Ultrapop
  • Perséfone transitu entre gorda rejeitada e virgem (Fotos: Divulgação/ TV Globo)Perséfone transitu entre gorda rejeitada e virgem (Fotos: Divulgação/ TV Globo)

    Vai chegando ao fim o Amor à Vida da Rede Globo (e por que mesmo a novela carregava esse nome?). O copo resta meio cheio, meio vazio.

    É inquestionável que a condição masculina deu vários passos adiante na trama de Walcyr Carrasco em horário nobre global. A condição masculina homossexual, em especial, foi tratada com respeito, empatia, sensibilidade e inteligência – e, quando a condição de alguns homens em particular (quaisquer homens) é aceita, tolerada e naturalizada, ganhamos todos os homens, todas as mulheres, todo mundo. Direitos ou são para todos, ou não são para ninguém. Copo cheio, copo vazio.

    Não se pode dizer o mesmo, infelizmente, a respeito do tratamento dado por Carrasco à condição feminina. Os requintes de crueldade, violência e barbarismo com que as mulheres foram insultadas pela Rede Globo via Amor à Vida beirou a exacerbação, passou adiante dela, ficou com cara do mais desbragado ódio. Copo cheio de misoginia.

    Nicole caiu de amor por um dos maiores vilões da novelaNicole caiu de amor por um dos maiores vilões da novela

    A misoginia atroz está bem longe de ser uma novidade na

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  • O ano 2014 parece enfim ter começado, neste último sábado, com as doses de violência habituais que marcam a derrapagem dos conflitos sociais e urbanos brasileiros. A preferência nacional é pela porrada, conforme lembrou elegantemente o sociólogo Sergio Adorno, em belo artigo para o jornal paulistano Estadão. No último sábado, sendo assim, voltamos finalmente à rotina de pancadarias que têm carimbado o nosso cotidiano e que, tudo leva a crer, haverão de se extremar ainda mais, daqui até a Copa do Mundo, se nada for feito no sentido de acalmar os ânimos mútuos.

    É preciso reconhecer a legitimidade dos que clamam por transparência no gasto público e insistem na denúncia das nossas impiedades óbvias. Comemora-se com justiça a diminuição da desigualdade social no Brasil, mas segue o país sendo ainda escandalosamente injusto, sob qualquer aspecto que se analise: renda, educação, acesso aos serviços de saúde públicos ou privados, casa própria, saneamento básico e – não nos esqueçamos jamais –

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  • Uma das diversões do momento nas comunidades virtuais pré-Copa do Mundo é o já famoso vídeo do “Batman do Leblon”. Parece ficção, parece um reality show sem roteiro prévio, parece um documentário malucão no qual os cineastas estão em frente às câmeras e os atores somos nozes.

    Como disse numa das redes sociais o colega Mauro Dahmer, nesse fime de drama-comédia-ação-ficção científica-romance-etc. “todo mundo é cineasta, ator, vilão e herói ao mesmo tempo”. Parece o Big Brother Brasil (sem o Boninho), mas também parece um filme do cinema novo dos anos 1960 (sem o Glauber Rocha).

    O material é rico em informação e certamente cada um de noz(es) vai ver coisas diferentes, entender de acordo com seu próprio mundo e estabelecer conclusões que podem ir daqui até o infinito.

    Descorajoso de tentar tecer interpretações sobre o que não faz sentido nem nunca fará (será mesmo que não?), me atrevo a uns comentários dispersos, ao sabor dos oito deliciosos minutos em que a trama se desenrola.

    Entendi

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  • Financeiramente PobreNa capa do álbum Financeiramente Pobre (2003), o rapper Slim Rimografia aparece de pé dentro de um ônibus. A divertida faixa de abertura compila conversas e ruídos típicos que se ouvem dentro de um busão. Por fim, o artista em pessoa assume o discurso, proferido em entonação decorada, bem conhecida de todo mundo que viaja de transporte coletivo:

    “Boa tarde, senhores passageiros, desculpem atrapalhar a viagem de vocês. Eu sou mais um músico da cena do hip-hop undereground brasileiro e venho lhe trazer o meu primeiro trabalho solo, chamado Slim Rimografia, o Homem-Improviso em Financeiramente Pobre, um CD com 16 faixas, onde você encontra o mais puro hip-hop real, os cinco elementos. Eu não tenho gravadora, não tenho empresário e não tenho patrocinadores, mas eu prefiro estar aqui, vendendo o meu CD de mão em mão, do que estar em alguma grande gravadora, sendo explorado, fazendo músicas sem nenhum conteúdo e sem qualidade alguma. Um CD sai a R$ 10, eu faço três CDs por 25. Aceito passe de

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  • Foto: APEm meio à sua grave e longa crise, social e econômica, Detroit recebeu, neste domingo, a Feira Internacional do Automóvel (Naias). A crise se abate sobre Detroit há décadas e a cidade se tornou, nos últimos anos, um símbolo dos problemas industriais norte-americanos. Desindustrialização, desemprego e desurbanização são as palavras-chave de qualquer conversa a respeito.

    Foto: APO crescimento acelerado de Detroit, na primeira metade do século passado, esteve diretamente associado ao agigantamento da indústria automobilística e à emergência do estilo de vida automotivo. As promessas do carro invadiram o imaginário classe-média americano e espalharam-se pelo mundo. Cabelos ao vento e liberdade de ir e vir eram os pilares dessa filosofia de vida. Conforme as palavras de Henry Ford: "Construirei um automóvel (...) tão barato que não haverá homem assalariado incapaz de comprar um deles e aproveitar, com sua família, a benção de horas de prazer nos grande espaços criados por Deus". (Sim, a coisa se

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  • E o ano da Copa chegou. E não é que chegou mesmo? Parecia que não chegaria nunca, mas ei-lo aí à nossa frente ou, melhor, cá estamos “dentro” dele.

    Quando Lula e a delegação brasileira receberam a notícia da escolha do Brasil... Lá se vão sete anos... Na ocasião, Josef Blatter fez questão de enfatizar: "O comitê executivo [da FIFA] decidiu unanimemente dar a responsabilidade, não só o direito mas a responsabilidade de organizar a Copa do Mundo FIFA 2014 ao país... Brasil". Rever esse vídeo é sobretudo reparar no dedo em riste de Blatter quando diz a palavra "responsabilidade" (confiram o momento, aos 6'30''). Todos já sabiam que o cenário não era dos mais favoráveis. O Brasil entretanto era candidato único. Vale a pena relembrar.

    Sete anos, para alguns, compõem ciclos astrológicos, cabalísticos. Foram sete anos de polêmicas quase permanentes, desconfianças, críticas, desvios, explicações, justificativas, especulações... Mas também de entusiasmo e expectativa, é verdade.

    Será que

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  • "Reginaldo Rossi" (1966)No princípio era a jovem guarda - mais precisamente, uma modalidade pernambucana de jovem guarda. A primeira faixa do primeiro LP de Reginaldo Rossi, de 1966, se chamava “O Pão”. Roberto Carlos começava a se consolidar como “rei do iê-iê-iê”, e podemos supor que Reginaldo quisesse se contrapor à "realeza" do outro se afirmando um “pão” – um rapaz bonito, gostoso, desejável, segundo gírira há muito tempo em desuso.

    Não era bem isso. “Olha, você maltratou meu pobre coração/ fez uma bolinha e jogou no chão”, lamentava o dono do coração, jogado no solo, como o miolo de um pão que nem os pombos da praça deserta querem comer. “Mas um broto eu encontrei que diz que eu sou um pão”, o narrador tentava se recompor – mas aquela sensação de ser pão dormido, aquele mesmo que o diabo amassou, nunca largaria de todo a sina de Reginaldo Rossi do Recife.

    No mesmo LP de estreia havia outro personagem, “O Papa-Figo”, assombração que morava “lá na minha rua”, era “um homem parecido com um urubu”, “muito

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  • Não cabe em si neste final de ano, de tanto espírito natalino acalentado dentro do coração.

    Quando o ano começou a acabar, indignou-se com o crime passional da hora, com o sequestrador da ex-namorada, com a filha que matou os próprios pais, com os estupradores da Escola-Base. Clamou pelo linchamento dos culpados em praça pública.

    Deseja uma maior distribuição de renda e uma menor desigualdade social no Brasil – desde que isso não signifique uma invasão de favelados aos mais equipados shopping centers do país.

    Crê em Deus, e amaldiçoa todas as religiões que não sejam a sua.

    Cultua nove entre dez astros da MPB e dez entre dez mitos hollywoodianos. Quer distância de homossexuais. Acredita que liberdade sexual é promiscuidade.

    Sente repulsa pelos apedeutas, pelos ignorantes, pelos incultos. Leu poucos livros ao longo do ano.

    Luta pelos direitos homossexuais e aplaude os xingamentos de “vadia”, “vagabunda” e “piranha” que enchem de ibope a novela das nove. É militante antirracista, sabe o

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  • Tudo faz pensar em Nelson Mandela nestes dias em que muitos declaram amor eterno por ele, enquanto poucos, pouquíssimos, ousam assumir o ódio que já nutriram e/ou ainda nutrem pelo formidável líder antirracista sul-africano.

    Eu estava em Vitória no último final de semana, exatamente quando o fator Mandela foi acrescentado a um episódio grotesco acontecido em 30 de novembro num grande shopping center da capital capixaba. Naquele dia, a polícia local encerrou à força um baile funk na orla atrás do shopping. Alguns funkeiros tentaram SE PROTEGER da polícia dentro do tradicional reduto blindado das classes médias para cima. Acabaram humilhados pelas autoridades, que os despiram em público, e pelos frequentadores do shopping, que aplaudiram abertamente a brutal ação policial.

    Alguns funkeiros e outros militantes capixabas da igualdade racial decidiram ir à forra, e a forra aconteceu no sábado que passou, evidentemente com repercussão midiática bem menor que a do episódio racista. Fui ver de

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  • Desenterrando Jk

    Da primeira vez em que fui a Brasília, ouvi uma história que todos os brasilienses conhecem, a história do enterro de Jk, em 1976. O Brasil vivia então sob uma forte ditadura e sonhava com dias de mais liberdade. Naquele momento, Jk arriscava movimentos políticos mais ousados e, de repente, morreu em um estranho acidente de carro.

    A história do enterro de Jk, é a história de uma catarse. Os brasilienses a contam de boca cheia. Nas ruas da capital federal – construída pelo ex-presidente nos anos de 1950 – a multidão que seguia o cortejo se apossou do caixão e o foi passando, de mão em mão, até o cemitério da cidade. Os relatos de quem viu as cenas são sempre muito impressionantes e comovidos. Já ouvi essa história ser contada algumas vezes, por pessoas hoje acima dos seus 70 anos. Uma delas é o cineasta e documentarista Wladimir Carvalho, que afirma existirem registros perdidos do enterro, em filme. ("Os anos Jk", dirigido por Silvio Tendler, é o terceiro documentário de maior

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(311 artigos)

Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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