Ultrapop
  • O mundo não fica melhor, nem pior, com as crônicas que escrevemos para jornais e portais de notícias. Apenas alguns pingos são postos em certos i’s, e seguimos em frente, apanhando ou descobrindo simpatias surpreendentes em lugares inimagináveis. A Internet enfim tornou-se um depósito de opiniões diversas, férteis, abundantes, jorrantes, muitas vezes virulentas, enfim indistintas, conforme o melhor da previsão pós-moderna.

    Nesse clima, há duas semanas, um conhecido editor sediado na praça do Rio de Janeiro (Sergio Cohn, da Azougue Editorial) foi vítima de uma perseguição tremenda, um “bullying digital” dos brabos. Em 2006, tal editor publicou no Brasil o famoso “Manual de boas maneiras para meninas”, do francês Pierre Louÿs. Escrito em 1917, o livro polêmico em sua época. Há cem anos, a sociedade francesa vivia uma libertinagem crescente e Louÿs, em sua escrita, dedicou-se à avacalhação da castidade aristocrática, mirando, de quebra, o conservadorismo da família patriarcal. Sua escrita

    Saiba mais »de Assédio digital
  • O Golpe Militar de 1º de abril de 1964 é, para alguns, uma Revolução começada em 31 de março. A coincidência simbólica entre o Golpe e o popular “Dia da Mentira” desagrada os seus admiradores.

    Por isso, os amantes do tal Golpe Militar comemoraram, no dia de ontem, sua Revolução amada: a “Redentora de 1964”. São muitos? São poucos? São mais do que se esperaria de um país bom de cuca. Por outro lado, como imaginar que fossem ainda menos se as estruturas de poder do país permanecem tão presas ao modelo exclusivista das impiedades sociais que caracterizam a história brasileira, modelo tão bem aprimorado pela Ditadura Civil-Militar começada naquele 1º de abril. Civil-militar, sim, é bom que se frise sempre. Pois contou com o apoio religioso de uma ampla classe média civil (embora incivilizada) e foi tocada por tecnocratas não-fardados. Contou com o aval solene do calculismo e de um proto-empresariado cujo projeto de vida era viver dependurado no capital e na capacidade de inovação do

    Saiba mais »de Pega na mentira…
  • Existem lanchonetes paulistanas onde comer um sanduíche está custando o preço de uma refeição completa em Amsterdam ou Paris, com vinho e sobremesa. Apesar da formação de economista – ou talvez por isso mesmo – há coisas que não entendo.

    O crescimento da economia brasileira propõe enigmas que as análises financeiras deveriam enfrentar. Será que o mercado de algumas regiões de São Paulo, por exemplo, está precificado em euros ou dólares? Hoje, caminhando por essas zonas, a quantidade de estrangeiros que encontramos é algo inimaginável há poucos anos. Nas calçadas, captamos conversas em inglês, francês, japonês e mandarim. Cidade global, "copal", preços galácticos?

    No aeroporto de Cumbica, um quiosque qualquer chega ao cúmulo imoral de propor trocas assim: R$  6,00 por uma lata de alumínio pintada, lacrada, semi-fresca, cheia de um chá industrializado qualquer, com gostinho de limão flavorizado. Taxistas ao redor cobram cerca de R$ 120,00  para levar o passageiro dali até o Centro da

    Saiba mais »de A Copa dos preços galácticos
  • Há exatos três anos, o governo japonês admitia algo errado com a usina nuclear de Fukushima, na sequência dos tremendos terremoto e tsunami que haviam chacoalhado a ilha, dois dias antes. Tratado com alarme pela imprensa internacional, o acidente tinha um quê de cataclisma, acendendo as imaginações apocalípticas mundo afora. Depois disso, perdeu o apelo de novidade e saiu de cena, suprimido ou abafado pela efemeridade marcante do mundo da notícia.

    Apesar desse sumiço, o acidente de Fukushima continua no foco de alguns e seus efeitos seguem sendo objeto de análise. Desde lá, há centenas de pesquisadores, mundo afora, trabalhando de forma silenciosa e paciente para medir e dirimir seus efeitos reais, estabelecer responsabilidades, desvendar mistérios e fixar novos padrões de conduta para a administração atômica.

    No início, o episódio em Fukushima foi tratado como um marco. Houve quem o considerasse o “11 de setembro” da energia nuclear. Nos anos de 1960, outro escândalo ambiental havia

    Saiba mais »de Fukushima, Hiroshima
  • Mordendo a maçã

    O Brasil não participa das dinâmicas tecnológicas mundiais. Não temos indústria relevante na matéria. Do ponto de vista da informática contemporânea somos um zero à esquerda. Carta fora do baralho.

    Os governos, no Brasil, quaisquer que sejam, pertençam ao partido que for, são dependentes da Microsoft para tudo. A comunicação administrativa, jurídica e política do país paga dividendos para Bill Gates e seus acionistas. As sentenças do Mensalão são escritas em Word, assim como o são os discursos do Presidente da República, dos Governadores de Estado e dos Prefeitos de Município. As planilhas do serviço público – fraudadas ou não – são feitas em Excel. No Brasil, tampouco produzimos micro-chips, nem sequer montamos computadores, nem sequer computadores ruins. Houve tentativas, num passado já distante, e não frutificaram. Também não produzimos telefones celulares. Importamos tais aparelhos, levemente adaptados às normas da nossa Anatel: são Nokia’s, Sony’s, Motorola’s, Blackberry’s, o que

    Saiba mais »de Mordendo a maçã
  • A droga do carro

    Em uma família brasileira de classe média, se um rapaz contrair uma dívida para comprar cocaína, será uma tragédia, obviamente. Se esse mesmo rapaz contrair uma dívida para comprar um carro, será considerado um heroi. O pai e a mãe lhe farão um almoço-homenagem dominical: “És um vencedor, filho meu, és um vitorioso”. O pai batera orgulhoso em seu peito. Chamará os vizinhos. “Venham ver o carrão que meu filho comprou” (a prazo).

    Hoje em dia, em quase todas as famílias brasileiras há alguém que se meteu com alguma droga. O que raramente existe é alguém que não tenha se metido com carros. Se você é um desses – que não se meteu – experimente convencer um seu parente de que o carro é um mal e faz mal. A reação será violenta. Se você insistir na conversa, prolongar o argumento, ele vai esmurrar a mesa, vai babar e espumar que "você é louco!". Ele vai garantir a você que o carro é um bem, que faz bem, ninguém deve viver sem. Alguns, um pouco mais temperados, haverão de reconhecer no carro

    Saiba mais »de A droga do carro
  • Sheherazade

    Na história da literatura universal, Sheherazade tem lugar garantido no panteão da doçura. Que personagem! A rainha das “Mil e uma noites” é a flor do bom senso e do afeto, defensora implacável da brandura, da calma e da temperança. Quem leu as “Mil e uma noites” conhece os seus gestos meigos, seus propósitos suaves, sabe também que ela toca os sentimentos masculinos mais vibrantes, como amante dedicada e sutil, desejosa de satisfazer. Na história da literatura, Sheherazade é a domadora dos impulsos violentos, quer romper a mania matadora de um rei sanguinário.

    No Brasil atual, entretanto, Sheherazade foi o nome escolhido por um casal modesto para com ele batizar uma menina que, depois de crescida, torna-se âncora de um jornal televisivo e, nessas condições, dedica-se ao elogio histriônico da violência, à lapidação do nojo, do abjeto, à verbalização de excrescências afloradas do rincão mais asqueroso do espírito humano. O Brasil não é mesmo “para principiantes”, conforme dizia o

    Saiba mais »de Sheherazade
  • Félix e Niko selam final feliz com beijo (Foto: Reprodução/ TV Globo)Ainda é tempo de comentar o desfecho de Amor à Vida, ou o assunto já está devidamente datador envelhecido?

    O capítulo final da novela global de Walcyr Carrasco confirmou o que falávamos no texto "Amor à morte". Começou com o massacre feminino, tragicamente habitual na trama.

    Logo de início, revelou-se que o doutor César era uma vítima azarada (senão inocente) das circunstâncias: a verdadeira destruidora das vidas de Aline, mãe e tia, era Pilar, a ex-esposa do machão e uma das únicas heroínas que ainda sobreviviam na grade da novela.

    Pilar, vejam só, era a real assassina da mãe da vilã. A personagem de Susana Vieira chorou, pediu para criar o filho de Aline com César e ao que parece foi imediatamente perdoada por todos - à maneira de propinodutos e mensalões tucanos, os crimes dos ricos e finos de Walcyr costumam ser resolvidos por prescrição.

    O massacre feminino no último capítulo culminou com uma surra coletiva de presidiárias, umas batendo nas outras como se não houvesse amanhã, e na

    Saiba mais »de Um beijinho não dói?
  • Toda a nossa geração de críticos, pensadores, intelectuais, artistas, criadores, homens e mulheres de cultura, professores e humanistas em geral admiramos Eduardo Coutinho com entusiasmo e aprendemos com ele a falar da vida. A comunidade artística, cultural e cinematográfica brasileira está mesmo de queixo caído. As circunstâncias de sua morte estarrecem e amplificam a tristeza pela perda.

    Nas últimas três décadas, Coutinho trabalhou e recebeu em seu escritório despojadíssimo, no Largo de São Francisco, no Rio de Janeiro. Naquele endereço já havia uma sugestão simbólica. Ali, o franciscano Coutinho estava em casa. A matéria bruta de seu cinema estava diariamente nas calçadas do Largo, no centro da capital fluminense, no pregão das vozes, nas barracas populares carregadas de badulaques chineses, nas misturas alucinantes de um país miscigenado, cujas fusões (imprevisíveis e constantes) causam curto-circuito no purismo de alguns.

    A cultura popular que interessava a Coutinho era sem

    Saiba mais »de Eduardo Coutinho e seu cinema
  • Perséfone transitu entre gorda rejeitada e virgem (Fotos: Divulgação/ TV Globo)Perséfone transitu entre gorda rejeitada e virgem (Fotos: Divulgação/ TV Globo)

    Vai chegando ao fim o Amor à Vida da Rede Globo (e por que mesmo a novela carregava esse nome?). O copo resta meio cheio, meio vazio.

    É inquestionável que a condição masculina deu vários passos adiante na trama de Walcyr Carrasco em horário nobre global. A condição masculina homossexual, em especial, foi tratada com respeito, empatia, sensibilidade e inteligência – e, quando a condição de alguns homens em particular (quaisquer homens) é aceita, tolerada e naturalizada, ganhamos todos os homens, todas as mulheres, todo mundo. Direitos ou são para todos, ou não são para ninguém. Copo cheio, copo vazio.

    Não se pode dizer o mesmo, infelizmente, a respeito do tratamento dado por Carrasco à condição feminina. Os requintes de crueldade, violência e barbarismo com que as mulheres foram insultadas pela Rede Globo via Amor à Vida beirou a exacerbação, passou adiante dela, ficou com cara do mais desbragado ódio. Copo cheio de misoginia.

    Nicole caiu de amor por um dos maiores vilões da novelaNicole caiu de amor por um dos maiores vilões da novela

    A misoginia atroz está bem longe de ser uma novidade na

    Saiba mais »de Amor à morte?

Paginação

(310 artigos)

Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

Siga o Yahoo Notícias