Se eu fosse você, OU a crise é tão aguda que Laerte e Reinaldo Azevedo trocam de personalidade

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Ao desenvolvimento da crise do governo Dilma, parece se aplicar o paradoxo da dicotomia do filósofo Zeno. A cada ponto do processo se está a uma fração menor do desenlace. A fração é cada vez mais minúscula, mas alguma fração continua sempre se interpondo, e o desenlace nunca chega.

Evidentemente não é assim que a realidade se apresenta – mas é assim que a elite (econômica, política, midiática) se comporta. Como se fosse sempre melhor tentar ainda algum tipo de acordo, sem precipitar a ruptura, e o consequente trauma (perda do controle… deles mesmos). Para azar da elite (e sorte do país), a inabilidade arrogante do governo Dilma o leva a tentar cada passo só depois que ele não é mais possível.

O aperto econômico tinha que ter vindo antes da reeleição (mesmo que a colocasse em risco). Prestigiar Temer, antes que a relação com o PMDB apodrecesse completamente. Procurar o PSDB para o diálogo, antes que isso soasse um pedido de socorro patético ao adversário. Reconhecer os méritos de propostas da oposição, como enxugar a máquina estatal, antes que isso fosse impossível de executar sem romper os últimos fios de sedução da base.

Não creio que nada disso tivesse dado certo – como eu já especulava em fevereiro, no texto Dilma está errando… porque não tem como acertar, já era difícil projetar algum cenário confortável para o governo. A necessidade de combinar políticas econômicas conservadoras com acenos ideológicos às organizações sociais já seria de execução quase impossível – se o governo não fantasiasse ainda por cima uma potência e uma legitimidade que nunca teve.

O que Dilma e seu governo conseguem criar é uma trincheira de defesa cada vez menor e mais radicalizada, com argumentos cada vez mais sectários e irrealistas, desqualificando violentamente o que soar como oposição. Tudo em nome de uma suposição romântica: a “justeza” das suas intenções, que o conectam epicamente com uma onda “do bem” que vencerá no final. Como no paradoxo de Zeno, esse é um espaço psicossocial cada vez mais exíguo. A diferença é que em algum momento o que Bob Fernandes chama de “alarido redutor de tudo, hipócrita e profundamente revelador da dimensão da mediocridade” implodirá.

Para o observador atento, os choques entre a turma “do bem” (esquerda) e a turma “de bem” (direita) ficam cada vez mais caricatos. A saída para a melancolia é enxergar o absurdo – e, por extensão, a graça – da coisa. Um embate dos últimos dias foi muito sintomático. O quadrinista Laerte publicou uma charge infeliz no dia 18, a terça feira após as manifestações do domingo contra o governo.

No desenho, reproduzido acima, três PMS com máscaras saem de um bar com um rio de sangue que representa um dos locais da chacina de Osasco, em que 18 pessoas foram assassinadas, no dia 13. E caem direto nos abraços de manifestantes anti-Dilma. Reproduzo um trecho da (justa) reclamação publicada na coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo: “Não entro no mérito da discussão ideológica. Explico sempre que cartunistas pertencem ao território franco da opinião e têm ampla liberdade de expressão (…) Sempre fui fã de Laerte, para mim, a pena mais inquieta de um trio genial, complementada por Angeli e Glauco (1957-2010). Laerte é cartunista com autonomia de voo ímpar, capaz de transitar com desenvoltura por temas muito díspares, ainda que sua produção nos últimos anos tenha enveredado por uma trilha irregular e mais hermética (…) Não há como negar, contudo, que ela pesou a mão. Quando o reducionismo é demasiado (e acho que foi), a mensagem perde o refinamento e descamba para o estereótipo (…) O leitorado mais equilibrado não engole essa dicotomia simplista”.

Ao contrário da ombudsman, acho que a fase “hermética” de Laerte o colocou, sem meias palavras, no território da genialidade. Escrevo genialidade com gosto, e com todas as letras. Por isso mesmo, é esquisito que Laerte tenha sido convertido a esse binarismo pouco usual, que quer afirmar que ser anti-Dilma é igual a ser apoiador de assassinos de moradores da periferia. É preciso proteger Laerte dele mesmo. Entendo que uma mente distorcida da pretensa “turma do bem” enxergue assim, mas qualquer pessoa medianamente desanuviada entende que a oposição a Dilma já tomou amplos setores da sociedade – o que inclui as classes menos favorecidas, e a periferia. Pelo contrário, a maioria dos anti-Dilmistas pensa em si mesma como defensora da legalidade – tanto quanto a “turma do bem”.

Como seria de se esperar, a charge mereceu um ataque do colunista de direita Reinaldo Azevedo. Sem ser tacanho como, por exemplo, Rodrigo Contantino (cuja desinteligência emocional eu comento aqui, em O filósofo e a arte de não pegar ninguém), Reinaldo se caracteriza por um texto em geral raivoso e moralista. E sem os arroubos bizarros e engraçados de um Olavo de Carvalho, que comentei neste outro texto, Dilma, Olavo e o pipiu do Jô.

Assim foi. Numa postagem em que chamava Laerte de “baranga moral”, Reinaldo questiona o posicionamento “lésbico” do desenhista, comparando-o com a desonestidade política da charge. A réplica de Laerte foi provocativa, num post do facebook: “Esse cara me dá um tesão desgraçado (…) Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico embaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais”. Até aí, era o roteiro usual, o Laerte e o Reinaldo conhecidos batendo boca.

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A tréplica, no entanto, foi inesperada, meio como se Reinaldo tivesse aprendido algo da desibição de Olavo de Carvalho. Em Para matar Laerte de tesão, Reinaldo publica fotos suas quando jovem trotskista, dizendo que “não fica bem Laerte exercer o sexo solitário pensando num senhor de 54 anos. Ofereço duas fotos de quando eu tinha 20 para fazê-lo sonhar com mais colágeno, né? Afinal, masturbação não tem tempo histórico. É possível se excitar até com Robespierre e com Marat, sem as perebas. E olhe, Laerte, que eu declamava ‘O Programa de Transição’ de cor e salteado”.

Para inquietação dos fãs de Laerte, é como se eles tivessem trocado de personalidade: se Laerte foi praticamente um Reinaldo ao desenhar sua charge linear e grosseira, Reinaldo foi quase um Laerte ao responder com seus “nudes da alma”, fotos de sua juventude humanista. Eu diria que a recém-descoberta descontração da direita (e a ansiedade governista) tem a ver com os estertores do projeto petista.

E a gente, que consegue não ver a evolução (ou involução) da situação política como um torcedor de futebol, tem uma chance de aproveitar estes tempos estranhos.

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