François Truffaut e a Palma de “O Pagador”

Até o "Jornal Nacional" registrou ontem o cinquentenário da Palma de Ouro de melhor filme concedida a "O Pagador de Promessas", produzido por Oswaldo Massaini e dirigido por Anselmo Duarte, com base na peça de Dias Gomes. A cerimônia de encerramento e premiação do Festival de Cannes de 1962 foi realizada em 23 de maio.

Outros prêmios foram recebidos por brasileiros em Cannes, antes e depois, como o de melhor filme de aventuras para "O Cangaceiro" (em 1953), de melhor direção para Glauber Rocha (em 1969, por "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro") e de melhor atriz para Fernanda Torres (em 1986, por "Eu Sei que Vou te Amar").

Nenhum desses prêmios se compara à Palma de Ouro de melhor filme, claro, e por isso a equipe de "O Pagador" foi recebida em desfile de rua quando voltou ao país, como as seleções de futebol que conquistaram as cinco Copas do Mundo.

A mostra competitiva de Cannes em 1962 exibiu 34 longas (no festival deste ano, em andamento, são apenas 22). Basta conferir os demais premiados para ter ideia da concorrência de peso enfrentada por "O Pagador".

O prêmio especial do júri, uma espécie de vice-campeonato em festivais, foi dividido por "O Processo de Joana D'Arc", do francês Robert Bresson, e "O Eclipse", do italiano Michelangelo Antonioni -- dois dos principais cineastas europeus do século 20.

Outro monstro do cinema, o espanhol Luís Buñuel, recebeu o prêmio da crítica por "O Anjo Exterminador". O grego Michael Cacoyannis ficou com o prêmio de melhor adaptação -- e dividiu ainda, com outros dois longas, o prêmio da Comissão Superior Técnica -- por "Electra".

O prêmio de melhor comédia foi para "Divórcio à Italiana", do italiano Pietro Germi. "Longa Jornada Noite Adentro", do norte-americano Sidney Lumet, recém-lançado em DVD no Brasil, recebeu um prêmio de interpretação para os quatro atores principais (Katharine Hepburn, Ralph Richardson, Jason Robards e Dean Stockwell).

Outro prêmio de interpretação foi concedido aos dois atores principais de "Um Gosto de Mel", do inglês Tony Richardson (Rita Tushingham e Murray Melvin).

De mãos abanando, saíram diretores de primeira linha como o norte-americano John Frankenheimer ("Juventude Selvagem"), o austríaco -- radicado nos EUA -- Otto Preminger ("Tempestade em Washington"), a francesa Agnès Varda ("Cléo das 5 às 7"), o indiano Satyajit Ray ("A Deusa") e o inglês Jack Clayton ("Os Inocentes").

Em 1962, o júri que definiu os prêmios de longas teve 11 integrantes (em 2012, são apenas nove). O presidente foi o escritor japonês Tetsuro Furukaki. Entre seus colegas, estavam alguns diretores: o francês François Truffaut, o polonês Jerzy Kawalerowicz e o italiano Mario Soldati.

Foi Truffaut, aliás, quem fez circular a versão de que "O Pagador" teria sido escolhido para apaziguar as diferenças entre os jurados, divididos entre os filmes de Buñuel, Antonioni, Cacoyannis, Germi e Bresson.

Truffaut, de acordo com o próprio, teria sugerido premiar o filme brasileiro por sua "simplicidade e força temática", com o objetivo de estimular uma cinematografia emergente do Terceiro Mundo.

Essa história é recontada pelo cineasta Walter Lima Jr., com as palavras acima, no livro "Viver Cinema", de Carlos Alberto Mattos, página 64.

Não sobrou ninguém para falar hoje do episódio: a última sobrevivente do júri de Cannes em 1962, a atriz francesa Sophie Desmarets, morreu em 13 de fevereiro passado, aos 89 anos.