Ultrapop
  • Num mundo crispado de balas, a calma de certas manhãs ensolaradas encobre muitas vezes a profundidade dos conflitos que nos regem. Por isso é que ao homem comum – como nós – não é dado conhecer a fundo os enredos ocultos que governam nossas próprias vidas. As tramas da política não se dão a céu aberto. Na superfície verde dos jardins, o clima é manso, no mais das vezes.

    A exposição do artista Roy Lichtenstein continua em cartaz em Paris, a poucos metros da sala onde Hollande despacha e delibera sobre bombardear a Síria. Lichtenstein captou o appeal do intervencionismo militar norte-americano quando a Guerra do Vietnam ainda estava indefinida. A quantidade de material produzido pela arte americana sobre o militarismo estrutural de seu Estado é impossível de ser compilada em uma vida. Mas isso não importa. Não agora.

    O que importa é que Barack Obama – herói das esquerdas juvenis, inclusive a francesa – disse isto no último sábado: "Após cuidadosa deliberação, decidi que os EUA devem agir

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  • A cruzada antissocial de um punhado barulhento de médicos brasileiros ultrapassou todo e qualquer limite de civilidade e humanidade, eu também acho.

    Sou da turma que não cansa de se chocar com a imagem já histórica registrada pela Folha de São Paulo em Fortaleza: duas mulheres de jalecos brancos e de epidermes não-negras levam as mãos em concha às próprias bocas para vaiar com ferocidade um médico cubano de olhar triste e pele escura. Não consigo compreender quem não enxergue o racismo simbólico explícito tirado do armário pela fotografia. É a velha e carcomida fórmula perversa da casa grande & senzala, quando o antigo chicote escravagista foi substituído pela língua "moderna" que vaia, grita, berra, urra, ruge: "Escravo!".

    Outra personagem emergente desse infeliz episódio vai à explicitude cadavérica via rede social, pasmada com o fato (ou melhor, hipótese) de que profissionais recém-chegadas de Cuba têm cara mais de "empregadas domésticas" (negras?) que de médicas. Cáspita!, diriam

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  • Enquanto a plebe rude na cidade dormia, Eduardo Paes se entregou à picardia. É coisa para Stanislaw Ponte Preta curtir lá do Céu. O prefeito quer pagar Woody Allen para promover o Rio. É Febeapá do brabo. Mas homens como Paes garantem o salário mensal do cronista.

    Manhattan
    Woody Allen
    (1935 –), cineasta norte-americano consagrado, nasceu no Bronx e cresceu no Brooklin. Como realizador, Allen se interessa pela vida nas cidades desde o início de sua carreira. Com o clássico "Manhattan", ganhou projeção mundial. O filme é uma ode ao mais famoso dos distritos de Nova Iorque e satiriza o microcosmos neurótico da intelectualidade nova-iorquina.

    "Manhattan" jamais envelheceu como filme. A sequência de abertura é uma pequena obra-prima do cinema moderno, dispondo as paixões e os ódios de um cidadão pela sua cidade. O trecho mistura três camadas convergentes de sentimento: imagens fotográficas de impecável qualidade, a música de George Gershwin eternamente associada à "Big Apple" e a locução

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  • EmicidaQuando me tornei um apaixonado completo pela obra musical da japonesa Yoko Ono, há poucos anos, uma música em especial me impressionou profundamente: "I Want My Love to Rest Tonight", que a ex-esposa do ex-Beatle John Lennon canta no álbum Approximately Infinite Universe, de 1973. Essa canção volta com tudo à minha lembrança agora, enquanto galopamos no "escândalo" da hora, sobre "Trepadeira", um rap com algum teor misógino que integra o excelente álbum independente O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, do paulistano Emicida.

    O rap-samba-rock "Trepadeira" me soou, à primeira e segunda ouvidas, um poema brilhante que usa um jardim de flores, xaxins, plantas, árvores, arbustos, legumes e outros "bichos" para falar de uma moça que, bem, gosta muito de sexo.

    As citações verdes e coloridas, à là Itamar Assumpção, espalham ramas pelo chão: margarida, rosa, grampola, camélia, bromélia, ipê, orquídea, samambaia, capim, girassol, violeta, flor de laranjeira, tulipa, chuchu, cravo,

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  • Amizade canina

    Blogueiro dá um tempo da política e comenta relação homem-cachorro (Foto: Arquivo pessoal)Há quem zombe da afeição pelos bichos. Mas o fato é que animais como os cachorros colocam na gente o senso da nossa própria humanidade, quando forma-se entre eles e nós um elo comunicativo que desafia certas proposições da linguística e da filosofia.

    Ter um cachorro é como ter uma paixão. Lá estamos nós, nos achando os melhores do mundo, os reis da cocada preta, no alto da nossa prepotência juvenil e adolescente, quando então aparece a garota. A garota faz gato-e-sapato da gente e, graças a ela, começamos a pensar que "Ops, as coisas não são exatamente como achei que fossem, nem sempre a razão é minha". Fazemos um esforço enorme para ganhar a garota, e ganhamos. Queremos aprender mais. O amor é um aprendizado de nós mesmos. Todos os dias contam.

    Com os nossos cachorros, acontece a mesma coisa. No colégio, as aulas de biologia são diretas, "O homem é o único animal racional blá blá blá". "Vá lá", você pensa, "aceito". Mas a aula vai mais longe, "O homem é o único ser vivo detentor de

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  • No universo pulverizado das manifestações em São Paulo, o dia de ontem foi majoritariamente vermelho - o que se constitui como façanha, num ambiente governado a mãos de ferro pela cor azul.

    Pela primeira vez, o nome de Geraldo Alckmin, do PSDB, foi alçado à condição de protagonista (negativo) em um protesto na maior capital do Brasil, governada por ele.
    O constrangimento a que os cariocas vêm submetendo por semanas a fio o governador Sérgio Cabral, do PMDB, foi testado pelos paulistas, numa manifestação que zanzou pelas ruas do centro velho da cidade desde as 15h até depois do anoitecer. O chamado propinoduto tucano em licitações de metrôs e trens (de até R$ 577 milhões, segundo o vetusto jornalão Estado de São Paulo) foi o mote que levou Alckmin a experimentar o para ele inédito aroma da fritura em público.

    A liderança era do Movimento Passe Livre (MPL) e de sindicatos de metroviários. A preocupação com a realização de um ato pacífico era patente, de todos os lados. Policiais guardavam

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  • O império da Lei

    Caetano Veloso escreveu para "O Globo" uma pequena obra-prima. O texto se chama "Pai" e versa sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo, à luz das propensões brasileiras a bater e a aceitar a violência corporal como ato normal.

    Setores da esquerda brasileira destratam Caetano Veloso, há tempos, em face de suas posições político-partidárias "estranhas", isto é, pouco ortodoxas. Mas Caetano representa o que temos de melhor, em todos os níveis de nossa cultura artística, e a idade parece que só lhe faz bem. É típico dos grandes artistas melhorar ainda mais com o passar do tempo. Seguindo a saudável tendência, Caetano conjuga, hoje em dia, a radicalidade cortante que sempre o marcou e a soltura de quem desistiu de convencer os outros.

    Existem também aqueles para quem o sucesso do Gil Ministro provou a superioridade política deste último, como se o não-engajamento institucional de Caetano tirasse o brilho agudo de suas leituras sobre a sociedade brasileira. Esse tipo de esquematismo é

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  • A chamada civilização industrial – resultado de certos progressos humanos – trouxe para as nossas vidas uma série de belezas e confortos oportunos. Mas nos trouxe também a política de massas, a solidão metropolitana, a destruição de culturas antigas, a guerra como negócio e a comida enlatada.

    Por isso, nos EUA dos anos 1950-60 surgiram artistas radicais e irônicos que puseram em debate essas ambiguidades plásticas e coloridas do nosso presente. Eram os artistas pop, como foram chamados, então, por fazerem a crítica da pop culture. Pop culture, em resumo, era essa chapação massificada do cotidiano, com a trivialização de atividades anteriormente sagradas. Também era um conjunto de linguagens e estilos mais modernos, sem lugar na tradição mais clássica da criação artística.

    Whaam! (1963), de Roy Lichtenstein

    Um desses grandes artistas – Roy Lichtenstein – é agora objeto de uma grande exposição no centro da cidade de Paris. No início de sua carreira, Lichtenstein foi destratado por um crítico conservador, que deu-lhe o

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  • A cobra grande está viva, corcoveante, imprevisível. Convocado pelas diversas centrais sindicais de trabalhadores do Brasil, o Dia Nacional de Luta se esparrama pelo país neste 11 de julho e acrescenta pimenta (mas não gás-pimenta) à complexa composição social e ideológica das manifestações de 2013 na cidade de São Paulo.

    Voltei à rua hoje, depois de várias semanas sem-passeata, e, pelo menos durante as quase quatro horas em que permaneci no asfalto, o pique era da mais completa tranquilidade. Ao longo de todo o percurso (da avenida Paulista à praça Roosevelt), vi apenas cinco viaturas da Polícia Militar, o que parece quase nada diante dos batalhões fardados que prenderam e arrebentaram em manifestações anteriores. Sem polícia, sem vilolência, sem bagunça, sem aquela palavrinha infame começada por “v” que me recuso a declinar aqui.

    Os trabalhadores, em atitude oposta à das palavras de ordem “sem partido” das passeatas de junho, vieram munidos com suas bandeiras dos pés às cabeças. A

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  • Há dias não escrevo mais sobre passeatas aqui no Ultrapop, simplesmente porque não compareci mais a nenhuma passeata desde que o Movimento Passe Livre (MPL) resolveu interrompê-las aqui em São Paulo.

    Não é que elas tenham parado (eu é que parei). Ao contrário, há uma epidemia de passeatas, para todos os gostos, no cardápio brasileiro deste inverno de 2013.

    Em Brasília, por exemplo, acaba de acontecer uma emocionante passeata entre quatro paredes (leia aqui), de foro mais íntimo, na qual a nata da MPB (favor não confundir com MPL) desfilou exclusivamente para os senadores da república. (Uai, mas existem quatro paredes no redondíssimo Senado Federal?) Quem parece ter se dado mal nesse inesperado despertar do gigante emepebista foi o Ecad, escritório que monopoliza a arrecadação e a distribuição de direitos autorais no Brasil - mas é cedo para saber, teremos de acompanhar os próximos movimentos e desdobramentos.

    Outro exemplo: na quarta-feira, 3 de julho, eu andava desprevenido pela

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Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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