Funk carioca + Fernanda Lima + Obama = Mandela

Ultrapop

Tudo faz pensar em Nelson Mandela nestes dias em que muitos declaram amor eterno por ele, enquanto poucos, pouquíssimos, ousam assumir o ódio que já nutriram e/ou ainda nutrem pelo formidável líder antirracista sul-africano.

Eu estava em Vitória no último final de semana, exatamente quando o fator Mandela foi acrescentado a um episódio grotesco acontecido em 30 de novembro num grande shopping center da capital capixaba. Naquele dia, a polícia local encerrou à força um baile funk na orla atrás do shopping. Alguns funkeiros tentaram SE PROTEGER da polícia dentro do tradicional reduto blindado das classes médias para cima. Acabaram humilhados pelas autoridades, que os despiram em público, e pelos frequentadores do shopping, que aplaudiram abertamente a brutal ação policial.

Alguns funkeiros e outros militantes capixabas da igualdade racial decidiram ir à forra, e a forra aconteceu no sábado que passou, evidentemente com repercussão midiática bem menor que a do episódio racista. Fui ver de perto o “baile funk contra o racismo” que se deu a partir de um trio elétrico, na avenida movimentada em frente ao violento Shopping Vitória. A forra se deu em forma de música, protagonizada por DJs, pelo MC Sapão e pelo MC Abelhão, entre outros. O "Rap do Silva", do MC Bob Rum, foi o hino perfeito para a situação: "Era só mais um silva que a estrela não brilha/ ele era funkeiro, mas era pai de família".

“Funkeiro não é traficante”, reivindicou o MC Sapão, discursando de costas para o outro lado da avenida, de onde a Polícia Militar espreitava o baile, diante da fachada da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Era impossível esquecer o helicóptero apreendido dias antes nesse mesmo estado do Espírito Santo, numa propriedade pertencente à família de politicos mineiros Perrella, com quase 450 quilos de cocaína. Sapão não citou os Perrella, nem o piloto do helicóptero – nem precisava. Mas os bravos funkeiros citaram, sim, Nelson Mandela, e fizeram um minuto concentrado de silêncio em nome do ativista antirracista morto. Muitos repetiram o gesto de luta de Mandela, e dezenas de braços se ergueram em punhos fechados, tanto no alto do trio elétrico quanto na calçada em frente ao shopping.

O minuto de silêncio capixaba dos funkeiros foi diferente do minuto de silêncio planetário da Fifa na Costa do Sauípe, na Bahia, um dia antes do baile contra o racismo. O minuto para Mandela anunciado pelos apresentadores lindos, leves e louros Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, no sorteio dos jogos da Copa do Brasil de 2014, pareceu durar uns 10 segundos, tão rapidamente se esgotou.

Fernanda, mais que Rodrigo (por que será?), tem estado no epicentro de muitas críticas desde que foi escolhida para louvar a imagem brasileira perante o mundo. Não parece correto transformá-la em único ou principal bode expiatório de uma situação sobre a qual Fifa, Globo, governos e outras instituições poderosas deveriam dar toneladas de satisfações. Mas, ao reagir às críticas, a apresentadora loira de sotaque sulista não ajudou nada a aliviar a própria barra. Primeiro, lançou duas frases que, encadeadas, formaram um primor de falta de lógica e colaboraram para que a moça trouxesse o racismo do mundo para seu próprio colo: “Só porque eu sou branquinha?”, mais “pago meus impostos”. O que mesmo o lé tem a ver com o cré, Fernanda? Camila Pitanga e Lázaro Ramos têm "culpa" por não serem "branquinhos"? Ou não pagam seus impostos?

A coisa sempre pode piorar, e piorou. Na noite anterior ao evento da Fifa “não somos racistas”, a apresentadora subiu ao palco de seu programa global classe-média-sofre-mas-goza, o Amor & Sexo, linda, leve, loira, gostosa e rodeada de vários homens fantasiados de MACACOS, numa apresentação ao som da música “Cada Macaco no Seu Galho”, do sambista baiano (negro) Riachão. Chamar a associação de infeliz ou inapropriada seria um eufemismo inaceitável: foi um espetáculo deprimente - e ferozmente racista.

Novamente, soa injusto responsabilizar Fernanda sozinha pelo desastre: por certo houve toda uma equipe (global) idealizando uma reação tão enviesada quanto grotesca ao assunto mais candente do momento. A suave modelo protagonizou uma versão feminina, edulcorada, dos recorrentes episódios de racismo explícito protagonizados por jogadores brancos nos estádios de futebol planeta afora. A moda, a futilidade televisiva e o futebol se uniram, pela enésima vez, para celebrar o racismo institucional, oficialesco, praticado pelas instituições que nos representam nas nossas fuças, se não sob nossa tácita aprovação.

Morto, Mandela faz lembrar que este é um balé assustador de empurra-empurra, no qual todos gritamos, perturbados e "indignados", que “eu não sou racista!, racista é o outro!”. A temporada culmina, em pleno ritual de enterro do líder morto, com as fotos de Barack Obama se divertindo a valer em auto-retratos ao lado de altos politicos (brancos, loiros) europeus. Celebrado (e odiado) mundo afora por se tornar o primeiro presidente negro de um país fortemente racista, Obama parece ter surtado no momento mais inadequado possível. Mas seu (auto)retrato compõe um flagrante exemplar, tão preciso quanto aterrador: o presidente dos Estados Unidos está muito longe de ser o único a rir DE NERVOSO nestes dias de adeus a Nelson Mandela.