Quem já está com o “presidente Temer“: mais gente do que você imagina

Alex Antunes
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A narrativa dos governistas não muda a realidade – apenas a mascara. O discurso binário governista de que Cunha e o PT estão em campos opostos cola até certo ponto. Nesse caso, as operações e apreensões de ontem deveriam significar um alívio para Dilma e o partido, certo? Errado.
Na verdade, o dia de ontem foi um pesadelo para o planalto. Assim que for retirado do tabuleiro político (é impossível que ele conduza mais algum passo importante no processo de impeachment), o presidente da câmara deixará um buraco na narrativa de vitimização do PT.

Pior, a pressão sobre o PMDB é favorável ao objetivo do vice-presidente Michel Temer de coesionar o partido em torno de si. A teimosia do PT em trazer de volta à liderança do partido na câmara o aliado Picciani funciona ao contrário. O dilmista mais importante do partido, o presidente do senado, Renan Calheiros, que já se enxergava no embate com Cunha como o grande fiador da república (e do processo de impeachment) tomou uma bomba no meio do casco. Visivelmente abalado, Renan vai ter que reavaliar suas pretensões protagonísticas, e pender para onde for (minimamente) mais seguro. De cara, desembarcou da estratégia do governo de suspender o recesso do congresso, e a inviabilizou. Evidentemente o procurador geral Rodrigo Janot sabe no que está cutucando, e nas consequências que isso trará para o planalto.

Hoje, o Supremo Tribunal Federal dificilmente reverterá o andamento do impeachment – apenas o regrará. Há quem diga que o ministro Fachin proporá inclusive a aceitação da votação secreta que elegeu a comissão majoritariamente anti-Dilma, o que começa a abrir a porteira para o afastamento da presidente.

E, ao contrário do discurso governista, isso não é um “golpe”, mas uma necessidade absoluta para destravar o país. Faz tempo que o governo Dilma perdeu qualquer resquício de autoridade para organizar em torno de si alguma solução tanto para a crise política quanto para a econômica, e isso concretamente está sufocando o país. Já em março, eu especulava que Talvez a defesa da democracia dependa de derrubar Dilma. Era uma tese então controversa, mas estamos muito próximos do momento em os agentes políticos custurarão algum acordo excluindo a atual presidência.

Evidentemente seria de se esperar que o petismo tentasse se manter motivado. Mas a escolha bisonha de narrativas contra os contra – por exemplo, tentar desconstruir bobamente o pato da Fiesp ou a participação bizarra de Alexandre Frota nas manifestações de domingo – tem o efeito de desviar o assunto principal, e desinformar a população.

Na verdade, para quem está realmente no centro político, talvez esse desvio de holofotes seja oportuno. O que está se negociando não é um governo puramente do PMDB. É um governo do vice Temer tutelado pelas elites jurídica e política (peessedebista) “clássicas”, digamos assim, um governo Temer com a cara de FHC, de Nelson Jobim, de Gilmar Mendes. O próprio (e oferecido) José Serra, que já se via como ministro da economia num governo do vice, já foi informado que será alocado numa área menos sensível (no caso a sensibilidade dos donos do PIB). Fiesp e PSDB já assumiram o impeachment; vai demorar muito pouco para o ministro Levy sair e sinalizar o abandono de Dilma pelo mundo financeiro.

A gritaria petista a respeito de estarmos ameaçados por fascistas, por uma volta à ditadura, com repressão aberta, só serve para jogar uma cortina de fumaça nas possibilidades reais – na verdade, a iniciativa que mais nos aproxima do arbítrio é uma proposta petista, a lei antiterrorismo. A volta de casinhas no jogo deve nos colocar circa 1997, com a compra de votos por FHC pela emenda da reeleição, e não 1964 ou 1968. Um jogo pesado e corrupto, claro, mas marcado mais por interesses políticos das elites do que essa guerra de ladrões de galinha na qual a tosca política de alianças do PT nos precipitou.

Temer, na verdade, é uma espécie de peessedebista deixado para trás, na saída do PMDB. Não sei se o PSDB fazia alguma ideia de como ele ainda viria a ser útil, mas é uma manobra de certa elegância política antiga, como faziam as velhas raposas. Devem ser sacrificados no processo figuras do PMDB podre como Cunha e Renan e, da parte do PSDB, não seria absurdo supor que o próprio Aécio acabaria rifado. Ele domina uma parte da máquina do partido, claro. Mas, num contexto de limpeza da casa (a república), não seria impossível fazer liberar algo de seus porões corruptos para atrapalhá-lo.

E o PT, evidentemente, será varrido inteiro para o lixo. Revelações catastróficas para o partido, para Lula e para Dilma devem surgir das delações. A mais chocante, vinda de José Carlos Bumlai, o “amigo de Lula”, é a de que 12 milhões que ele recebeu do banco Schahin (ou parte) foram não apenas para o PT, mas para pagar o chantagista Ronan Maria Pinto. E acobertar os fatos sinistros do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Coisa muito feia e perturbadora.

Mas os petistas preferem reproduzir a fábula simplória da briguinha contra Cunha. E o próprio Cunha, esperneando por sua salvação impossível, alimenta o noticiário – por exemplo mandando a mesa diretora da câmara anular a reunião que deu seguimento ao seu próprio processo de cassação. Quando o roteiro todo se revelar, o “grande” vilão Cunha será apenas um detalhe na derrubada da presidente, e na derrocada do PT. Será chocante para muita gente, que acredita hoje na narrativa de superfície.

Isso não é necessariamente péssimo para o país. Esses três anos com Temer – que se esmerará para não ser o pior dos presidentes, e terá um certo apoio para não fazer muito feio – serão tempo para uma reorganização de forças políticas mais com a cara deste século, e não de resíduo do século passado.