Ultrapop

Guitar Hero: Uma filosofia de Vida

Para os mais novos, o nome do jogo que revolucionou suas vidas. Para os desinformados, um personagem de algum filme B dos anos 80? Para as groupies, sexo, drogas e rock 'n roll, não exatamente nesta ordem. Para as namoradas e esposas, um irresistível presente de grego herdado de muitos pecados cometidos em gerações passadas. Para nós músicos, uma filosofia de vida.

O Guitar Hero brasileiro é um sujeito simples, avesso às plumas e paetes, sereno, extremamente focado em seu instrumento. Talvez por isso, apresente leves toques de autismo e insanidade em sua genialidade indiscutível.

Ser dionisíaco por definição, pensa em linhas sinuosas e esparsas, parece ter mais fluência nos dedos do que nas palavras. Nos palcos, brilha com muita elegância, sem fazer força. Tem a nobreza em sua alma e, inconscientemente, sabe disso.

Desponta nos discos de bandas, compositores e cantores de sua geração, podendo permanecer décadas imprimindo sua assinatura musical. Imortalizado em gravações clássicas, inovador em seu tempo, transita pelo mundo de forma atemporal, presenteando os afortunados com suas frases/pensamento.

O Brasil é um verdadeiro celeiro deste tipo de herói. Embora o craque mais famoso do país tenha seus talentos acentuados nos pés, são as engenhosas mãos dos nossos Guitar Heroes que escrevem o nome do nosso país com ouro, nos anais da cultura mundial.

Antropofágicos, devoram tudo o que escutam, dos riffs de George Harrison ao experimentalismo de Thurston Moore, do pionerismo de Glenn Branca à inventividade de Frank Zappa, do swing maroto dos ritmos latinos à precisão do jazz americano, o simples e o complexo coexistindo na mesma frase, na mesma melodia, no mesmo instante de pensamento.

Guitarra, metáfora do pensamento
Aos simpatizantes da Tropicália, um convite: preste atenção nas guitarras dos clássicos discos Gilberto Gil (1969) e Expresso 2222 (1972) do nosso ex-ministro da cultura, Le Gal (1969) e Gal a todo Vapor (1971) de Gal Costa, Araça Azul (1972) de Caetano Veloso, Jards Macalé (1972), Erasmo Carlos (1971), e o (para muitos) melhor disco que Rita Lee já lançou em sua carreira, Build Up (1972).

Ladies and Gentlemen, mister Lanny Gordin!!!
Jards Macalé_Let's Play That 1972

http://youtu.be/KNWJXKWcQrs


Gal Costa_Zoológico 1971
http://youtu.be/ZlBnL4S1XEY

Com timbres inconfundíveis, Gordin criou uma nova forma de se tocar guitarra na música brasileira, inserindo a sofisticação harmônica do jazz com o experimentalismo do rock americano dos anos 60. Sonoridades estridentes e secas aliadas a melodias dissonantes, rasgam as linhas vocais e a massa concisa da cozinha (baixo + bateria) embalada das formações em banda da época. Pode parecer uma solução óbvia para os dias de hoje, mas não o seria se não fosse por ele.

E para quem pensa que sua glória ficou no passado, muito se engana. Lanny participou de discos importantes na década de 80 e 90, e voltou nos anos 2000 com muito fôlego com 4 álbuns autorais, Lanny Gordin (solo) 2011, Projeto Alfa vol. I e vol. II 2004 e Lanny Duos 2007.


Lanny Gordin e o Projeto Alfa

Lanny Gordin e Rodrigo Amarante_Evaporar


Banda Isca de Polícia @ SESC Pompéia_Lançamento Caixa Preta Itamar com partipação de Lenine
http://youtu.be/QRfFsgjrLiU

Itamar Assumpção e banda Isca de Polícia 1983
http://youtu.be/yTGUkfFE2z0

Às Vezes - Composição de Luiz Chagas cantada por Tulipa Ruiz @ Yb.
Chagas, dentre outros feitos heróicos, assina os solos de guitarras do disco da filha! Gustavo Ruiz, seu filho e herdeiro 'jedi' chaguiano assina os arranjos e a produção do disco.

https://vimeo.com/10528855

Tulipa Ruiz "As Vezes" from yb music on Vimeo.


Mr. Gordin estava sentado numa mesa, rodeado de bons amigos com sua fala mansa, seu olhar compenetrado e uma guitarra preta novinha em folha, presente de Chico César.

A festa deu sequência sem grandes cerimônias. Cada um pegou seu instrumento, montou onde tinha espaço, e saiu tocando. A lógica anacrônica das frases de Lanny impressionavam a todos que ainda não o conheciam. No caso, eu, o caipirão da turma.

Ao lado de Lanny, ensaiando seu discurso alucinógeno e alucinante, em acordes dissonantes e melodias inebriantes, estava Guilherme Held.

Para um bom entendedor de música, este jovem Guitar Hero dispensa grandes apresentações. Já perdi a conta de quantos discos importantes Held já gravou.

Criolo_Mariô @ Studio SP_Guilherme Held na guitarra

Atualmente considerado o herdeiro nato do legado musical criado por Lanny Gordin, Held (Gui, para os amigos) reúne em sua prateleira parcerias com artistas como Thalma de Freitas, o trio Rômulo Fróes, Nuno Ramos e Clima, Mariana Aidar, Bruno Morais, Tita Lima, Ney Zigma, e claro, com seu mestre Lanny Gordin.

60 anos de Lanny Gordin
A esquina da Paulista com a Consolação viu nascer neste dia um importantíssimo encontro musical que veio, anos mais tarde, culminar no complexo e multidirecional sistema de colaborações, participações e congregações musicais da cena underground paulistana. Neste fatídico dia de aniversário duplo (já que Held, por uma ironia do destino, nasceu no mesmo dia que Gordin), nesta noite presenteada pelo acaso, formou-se uma importante turma musical, um coletivo instrumental chamado Luz de Caroline, uma das bandas consideradas por Miranda (Carlos Eduardo Miranda, um dos mais importantes produtores de música pop do Brasil) como sendo precursora do que hoje chamamos de cena independente paulistana. 'Surreal', como diria Guilherme.

A partir daí, quem acompanha música em São Paulo conhece bem a história. As parcerias foram se ramificando geometricamente, surgiram bandas, novos intérpretes e compositores, as turmas musicais se encontraram, e a coisa pegou ritmo.

Tanto ritmo que, 10 anos depois, o salão era bem maior, a pista estava cheia, e no palco os aniversariantes receberam, nada mais, nada menos, que Criolo, Thunder Bird + Juliana R e os Tarântulas e Tarantinos, Guizado, Ana Cañas, Mariana Aidar, Rômulo Fróes, Dustan Gallas, Junior Boca, Duani Martins e os Guitar Heroes Edgard Scandurra e Fernando Catatau.
Quem viu, viu.

Extra!

O leitor é convidado para postar sobre seu Guitar Hero (brasileiro ou gringo) favorito, comentar seus discos e feitos.
Carregando...

Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

Siga o Yahoo Notícias