Smells Like Mangue Bitch

Alex Antunes
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SMELLS LIKE MANGUE BITCH

Recife é uma das capitais culturais menos jecas do Brasil. O manguebeat ecoou lá, em plena década de 1990, a mesma percepção de país que já animava o modernismo antropofágico e o tropicalismo. A capital de Pernambuco produzia um antídoto contra a crença na circulação de dinheiro como valor central da sociedade – o yuppismo. Mas, ao mesmo tempo, contra uma certa regressão da cultura pop a valores “machos” e “legítimos” do rock, com o grunge.

Adoro a tese de que a estética de Kurt Cobain e do Nirvana era muito mais uma cria do ambiente riot grrrl, de bandas de garotas feministas, do que do ambiente de seus pares mais tradicionalistas, como Alice in Chains e Pearl Jam. Mas o documentário sobre Kathleen Hanna, de onde vem essa conversa, fica para outro texto. É que lembrei de uma camiseta do manguebeat que eu tive que dizia “Mangue bitch”. Smells like mangue bitch. Tem a ver.

Não é pouca coisa cravar a próxima referência numa linha de pensamento cultural que inclui a antropofagia e a tropicália. A nossa versão da contracultura, toda matizada e terceiromundista, mas sem abdicar da inteligência cortante do pensamento alternativo daquele período (1967-1971), não para de crescer como referência na psicodelia mundial. Na verdade, os Mutantes foram redescobertos antes lá fora (pelo próprio Cobain, além de Sean Lennon e David Byrne), vindo se somar a referências internacionais como Caetano e Gil, e a outras que vão sendo descobertas na gringa, como Tom Zé e Tim Maia.

E o nosso modernismo da Semana de 22, mesmo que não tenha sido muito percebido no exterior, e que haja hoje uma linha de jornalismo histórico que tenta tratá-lo como diletância de filhinhos de papai, tem uma formulação sobre a relação entre cultura popular local e cultura internacional que é absolutamente sagaz, totalmente em sintonia com as vanguardas européias. Uma visão que antecipou as artimanhas da cultura pop tanto quanto Dada (1916), o cinema revolucionário russo (1922) ou o surrealismo (1924).

O manguebeat foi uma explosão da inteligência de Recife, e de Pernambuco, em várias linguagens. O cinema é na qual ela mais continua chamando a atenção. Depois do filme que inaugurou o cine pernambucano atual, O Baile Perfumado (1996), vêm se sucedendo obras importantes para o cinema nacional, como Amarelo Manga, Cinema Aspirina e Urubus, Tatuagem e O Som ao Redor. A música, depois da fase brasileiro-eletrônica que revelou Otto e o DJ Dolores, agora tem a “cena Beto”, com músicos e bandas bacanas como Juvenil Silva, Ex-Exus, Dunas do Barato, D Mingus e outros.

Recife tem uma receita única de relacionar maracatu e rock nas ruas do carnaval, de abordar temáticas locais sem muita condescendência ou didatismo pra turista ver, de se manter mais ou menos imune à prostituição institucionalizada do turismo predador. É essa propensão à “psicoprostituição turística” que transformou a produção de outra capital culta do Nordeste, Fortaleza, num gueto minúsculo, ameaçado o tempo todo pelo humor e pela música sexualizados, mercenários e grosseiros. Já Recife vem se mantendo como um laboratório saudável do imaginário nacional.

Ou vinha. Porque uma briga contra a especulação imobiliária acaba de revelar, em toda sua desinibição, uma casta de neo-yuppies locais, que se manifesta postando nas redes sociais frases como “Pra mim eu quero a identidade com cara de Miami mesmo, de Hong Kong e de locais que são explorados o turismo e que se gere empregos, renda e divisas!! CHEGA DE DEMAGOGIA!! Recife não precisa de choro, precisa de renda, emprego e um turismo forte!!!” (vários sics).

Na verdade essa tensão psicocultural é o tema o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, que trata da chegada de uma milícia de segurança privada a um bairro de classe média, em Setubal, na praia de Boa Viagem. Setubal é zona de transição. A parte, err, chique de Boa Viagem, com seu paredão de “prédios bonitos” na orla, é uma espécie de combinação de Barra (Rio) com região da Berrini (São Paulo). E mostra que herdou as relações da senzala, do engenho, da capitania hereditária, tudo recoberto com muito vidro e dezenas de andares.

Mas o chamado Recife Antigo permanecia quase intocado. Foi em seus puteiros, principalmente o incendiado Frank's Drinks (por algum mistério escrevia-se assim mas pronunciava-se Francis), e também no Atenas Drinks e outros, que aconteceram os primeiras festas e shows de Chico Science e da turma do mangue. Depois da fase mais decadente, houve uma revitalização do centro velho, em parte motivada pelo incremento no orgulho local que a fase do próprio manguebeat produziu – e foi nessa revitalização que os cabarés foram desaparecendo.

Esse é um fenômeno usual. De Nova York a Lisboa, as cenas que projetaram as bandas da new wave, num caso, e o Madredeus, no outro, foram gestadas em regiões decadentes, entregues ao tráfico e à prostituição, antes de influenciarem a cultura mundial. E não é estranho que esses tecidos urbanos e sociais se reconstituam e voltem a circular dinheiro, com base na “contaminação positiva” da cultura que acolheram. São Paulo enfrenta um pouco essa questão com a rua Augusta.

Em Recife o caso é cruel: quer se passar do casario e das instalações industriais e comerciais sobreviventes, sem escalas, a (como disse o despudorado internauta) Miami ou Hong Kong – ou Dubai (tenho certeza de que era desse nome que ele queria lembrar). Recife tem uma configuração especial. A ocupação original é Olinda, mais alta, que permitia a defesa militar. Foi a invasão holandesa que criou Mauritsstad (cidade de Maurício de Nassau), na área baixa, de recifes.

Na capital da Nova Holanda, Maurício impulsionou a tolerância religiosa, permitindo aos judeus a criação da primeira sinagoga das Américas já em 1642, as ciências (o primeiro observatório astronômico do novo mundo) e a engenharia (com as pontes, diques e canais para permitir a tomada do estuário dos rios Capibaribe, Beberibe e Pina), e as belas artes.

Mesmo que não possa se chamar a colonização holandesa de mais humana, arrisco dizer que foi nesse enfrentamento entre Olinda e Recife que se definiu muito do caráter inconformista da segunda. Sair de Recife e entrar em Olinda sempre se parece um pouco com sair de Pernambuco e entrar na Bahia (no sentido de um lugar mais brazuca-cordial; Recife, ao contrário, é marrenta).

O cais José Estelita é um dos limites desse núcleo urbano original. Foi um cais ferroviário, construído no início do século passado, e a RFFSA foi extinta em 1999. Em 2005, um projeto urbanístico para a região foi apresentado pela prefeitura, e jamais realizado.

Em 2008, com a venda do terreno em leilão e a protocolação de um projeto privado na prefeitura, às vésperas da aprovação de um plano diretor que o impediria, começaram as escaramuças entre as incorporadoras, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), o governo e as associações da sociedade civil. Essas acusam as inconveniências ecológicas, históricas, arquitetônicas e sociais do projeto.

Um texto de 2012 do grupo Direitos Urbanos explica o imbróglio até aquela ocasião. Um trecho esclarecedor: “É um empreendimento imobiliário, que promete sim dinamizar economicamente a área, aumentar o número de empregos, impostos, carros nas ruas do centro, esgoto no estuário, mas que absolutamente não toma o centro da cidade como referência; ao contrário, dá para ele as costas, conectando-se muito mais diretamente com o Shopping Rio-Mar, construído sobre o mangue na outra margem do rio, e com a zona de Boa Viagem, mais ao sul, já saturada pela especulação imobiliária. Este projeto sobrepõe uma dinâmica urbana externa, baseada num alto padrão de consumo, à dinâmica existente, ignorando suas especificidades, fragilidades e potencialidades”.

O Direitos Urbanos está à frente do OcupeEstelita, uma mobilização para impedir a continuidade das demolições (possivelmente ilegais) que começaram na semana passada; neste texto dá pra ver as atualizações. As bizarras e deslocadas torres gêmeas do Cais Santa Rita, ali perto, construídas em 2008, já são uma amostra dessa agressão de 40 andares. A mesma construtora Moura Dubeux, envolvida numa série de acusações, está à frente do projeto Novo Recife (com Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos e Queiroz Galvão). Os novos prédios seriam até 13 torres, com os mesmos 40 andares.

Resta saber se o Novo Recife, que começou na Holanda, vai acabar mesmo em Miami. Smells like mangue bitch.