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“Heleno”, o filme, fica no 1 x 1

Pense na predileção de Adriano (ex-Flamengo e Corínthians) pela noite, na pinta de galã de David Beckham (hoje no Los Angeles Galaxy), na arrogância de Zlatan Ibrahimovic (Milan) e na impetuosidade, ou irresponsabilidade, de Mario Balotelli (Manchester City).

Misture todas essas características e adapte o resultado à era romântica do futebol, quando o profissionalismo convivia com o amadorismo e não havia TV. Pois era mais ou menos assim, tudo isso ao mesmo tempo agora, o personagem de "Heleno", que foi exibido nesta terça-feira para a imprensa de São Paulo e entrará em cartaz no próximo dia 30. Clique aqui para ver o trailer.

Rodrigo Santoro interpreta Heleno de Freitas (1920-1959), que jogou a melhor fase de sua carreira pelo Botafogo do Rio, de 1940 a 1948. Não conquistou títulos, mas entrou para a história do clube como um de seus principais craques, autor de mais de 200 gols.

Depois de uma rápida passagem pelo Boca Juniors, da Argentina, Heleno foi campeão carioca pelo Vasco, em 1949. Estava no Atlético Junior, da Colômbia, quando a seleção brasileira, sem ele, perdeu a Copa de 1950 para o Uruguai no Maracanã -- estádio em que disputou apenas uma partida, a sua última como profissional, pelo América-RJ.

A riqueza do personagem criou a expectativa de que "Heleno" alcançaria um grau de representação do futebol até então inédito no cinema brasileiro de ficção. Infelizmente, ainda não foi desta vez.

Por mais que Santoro encarne muito bem o protagonista, com a dedicação de quem desejava fazer o papel há muitos anos, o filme equivale à sensação de um 1 x 1 com o adversário marcando o gol de empate no final: está longe de ser o pior dos placares, mas seria razoável esperar mais.

O subtítulo do filme usa um dos diversos apelidos de Heleno: "O Príncipe Maldito". As opções do diretor José Henrique Fonseca ("O Homem do Ano") reforçam a abordagem do lado mais escuro do personagem. No início, por exemplo, já o vemos próximo do fim, internado em uma clínica no interior de Minas Gerais.

Os flash-backs mostram então como foi que essa figura indomável percorreu a estrada da fama, repleta de dinheiro, mulheres e prazeres mundanos. No auge, ele já flertava com a queda abrupta. Quando caiu, não teve mais como se levantar. Santoro se sai bem em ambos os momentos -- e talvez ainda melhor no ocaso, sem o glamour de galã.

Fotografado em preto-e-branco pelo veterano Walter Carvalho, "Heleno" escapa habilidosamente da armadilha, comum a tantos filmes sobre futebol, de recriar lances de partidas. Nos poucos momentos em que estamos no gramado, os planos são fechados; vemos os personagens dos ombros para cima, ou do joelho para baixo, de forma mais estilizada e menos realista.

Quem espera um "filme de futebol" talvez saia decepcionado; a cultura da bola no Rio dos anos 1940 é vista de relance, como se não interessasse muito. Prevalece o drama sobre uma alma atormentada, suas relações tempestuosas com os colegas e também com duas mulheres -- a mãe de seu filho (Aline Moraes) e uma cantora (a colombiana Angie Cepeda, de "Pantaleão e as Visitadoras").

Para o personagem "quente" que escolheu, "Heleno" talvez seja um pouco frio demais.

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Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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