Eu, Gusttavo Lima & você

Pedro Alexandre Sanches
Ultrapop

Eu nasci em Maringá, no norte do Paraná, de onde escrevo este texto - minha mãe morreu há 11 meses, e vim passar a semana pré-dia das mães aqui, para ver como estão as coisas com os mais ou menos 16 parentes próximos que me restaram, entre humanos e caninos.

Maringá é uma cidade arborizada de 357 mil habitantes, segundo o Censo de 2010.  Mudou muito desde que saí daqui para São Paulo, há 20 anos. Hoje me parece uma cidade moderna, antenada com o presente, preocupada com o bem-estar social de seus habitantes - apesar de ser governada por um partido conservador, de direita, o PP, cuja figura mais célebre e infame é Paulo Maluf, político paulista internacionalmente procurado pela Interpol. (PP é o Partido Progressista - aqui no Brasil, por razões incompreensíveis, partidos reacionários se batizam "progressistas" e partidos antidemocráticos se chamam "democratas"; para um ex-habitante que vem de São Paulo, o Partido Progressista de Maringá até parece... progressista - vai saber.)

Os jovens de Maringá gostam de cultivar cortes de cabelo moicano, de várias tinturas, que me fazem pensar nos índios que viviam aqui antes de uma companhia colonizadora inglesa devastar a floresta depois transformada em Maringá, Londrina, sítios, fazendas etc.

É mais ou menos evidente que os moicanos de Maringá se inspiram diretamente em Neymar, o mesmo que se veste de japonês (índio asiático?) no clipe do Emicida e que colaborou para que o som das sanfonas de Michel Teló ficasse conhecido em partes díspares do planeta Terra. Michel é paranaense de Medianeira. Quando saí daqui, há 23 anos, o Paraná não exportava talentos (havia a Sonia Braga, mas ela própria parecia gostar de parecer mais baiana que paranaense de Maringá).

Vai haver uma parada gay aqui em Maringá no dia 20, mas eu vou perder, porquer já estou indo embora.

Os sons que tocam nas ruas de Maringá são tão modernos como Maringá - modernos entre o country rock, o sertanejo, o eletrónico, o pop, a velha e carcomida MPB. Os alto-falantes das lojas tocam Michel Teló no talo: "Vou te esperar/ na minha humilde residência/ pra gente fazer amor/ mas eu te peço só um pouquinho de paciência/ a cama tá quebrada e não tem cobertor".

A casa dos meus pais é bonita, mas está desgastada, maltratada pelo tempo e pela falta de zelo. Tem cobertor, mas tem cama quebrada também. É tudo meio diferente da residência do Teló (até a dele deve ser, a esta altura do campeonato mundial). Mas toda vez que ouço a "Humilde Residência" do Teló eu penso na dos meus pais e irmã.

Outra que toca aqui nos alto-falantes, ainda mais manjada: "Vou, não/ quero, não/ posso, não/ minha mulher não deixa, não". Adoro essa música, que vem do Nordeste do Brasil, acho que do DJ Sandro, pernambucano de Paulista (salvo engano).

Quem também estava aqui em Maringá esta semana era Gusttavo Lima, outro ídolo da nova música tecnossertaneja, ou sejá lá o nome que o valha. Não morro de amores pelas músicas mais românticas dele, mas o "Tchê Tchererê" ("já tá tudo preparado, vem que o brega é bom") eu acho demais.

Maringá ficou em polvorosa: multidões de fanzocas querendo ver e beijar e arrancar pedaço do cara na porta do hotel Deville. Gusttavo não é paranaense como Michel ou sul-matogrossense como Luan Santana (que faria show em Maringá no sábado), mas é mineiro cara-de-índio de Presidente Olegário - outro representante da nova música interiorana (mas urbana) do Brasil.

Aí, então, eu estava numa farmácia do centro da cidade com minha irmã, e ouvi se aproximando, mais uma vez, um som de sanfona. Olhei para fora, era um senhor de idade que vinha tocando seu instrumento, como bico ou profissão. Corri atrás dele e pedi para tirar uma foto. Enquanto eu fotografava e dizia que adorava sanfona, ele tocou acordes de "Asa Branca", obra-prima mítica da discografia do hoje quase-centenário Luiz Gonzaga (1912-1989), pernambucano de Exu. Foi isso que me deu a ideia e a vontade de escrever este texto.

Eu já disse por aqui, e repito: não tenho a menor dúvida de que, no fio do tempo, nem que seja só dentro da minha cabeça, a sanfona de Teló é a sanfona de Gonzagão. O velho, que cantava "Numa Sala de Reboco" em 1964, cantaria a "Humilde Residência" do novo em 2012, fácil, fácil.

Você pode gostar ou desgostar das músicas de DJ Sandro, Gusttavo Lima, Michel Teló e Luiz Gonzaga, não faz a menor diferença. Eu gosto de várias e desgosto de outras várias, não faz a menor diferença. Mas se você xingar o Sandro, o Gustavo, o Michel ou o Luiz, está me xingando. Se me xingar, eu viro bicho, e lhe digo: você é mesquinho(a), não mostra um pingo de generosidade ao xingar as origens do Sandro, do Gustavo, do Michel, do Luiz e do Pedro. Nós existimos, temos passado (e presente, e futuro), somos índios brasileiros, temos orgulho do que somos. E você vai ter que se aturar.

De minha parte, estando de volta ao ninho concluo que a música que Gonzagão fazia nos anos 1940 e 1950 e esses meninos fazem hoje é a cara da minha Maringá e da gente daqui. É  moderna. Cosmopolita. De vez em quando frequenta a roça, o rio e o mar. Usa roupas e cabelos da moda. Cursa uma faculdade (seja da classe social que for). Tem um celular de cada operadora. Usa redes sociais na internet. Gosta de baladas, de dançar, cantar e, às vezes, gravar música.

Essa música é feita de meninos com cabelo moicano feito o Neymar e de vovôs com Alzheimer feito meu velho pai (por que não fazem música para vovôs capengas de Alzheimer feito meu pai?).  Aí foi que eu reparei: não é só que o índio Neymar e o índio Gonzagão são a cara de Maringá - Maringá, assim como a sua cidade de origem, é a cara da nova música tecnoindígena do Brasil. É a cara do Neymar, do Luiz, do Gusttavo, da Gaby, do Gabriel, da Joelma, da Tulipa, da Tiê, da Nina. É a minha cara e a sua cara.

Aqui do meu ninho posso dizer: eu gosto da nossa cara. E você?