante, Ecstasy cura trauma, dizem pesquisadores, nesta do Papo de Homem, Ecstasy, trauma e psicoterapia: um caminho para a droga na psiquiatria, e nesta, em inglês, da BBC, Far Out: Crowdfunding Gives New Life to LSD, MDMA Research, há mais detalhes. Aqui um vídeo, com alguns depoimentos de terapeutas e pacientes.

Como o meu amigo, o doutor em neurociências, mestre em psicofarmacologia e especialista em MDMA, ayahuasca, ibogaina e LSD no Instituto Plantando Consciência, Eduardo Schenberg explica, a pesquisa foi liberada, mas não tem financiamento. Então, até a próxima semana, no dia 21 de dezembro, o MDMA no Consultório está em processo de crowdfunding, com o objetivo de arrecadar R$ 50 mil (no momento em que escrevo está com 62% realizados, pouco mais de R$ 31 mil).

Se a arrecadação for bem sucedida, a MAPS vai doar para a pesquisa brasileira o MDMA e mais US$ 15 mil. Assim, as pesquisas com o MDMA se alinham com outras que vêm desde a época do LSD, que foi usado em trabalhos no tratamento de criminalidade, do vício e outros distúrbios psicológicos. No Brasil, especificamente, a ayahuasca (chá do daime) tem sido utilizada com sucesso no tratamento de alcoolismo e depressão.

Sabemos, e repetimos, que a violência no país é um problema gravíssimo. Mas não são apenas mortos e feridos – é também esse efeito de “morte em vida” que vem acometer muitos jovens, incluindo moças, cuja experiência é tolhida e descontinuada por atos de violência, frequentemente gratuita, originada em preconceito e, digamos, “redistribuição da opressão”. Esse ciclo de terror psicossocial tem que ser contido. E a familiariedade saudável com substâncias alteradoras pertence, se não à parte branca, à parte negra e à indígena do nosso DNA social. O Brasil tem uma contribuição a dar no estudo da psicoterapia psicodélica.

Aceite esta, digamos, reprogramação positiva que eu estou propondo: clique neste link e doe a partir de R$ 10. É apenas um pequeno fio da meada da treta psicossocial toda, mas você pode ajudar a puxá-lo e fazer história com esse clique. Abra uma porta para o MDMA, para o MDMA abrir uma porta para a paz.

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