Ultrapop
  • 1984

    Vi na internet a melhor piada sobre o escândalo da bisbilhotice americana. Um garoto se aproxima de Barack Obama e diz: "Meu pai me falou que você está espionando a gente". Obama responde, com sorriso irônico: "Liga não, ele não é seu pai".

    Vi também na internet a mais inusitada notícia nesses tempos de espionagem planetária. Na cidade de Katha, em Mianmar, está em ruínas a casa onde viveu o escritor George Orwell, entre os seus 19 e 24 anos. Em Mianmar, Orwell serviu a Armada Imperial Indiana, isto é, foi polícia do império britânico no sudoeste asiático. A experiência em Mianmar marcou a conversão de Orwell à literatura, olhando o dia-a-dia do aparelho colonial. Mianmar é o assunto de sua primeira novela, "Burmese days". Motivo pelo qual, para seus admiradores, a casa de Katha tem grande importância afetiva. Naquele período, também, Orwell adotou o mesmo bigodinho que faria a fama de Chaplin e Hitler.

    Na mesma semana em que vi tudo isso, "Jobs" estreou nos cinemas. E a nossa

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  • Obra prima

    Tratado pelos amigos intelectuais como um administrador ligeiramente culto. Tratado pelos amigos administradores como um intelectual cansativo e aéreo. Aos domingos, queixava-se para a família em tom grandioso:

    – "Não acredito na excessiva divisão social do trabalho", dizia cortando o pernil para os outros. Consertou a faca elétrica da mãe, o depilador da irmã e o secador da cunhada.

    Punha-se à frente de todas as situações práticas, por impulso. Atravessava madrugadas especulando sobre o Big Bang, Edwin Hubble e a formação das Super Novas. Numa ocasião memorável, trocou o pneu do carro falando ao telefone com um Ministro de Estado. Firmou um protocolo de cooperação com as mãos sujas de graxa, preocupado com o corpo reluzente da caneta Aurora.

    – "É o que dá não aceitar", dizia-lhe o pai ante os mujos. "Nasceste em um tempo onde há os que pensam, de um lado, e do outro os que fazem. Estás violando a ordem. Tens que escolher".

    Um dia, cairam-lhe às mãos umas páginas de sociologia: Sérgio

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  • Num mundo crispado de balas, a calma de certas manhãs ensolaradas encobre muitas vezes a profundidade dos conflitos que nos regem. Por isso é que ao homem comum – como nós – não é dado conhecer a fundo os enredos ocultos que governam nossas próprias vidas. As tramas da política não se dão a céu aberto. Na superfície verde dos jardins, o clima é manso, no mais das vezes.

    A exposição do artista Roy Lichtenstein continua em cartaz em Paris, a poucos metros da sala onde Hollande despacha e delibera sobre bombardear a Síria. Lichtenstein captou o appeal do intervencionismo militar norte-americano quando a Guerra do Vietnam ainda estava indefinida. A quantidade de material produzido pela arte americana sobre o militarismo estrutural de seu Estado é impossível de ser compilada em uma vida. Mas isso não importa. Não agora.

    O que importa é que Barack Obama – herói das esquerdas juvenis, inclusive a francesa – disse isto no último sábado: "Após cuidadosa deliberação, decidi que os EUA devem agir

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  • A cruzada antissocial de um punhado barulhento de médicos brasileiros ultrapassou todo e qualquer limite de civilidade e humanidade, eu também acho.

    Sou da turma que não cansa de se chocar com a imagem já histórica registrada pela Folha de São Paulo em Fortaleza: duas mulheres de jalecos brancos e de epidermes não-negras levam as mãos em concha às próprias bocas para vaiar com ferocidade um médico cubano de olhar triste e pele escura. Não consigo compreender quem não enxergue o racismo simbólico explícito tirado do armário pela fotografia. É a velha e carcomida fórmula perversa da casa grande & senzala, quando o antigo chicote escravagista foi substituído pela língua "moderna" que vaia, grita, berra, urra, ruge: "Escravo!".

    Outra personagem emergente desse infeliz episódio vai à explicitude cadavérica via rede social, pasmada com o fato (ou melhor, hipótese) de que profissionais recém-chegadas de Cuba têm cara mais de "empregadas domésticas" (negras?) que de médicas. Cáspita!, diriam

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  • Enquanto a plebe rude na cidade dormia, Eduardo Paes se entregou à picardia. É coisa para Stanislaw Ponte Preta curtir lá do Céu. O prefeito quer pagar Woody Allen para promover o Rio. É Febeapá do brabo. Mas homens como Paes garantem o salário mensal do cronista.

    Manhattan
    Woody Allen
    (1935 –), cineasta norte-americano consagrado, nasceu no Bronx e cresceu no Brooklin. Como realizador, Allen se interessa pela vida nas cidades desde o início de sua carreira. Com o clássico "Manhattan", ganhou projeção mundial. O filme é uma ode ao mais famoso dos distritos de Nova Iorque e satiriza o microcosmos neurótico da intelectualidade nova-iorquina.

    "Manhattan" jamais envelheceu como filme. A sequência de abertura é uma pequena obra-prima do cinema moderno, dispondo as paixões e os ódios de um cidadão pela sua cidade. O trecho mistura três camadas convergentes de sentimento: imagens fotográficas de impecável qualidade, a música de George Gershwin eternamente associada à "Big Apple" e a locução

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  • EmicidaQuando me tornei um apaixonado completo pela obra musical da japonesa Yoko Ono, há poucos anos, uma música em especial me impressionou profundamente: "I Want My Love to Rest Tonight", que a ex-esposa do ex-Beatle John Lennon canta no álbum Approximately Infinite Universe, de 1973. Essa canção volta com tudo à minha lembrança agora, enquanto galopamos no "escândalo" da hora, sobre "Trepadeira", um rap com algum teor misógino que integra o excelente álbum independente O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, do paulistano Emicida.

    O rap-samba-rock "Trepadeira" me soou, à primeira e segunda ouvidas, um poema brilhante que usa um jardim de flores, xaxins, plantas, árvores, arbustos, legumes e outros "bichos" para falar de uma moça que, bem, gosta muito de sexo.

    As citações verdes e coloridas, à là Itamar Assumpção, espalham ramas pelo chão: margarida, rosa, grampola, camélia, bromélia, ipê, orquídea, samambaia, capim, girassol, violeta, flor de laranjeira, tulipa, chuchu, cravo,

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  • Amizade canina

    Blogueiro dá um tempo da política e comenta relação homem-cachorro (Foto: Arquivo pessoal)Há quem zombe da afeição pelos bichos. Mas o fato é que animais como os cachorros colocam na gente o senso da nossa própria humanidade, quando forma-se entre eles e nós um elo comunicativo que desafia certas proposições da linguística e da filosofia.

    Ter um cachorro é como ter uma paixão. Lá estamos nós, nos achando os melhores do mundo, os reis da cocada preta, no alto da nossa prepotência juvenil e adolescente, quando então aparece a garota. A garota faz gato-e-sapato da gente e, graças a ela, começamos a pensar que "Ops, as coisas não são exatamente como achei que fossem, nem sempre a razão é minha". Fazemos um esforço enorme para ganhar a garota, e ganhamos. Queremos aprender mais. O amor é um aprendizado de nós mesmos. Todos os dias contam.

    Com os nossos cachorros, acontece a mesma coisa. No colégio, as aulas de biologia são diretas, "O homem é o único animal racional blá blá blá". "Vá lá", você pensa, "aceito". Mas a aula vai mais longe, "O homem é o único ser vivo detentor de

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  • No universo pulverizado das manifestações em São Paulo, o dia de ontem foi majoritariamente vermelho - o que se constitui como façanha, num ambiente governado a mãos de ferro pela cor azul.

    Pela primeira vez, o nome de Geraldo Alckmin, do PSDB, foi alçado à condição de protagonista (negativo) em um protesto na maior capital do Brasil, governada por ele.
    O constrangimento a que os cariocas vêm submetendo por semanas a fio o governador Sérgio Cabral, do PMDB, foi testado pelos paulistas, numa manifestação que zanzou pelas ruas do centro velho da cidade desde as 15h até depois do anoitecer. O chamado propinoduto tucano em licitações de metrôs e trens (de até R$ 577 milhões, segundo o vetusto jornalão Estado de São Paulo) foi o mote que levou Alckmin a experimentar o para ele inédito aroma da fritura em público.

    A liderança era do Movimento Passe Livre (MPL) e de sindicatos de metroviários. A preocupação com a realização de um ato pacífico era patente, de todos os lados. Policiais guardavam

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  • O império da Lei

    Caetano Veloso escreveu para "O Globo" uma pequena obra-prima. O texto se chama "Pai" e versa sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo, à luz das propensões brasileiras a bater e a aceitar a violência corporal como ato normal.

    Setores da esquerda brasileira destratam Caetano Veloso, há tempos, em face de suas posições político-partidárias "estranhas", isto é, pouco ortodoxas. Mas Caetano representa o que temos de melhor, em todos os níveis de nossa cultura artística, e a idade parece que só lhe faz bem. É típico dos grandes artistas melhorar ainda mais com o passar do tempo. Seguindo a saudável tendência, Caetano conjuga, hoje em dia, a radicalidade cortante que sempre o marcou e a soltura de quem desistiu de convencer os outros.

    Existem também aqueles para quem o sucesso do Gil Ministro provou a superioridade política deste último, como se o não-engajamento institucional de Caetano tirasse o brilho agudo de suas leituras sobre a sociedade brasileira. Esse tipo de esquematismo é

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  • A chamada civilização industrial – resultado de certos progressos humanos – trouxe para as nossas vidas uma série de belezas e confortos oportunos. Mas nos trouxe também a política de massas, a solidão metropolitana, a destruição de culturas antigas, a guerra como negócio e a comida enlatada.

    Por isso, nos EUA dos anos 1950-60 surgiram artistas radicais e irônicos que puseram em debate essas ambiguidades plásticas e coloridas do nosso presente. Eram os artistas pop, como foram chamados, então, por fazerem a crítica da pop culture. Pop culture, em resumo, era essa chapação massificada do cotidiano, com a trivialização de atividades anteriormente sagradas. Também era um conjunto de linguagens e estilos mais modernos, sem lugar na tradição mais clássica da criação artística.

    Whaam! (1963), de Roy Lichtenstein

    Um desses grandes artistas – Roy Lichtenstein – é agora objeto de uma grande exposição no centro da cidade de Paris. No início de sua carreira, Lichtenstein foi destratado por um crítico conservador, que deu-lhe o

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Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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