Ultrapop
  • Tik-tak, e os tempos vão mudando devagar

    Parece que um vilão de bangue-bangue norte-americano entrou no recinto. O rosto escondido pelo lenço vermelho explode no telão do Espaço das Américas: quem é esse sujeito musculoso que invadiu o show conjunto de Criolo e Emicida no sábado, 8 de setembro?

    O show, já na parte final, vem de um pot-pourri retumbante de (auto)homenagem à história do hip-hop nacional, com trechos de hits históricos de Pepeu ("fiquei sabendo, tem um tal de Pepeu/ que canta rap bem melhor do que eu"), Thaíde & DJ Hum ("que tempo bom/ que não volta nunca mais"), Doctor MC's ("tik-tak, o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando"), Xis ("os mano, pow!/ as mina, pá!") e Sabotage ("rap é compromisso, não é viagem, se pá fica esquisito")? Antes que a máscara caia, já dá para desconfiar quem está por trás do lenço de bandido de do velho oestre e do colete de homem brasileiro da lei.

    Foto: Ênio César

    Sim, é hora de o pot-pourri homenagear os Racionais MC's, e o homem maduro por trás do pano vermelho é um dos

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  • Mais um adeus ao grande Roberto Silva

    Ele era um dos maiores cantores brasileiros, e poucos percebiam que ainda estava vivo até a madrugada deste domingo, 9 de setembro de 2012, quando o carioca Roberto Silva morreu, aos 92 anos, com a mesma discrição que sempre lhe foi peculiar. Entre aqueles não muitos brasileiros que sabiam e sabem — bem — de sua existência estão João Gilberto, papa da bossa nova, e Paulinho da Viola, ás do samba ao qual Roberto também se filiava.

    A propósito, o "príncipe do samba" (como chegou a ser conhecido) estabelecia na própria voz um miraculoso elo perdido e ponto de confluência entre o samba antigo à moda de Orlando Silva, a bossa nova revolucionária de João e o samba moderno conforme reinventado por Paulinho.

    Méritos à parte, poucos de nós que aqui estamos sabíamos ou nos lembrávamos da existência de Roberto Silva. Nesse caso, nem era propriamente culpa do utilitarismo na indústria musical. Bem ou mal, a gravadora EMI, detentora de grande parte do catálogo do artista, andou relançando diversas

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  • Homenagem neofolk a Caetano

    TributeToCaetano_capaCaetano Veloso completa 70 anos e recebe homenagem multinacional da gravadora na qual construiu toda sua carreira discográfica, desde 1967, a Universal (ex-PolyGram, Phonogram, Companhia Brasileira de Discos): A Tribute to Caetano Veloso. Em 16 faixas, o CD se distribui entre artistas internacionais que têm declarado paixão por Caetano (Beck, Devendra Banhart, Jorge Drexler) e artistas brasileiros mais pendentes ao underground que ao mainstream (Marcelo Camelo, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Céu, Momo, Qinho). Parecem mundos distintos, mas há entre eles conexão maior que a simples existência do artista homenageado.

    O painel de releituras gringas configura um ambiente folk, flagrando a influência silenciosa que Caetano absorveu desde sempre de Bob Dylan. A banda The Magic Numbers abre o CD com "You Don't Know Me" (1972), em inglês nativo e em português de sotaque folk tipo Joan Baez (ex-namorada e primeira madrinha de Dylan) no trecho de citação a "A Hora do Adeus" (1967), de Luiz

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  • Agnaldo Timóteo, brucutu da canção popular

    O vereador-cantor Agnaldo Timóteo (PR), eterno polemista, causou espécie na semana que passou, na Câmara Municipal de São Paulo, ao defender a ditadura militar brasileira numa sessão da comissão da verdade que investiga os crimes dessa mesma ditadura. Agnaldo é figura assídua de controvérsias em política, música e fofoca, quase sempre estacionado na ponta conservadora-direitista-reacionária das discussões.

    Integrante da comissão instalada na Câmara de Vereadores, ele foi desligado após as intervenções anárquicas que fez à fala de Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional do Ministério Público Federal em São Paulo. Inquirindo a procuradora, perguntou se "o Exército deveria ser passivo, não deveria reagir" e fez observações como "é preciso acabar com essa frescura, eu nunca tive problema com os militares, não peitei eles, não dei tiro neles, não dei porrada neles, e eles não se meteram comigo" e "todos nós, brasileiros, deveríamos agradecer por ter tido regime militar, porque, se nós

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  • O estranho mundo de Pb: Anvil Fx lança seu terceiro disco.

    Sujeito de humor peculiar, autor de posts bizarros no Facebook, sempre rodeado de bons artistas e boas referências. E claro, mineiro de Juiz de Fora. Em seu novo disco, Anvil Machine, Paulo Beto (aka Pb), a pessoa física por detrás de sua identidade artística Anvil FX, intenta alcançar lugares ainda mais experimentais sem deixar de lado a pulsão das pistas de dança.

    Igualmente dançante e experimental, em seu terceiro, Pb dá início a novas explorações sonoras com beats e timbres mais espaciais e abandona as referências de música brasileira presentes em seus trabalhos anteriores. Sentimos uma forte influência de disco punk nova iorquina e disco music italiana dos anos 70, do krautrock alemão de bandas como Can, Neu e Kraftwerk, e claro, Drones e muitas camadas e texturas de sintetizadores.

    Tive a sorte de assistí-lo acompanhado do músico multi-instrumentista Pedro Zopelar na noite Cósmica realizada nas dependências da Trackers. Melhor ambientação impossível: um imenso apartamento arejado

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  • Preta Gil, no ataque e na defesa

    Sou Como Sou

    "Tem que ser branco, tem que ser alto/ tem que ser magro, tem que ter saldo no banco/ tem que ser sábio, tem que ser hétero/ tem que ter cabelo e tem que ter carro do ano/ tem que ser bilíngue, tem que ser beautiful/ tem que ser formado e tem que ter cartão de crédito/ tem que ser malhado, tem que ser católico/ tem que ser bem-dotado e nada de cabelo branco."

    Preta Gil cutuca um bocado de vespeiros nos primeiros versos de seu novo álbum, o pop-fútil-profundo-dançante Sou Como Sou. Os mandamentos acima constam da faixa-título composta por Alex Góes, mas que em grande medida dizem respeito à própria artista. Conhecendo apenas por cima a filha cantora do prócer tropicalista e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, podemos concluir sem perigo que ela não é branca, nem alta, nem magra, católica (é evangélica) ou hétero (costuma se afirmar bissexual).

    Quem saca o jeitão aparentemente desmiolado de Preta sabe no ato que os mandamentos de comportamento-padrão são listados para ser

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  • A antropofagia virou música no Pará

    "Não tenho coração pra aguentar isso, gente." É 1o de agosto, noite do aniversário de 34 anos de Gaby Amarantos. A plateia adiante dela canta o "parabéns a você", e não é uma plateia qualquer. Estamos no mitológico do Theatro da Paz, fundado em 1869 para representar a cultura erudita na cidade de Belém do Pará.

    O elenco do Terruá Pará no Theatro Municipal - Foto: Renato Chalú/divulgaçãoFoto: Renato Chalú/ Divulgação

    Gaby, rainha profana do tecnobrega, não está sozinha no palco nesta noite. Ela é apenas uma entre dezenas de artistas populares, eruditos, eruditos-populares, populares-eruditos que participam do show coletivo Terruá Pará. Idealizado pelo poder público estadual (para divulgar a música paraense Brasil afora) e dirigido com brilho pelo gaúcho Carlos Eduardo Miranda e pela pernambucana Cyz Zamorano, oTerruá frequentou o Auditório Ibirapuera de São Paulo em duas edições, em 2006 e 2011. Agora volta para casa e, de quebra, deságua em dois DVDs e dois CDs duplos ao vivo, tudo carimbado com o selo do governo (tucano) do Pará.

    O "canto das três raças" de que falava a mineira Clara

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  • Tatá Aeroplano

    Onipresente artista paulistano, dispensa grandes apresentações. Sempre envolvido com boa música, quer seja no palco ou na pista de dança, Tatá impressiona pelo seu sempre alinhado figurino e chapéu de feltro, um digno personagem kubrickiano. Decididamente urbano, diriam os frequentadores do baixo Augusta.

    Poucos conhecem, todavia, seu lado mais íntimo, mais verdadeiro, que só quem já pescou ao seu lado pode atestar: sua simplicidade.

    Ao longo destes 11 anos, foram raros os momentos em que o vi se abrindo em emoções. Sujeito acometido, sempre responde com um sorriso, um tapinha sequencial nas costas e um tímido 'e aí mister?'. Foram carnavais juntos em São Luís do Paraitinga e Olinda, passeios noturnos por Barcelona, muitos camarins de shows do Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico e adjacências, e até reveillon no Matutu sob efeito de cogumelos alucinógenos. Passaria dias enumerando as infinitas boas lembranças que este gentleman nos traz. É quase um ato de nepotismo.

    Acontece que em 'Tatá

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  • Skank, 21 anos depois

    O jovem cantor e compositor mineiro reinterpreta "Raça", do repertório de Milton Nascimento, em evidente homenagem ao expoente máximo da música popular de seu estado natal. A versão é pop, pop-reggae, veloz, feita bem à maneira do grupo jovem do jovem cantor e compositor. Apoiado por sua banda Skank, o jovem Samuel Rosa canta "Raça" (1976), de Milton e Fernando Brant. Estamos em 1991.

    De volta do túnel do tempo, 91 é o nome do novo (se é que se pode rotulá-lo assim) álbum do Skank, elaborado como uma auto-homenagem às mais de duas décadas de trajetória do quarteto formado por Samuel, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti. Na primeira metade do CD estão versões caseiras, de 1991, para sete das canções que comporiam o bem-sucedido álbum de estreia da banda, o ainda independente Skank, de 1992.

    A multinacional Sony adquiriria o passe do grupo quase imediatamente, e relançaria o disco remixado, em fevereiro de 1993. "In(dig)nação" e "Homem Q Sabia Demais" fariam sucesso de

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  • Ma che?

    O bom de assistir aos filmes de Woody Allen é que sempre imaginamos seu final. Sabemos a dinâmica de seus personagens, temos certeza que haverá casais se apaixonando (mesmo que por vias tortas) e, sobretudo, contamos com o estado de espírito que nos reserva seu epílogo. Feliz, mas com ironia.

    Seu novo filme acerta no equilíbrio entre comédia e libido, ao nos mostrar uma narrativa rica em beldades como a jovem Alessandra Mastronardi e a quentíssima Penélope Cruz, em meio aos hilários tropeços de Roberto Benigni e do próprio. São boas e numerosas risadas.

    Para Roma com Amor - Woody Allen_Trailer

    Interpretando pela enésima vez a si mesmo, Woody não poupa na acidez de suas tiradas e mostra que sabe fazer mais do mesmo com muito bom gosto. Não supera seu último filme 'Meia-noite em Paris', também comentado neste blog, muito menos seus clássicos 'Tudo que você sempre quis saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar', 'Annie Hall', 'Contos de Nova Iorque' e 'Desconstruindo Harry' (meu

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(292 artigos)

Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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