Blog do Alpino

Eu me candidatei a vereador

Em palanques e nas ruas eu pedi voto e falei de idéias.No distante ano de 2004, concorri ao cargo de vereador na minha cidade, João Neiva, no Espírito Santo. Aquela foi a única experiência eleitoral da minha vida. Na época, com 34 anos, achei sinceramente que uma vez eleito, poderia fazer algo pelo meu município e tentar com todas as forças não virar um corrupto. Confesso que, mesmo relutante, minha mente era assaltada à noite com cenas hipotéticas de minha vitória nas eleições e suas nefastas consequências. Nas cenas, empreiteiros e empresários apareciam com maletas de dinheiro querendo comprar o meu apoio ou o meu silêncio sobre alguma maracutaia. Preocupado, cheguei a conversar com alguns colegas candidatos sobre esses pensamentos e descobri que eles são muito comuns e bem piores a cada eleição disputada.

No ano anterior, havia sido convidado por um grupo de políticos da região a me filiar ao Partido Popular Socialista. O PPS era a nova roupagem do antigo Partido Comunista. Ele agora tinha como linhas programáticas a "radicalidade democrática" e uma nova definição do socialismo. Em todas as reuniões do partido em que fui, nenhum dos afiliados pode responder a minha pergunta sobre o que seria afinal a radicalidade democrática. Por fim, achei melhor parar de perguntar.

Acredito que o convite para a minha filiação se devia ao fato de que eu era um dos dois funcionários do único jornal local, o singelo "A Voz do Montenegro". Presumo que o meu grupo político acreditou por um bom período que no ano da eleição poderíamos nos valer do periódico, o usando para falar bem dos nossos candidatos a prefeito e vereadores ao mesmo tempo atacar em manchetes os nossos adversários. A justiça eleitoral logo nos advertiria que isso não era possível, com o risco de sermos processados, vermos canceladas nossas candidaturas e também presos. O jornal 'A Voz do Montenegro' era um jornal pequeno, de circulação mensal, mas com uma diagramação muito bonita e funcional. Ele lembrava os tablóides ingleses. Não tínhamos uma família real para avacalhar em nossas páginas ou fotos sensacionalistas para publicar, mas preencher cada uma das suas 16 páginas com notícias relevantes do município, além dos falecimentos, nascimentos, aniversários, noivados, casamentos e bodas, nos dava um grande prazer.

Me candidatar foi uma das experiências mais ricas da minha vida. Não do ponto de vista financeiro, é claro. Não tive um caixa dois ou um esquema de arrecadação milionária. Só contabilizei gastos, pequenos, mas gastos. Naqueles poucos meses eleitorais percorri a casa de conhecidos e desconhecidos. Falei com os amigos e avisei a família. Aprendi com um político mais experiente a só sair de casa durante a eleição com notas de um real. Seguindo seu conselho, em um bolso passei a carregar um bolinho de notas de um, e no outro, apenas uma solitária nota de um. Descobri que as pessoas que não pretendem votar em você, te pedem dinheiro. Para esses casos, serve a solitária nota de um. Tire-a do bolso e diga, sem precisar mentir, que aquela é a única que trás ali. Como aquelas pessoas diziam logo de cara que não votariam em mim, eu dava o dinheiro de consciência limpa, sabendo que não praticava a compra de voto. Na verdade, aquela nota de um real era uma troca. Eu dava o dinheiro, e aquele cidadão que não votaria em mim por já ter um candidato do qual gostava mais, num pacto sem palavras, se comprometia a não ficar dizendo para todos que eu era pão-duro.

Em alguns momentos me vem à mente a lembrança feliz daqueles dias agitados. Segui à risca o meu propósito de fazer uma campanha baseada apenas em propostas, sem me valer do jogo sujo. Do alto de um caminhão em noites de comício ou nas associações de moradores que visitei, falei de minhas propostas e não prometi coisas impossíveis.  Respeitando os limites da lei, fiz o possível para angariar a simpatia e a adesão de conterrâneos à minha candidatura.

Segundo as expectativas minhas e de minha esposa Luzia, eu teria mais de 400 votos, o que me permitiria ser eleito e iniciar uma bem-sucedida carreira legislativa. Após tantos anos, os votos que obtive jamais sairão da minha memória, nem tanto pela quantidade, mas pelo seu simbolismo. Uma pista: é uma famosa posição sexual. Adivinhou quem disse 69. Um amigo fez questão de me ligar alguns minutos após o resultado ser anunciado no rádio. Ele disse: "Poxa, que pena que você não se elegeu. Sua votação foi uma sacanagem".

Divido hoje com você essa minha experiência eleitoral para que isso talvez o motive a algum dia fazer o mesmo. A política não é suja, mas tende a sujar aqueles que assim o permitem. Algum dia pretendo voltar ao jogo político. Presidente, talvez.

Carregando...

Sobre o cartunista Alpino

Autodidata, Alberto Alpino Filho começou sua carreira com a tira “Luzia” no jornal "A Gazeta" (ES), em 2001.Em 2009 traz seu trabalho para o Yahoo Brasil; e, um ano depois, inicia as charges diárias, retratando com humor as manchetes do país e do mundo. Em 2011 vence o 4º concurso de ilustração da "Folha de S.Paulo", na categoria ‘cartum’, e passa a ilustrar o jornal semanalmente. Em 2012, assume uma página de cinco cartuns na revista "Playboy".

Siga o Yahoo Notícias