Inezita, rainha da música caipira, fala de funk, rap, tecnobrega e política

Pedro Alexandre Sanches
Ultrapop

Com 86 anos de vida e 60 de carreira profissional, Inezita Barroso é rainha incontestável do folclore musical brasileiro, como demonstra o grande número de clássicos enfileirados na caixa recém-lançada "O Brasil de Inezita Barroso", que agrupa seis de seus primeiros discos, lançados originalmente entre 1955 e 1961.

Da São Paulo de "Lampião de Gás" ao Pará de "Uirapuru", do Ceará de "Luar do Sertão" ao Rio Grande do Sul de "Prenda Minha", parece não haver estado do país que ela não tenha acariciado com sua voz de trovão. Cantora de todas as regiões, ela unificou os interiores todos do Brasil, sob o apelido de "cantora caipira" - mesmo sendo uma paulistana da Barra Funda, de família rica de fazendeiros.

Vanguardista desde pelo menos 1954, quando terminava a "Moda da Pinga" trançando as pernas "de braço dado com dois sordado", Inezita nunca abriu mão da luta em favor da condição feminina na música brasileira. Do mesmo modo, misturou cantos indígenas, africanos e europeus sem preconceitos e sem criar falsas hierarquias entre eles.

Tampouco parou no tempo em qualquer tempo de sua história - nem agora, quando, oitentona, participou da entrega do Troféu Sexo MPB e assistiu, sorridente e feliz, a apresentações do rapper mineiro Flávio Renegado e da tecnobrega paraense Gaby Amarantos. Na entrevista a seguir, Inezita fala do passado, do presente e do futuro do Brasil.

Yahoo! Brasil: Nos encartes dos CDs, você conta que é descendente de índios e paraenses. Pode contar um pouco sobre as origens da sua família?

Pois não. A minha mãe é do interior de São Paulo. Meu avô tinha 18 filhos, homens e mulheres, e os homens, depois de terem se formado em farmácia, que era o chique, largaram o diploma e foram embora pra fazenda. E as mulheres se casaram por aqui, ficaram por São Paulo mesmo, ou foram morar em fazenda e de vez em quando vinham pra cá. Numa dessas vindas da minha mãe, nasci aqui, na capital, aí fiquei paulistana também. A descendência dos índios é do lado da minha mãe e do lado do meu pai. Tenho muito orgulho disso, acho lindo. A gente traz no sangue isso aí, né? Tenho várias amigas indígenas, inclusive uma que é advogada, formou-se, e é prima do Juruna. É uma doçura de criatura, está sempre enrolada também com folclore, artesanato.

Y!: É pela descendência indígena que você tem tanta afinidade com o folclore de várias regiões do Brasil?

Tem muito a ver. Meu pai era filho de paraense com paulista. Meu avô paraense morreu muito cedo, era jornalista, escritor, professor de grego e latim, ói que cabecinha. Ele era neto de índia. Então tenho índio dos dois lados. Não me deixem brava, que vem à tona (gargalha)! Pesquisei muito, fiz viagens de jipe, fiquei meses girando pelo país. Conheço o Brasil como a minha mão.

Y!: Também tem descendência europeia e africana? Você gostava muito de gravar congadas, cantos de escravos.

Não, africana não tem. É tudo espanholada louca, espanhol e índio dos dois lados. Gravava muito por causa do ritmo, que é lindo. Foram eles que trouxeram o verdadeiro ritmo brasileiro, o samba, os tambores. Os índios eram muito suaves na música, na flautinha, nas danças religiosas. As mulheres não tomavam muito parte, eles eram bem machistas — ainda são, os caipiras descendentes. Você está andando numa estrada, de carro, no acostamento está o pessoalzinho. Primeiro, é o caipira no cavalo com um filho na garupa. Aí, lá pra trás do cavalo, é o cachorro. Atrás do cachorro (ri), vão a mulher e as meninas, carregando a mudança inteira. Puxa, já começou mal.

Y!: No disco "Inezita Apresenta" (1958), você cantava somente músicas de mulheres, apresentava cinco compositoras. Por quê?

Porque ninguém queria gravar as composições das mulheres. Isso é muito injusto, por que não? Vou gravar! E foi um sucesso, o lançamento da Zica Bergami, do "Lampião de Gás".

Y!: Era uma batalha que você mesma travava, não? Sua família não era muito simpática a que você cantasse e tocasse violão.

Não era nada simpática. Enquanto eu era criança, era muito engraçadinho, na quermesse, na igreja, na escola, no aniversário de uma colega... Mas depois meu pai disse: "Chega, não vai pisar em palco nenhum". Eu sofria com isso, porque meu sonho era pisar no palco. E pisei. Com jeito foi... Meu pai era pessoa muito boa, inteligente. Depois ele afinava meu violão. Não sabia tocar, mas sabia afinar (ri). Eu, de manha, dizia: "Ah, afina meu violão...". E ele afinava direitinho. E a minha avó, mãe dele, cantava muito bem.

Y!: Era ela que tinha a voz parecida com a sua?

Igualzinha. Depois visitei parentes dela em Paraty, Ubatuba. Nossa, choravam quando eu chegava, até de físico eu era parecida com ela. Em Belém do Pará, tinha uma festa de caridade no teatrão lá deles, e pediram para minha avó cantar na festa. Ela tocava piano muito bem também. E meu avô sempre de olho, sempre ciumentão. Ela fez um vestido lindo, mas no dia da festa, o teatro lotado, ela desceu uma escadinha, isso ela contava e até chorava, meu avô falou:"'Nós não vamos nessa festa. Você está muito bonita, não vai não, não vai cantar nada". Foi um vexame. Ela ficou tão louca que falou: "Tá bem, não vou cantar, vou trocar de roupa, o povo vai ficar esperando, vocês vão dar uma desculpa lá". Tirou aquela roupa e foi pro mar, e jogou a chave do piano no mar. "Nunca mais você vai me ouvir enquanto você viver". Você vê o que é o ciúme, o machismo.

Y!: Você passou por alguma cena parecida?

Não, só comecei a carreira profissional por causa do meu marido. Ele era do Ceará, lá a cultura era totalmente diferente. Aqui em São Paulo é que era aquela história de que mulher não pode ser artista, que mulher que é artista não presta — umas bobagens de bolor de família antiga.

Y!: Então o cearense era mais avançado que o paulista nisso?

Super-aberto! Completamente diferente! Meu marido chamava Adolfo Cabral Barroso, morreu faz uns cinco anos.

Y!: Vocês ainda estavam casados?

Não, me desquitei lá atrás, há muito tempo já.

Y!: Foi avançada nisso também?

Também, mas fui muito apontada como louca (gargalha). Mas passei por cima de tudo, porque o que eu queria era cantar. Faria qualquer sacrifício pra isso, é o que faço até hoje, com 60 anos de carreira, sem contar a parte de criança.

Y!: A "Moda da Pinga" foi um choque, por ser uma mulher cantando?

Foi um escândalo (gargalha), um escândalo. Falava de bêbado, e eu mais ou menos imito uma bêbada cantando, então chocava muito.

Y!: Você gostava de bebida, ou era só um personagem?

Não, era só um personagem. Eu gosto de cerveja — quente, por causa da voz. É horrível. Não, não é horrível, já acostumei. E, quando estou com um pigarrinho, tomo um golinho de uísque, também puro. Só.

Y!: Qual é sua avaliação sobre o papel da mulher na música hoje?

Engraçado, a música brasileira misturou tudo, né? Antigamente você ficava naquele estilo, cantava naquele estilo, aí ia ficando famosa. Agora, não, você vê compositoras boas, mas elas ficam indecisas pra encarar um estilo. O meu foi de raiva, né? (ri), encarei a música caipira e falei: "Acabou, agora é só caipira". Do jeito que estava, parecia que a música brasileira ia morrer. Viola, nem pensar. Caipira era xingação. Ainda tem umas cidades do interior, meio metidas a bestas, que não aceitam. "Vamos fazer um show com a Inezita?". "Ai, não, ela é caipira, ela canta música caipira." Mas era lá que eu ia com a minha viola pra irritar todo mundo (gargalha). Eu sou briguenta, viu?

Y!: Muitas vezes parece que o Brasil quer ser só litoral, como se o interior não fosse a maior parte do país.

É que não conhecem. É uma falta de aprender, de pesquisar essas coisas, que são lindas. Não é só na música, é tudo. "Ih, comida caipira não presta!" Quando a moça é malvestida, é caipira. Que que é isso? Não é um palavrão. Nas minhas palestras, cumprimento a plateia, e já falo: "Caipira não é um mendigo, e vamos em frente agora". Aí eu descasco mesmo.

Y!: Muitos brasileiros têm vergonha das próprias origens?

Mas têm! Ainda têm, e muito! É um pouquinho velado, mas tem muito.

Y!: Como nasceu em você o amor pela música do Brasil inteiro, e não especificamente deste ou daquele estado?

Porque a música brasileira é diferente das outras. É muito boa, pela nossa mistura justamente. Temos um ritmo que ninguém mais tem. Se manda uma cantora de samba pra Europa, tem que mandar pandeirista, percussionista, porque lá eles não conseguem, é uma coisa que não se escreve na pauta. E tem gente que não enxerga. Também tem gente que canta música caipira, um ritmo só. São 500 mil (ri), não dá nem pra levantar tudo. Gravei as danças gaúchas, do interior do Rio Grande do Sul. Ninguém queria gravar. Quando vou lá, fazem apostas, "não é possível, ela é gaúcha", "não, ela é paulista" (ri). Como comecei a carreira em Pernambuco, lá até hoje não admitem que eu fale que sou paulista (ri).

Y!: Eu soube que, no dia do Troféu Sexo MPB, você foi muito carinhosa com Gaby Amarantos, elogiou ela como artista...

Gostei. A música me tocou, está no sangue da gente. Ela é muito charmosa no palco, né? Tem muita classe, adorei a apresentação dela.

Y!: Você acompanhou curiosa o show do rapper, cantou junto, ficou vendo o DJ mexer no toca-discos...

Sou muito xereta. O que é pesquisador, meu filho!, se mete em qualquer lugar pra saber das coisas. E eu gostei. Gostei, porque, apesar de ser uma coisa estranha estragar o disco (ri), dá numa coisa boa, um ritmo gostoso. Ele estava fazendo com toda seriedade, você não vai dizer "não gosto". E eu gostei mesmo, tem que conhecer tudo em matéria de música pra dizer "isso presta e aquilo não".

Y!: O que os meninos pobres das periferias fazem não é, de algum modo, o folclore urbano de atualmente?

Não, não chega a ser tão importante, no meu jeito de ver. Mas quero fuçar tudo. Quando tem baile de forró aqui perto eu vou (ri). É muito gozado, eles acham estranho, não sabem muito definir folclore, acham que é coisa de rico, e é justamente o contrário. Aí ficam admirados, "você gosta?". Falo: "Gosto! Fui casada com cearense, não vou gostar de forró?". É muito bom. Alguns ritmos já alteraram muito, mas deixa pra lá, pelo menos é baseado numa coisa brasileira. Não tenho nada contra música estrangeira, conheço muito e gosto de muitas, principalmente a espanhola. Não tenho preconceito nenhum.

Y!: Foi bonito ver você ali aceitando a moça do tecnobrega, o moço do rap...

Com música eu vou até o fim, vou ver o que é. Mas tem umas que eu não gosto, decididamente, porque acho meio tapeação. Por exemplo, música não-sei-o-quê universitária. É samba universitário? Não sei qual é o primeiro nome.

Y!: Tem o sertanejo universitário também.

É, mas não casa, né? Precisa casar.

Y!: Não é porque os caipiras de hoje em dia já nasceram mesmo nas cidades? A música caipira deles é urbana, não é mais o rapaz que veio do sítio.

Aquele que cantou lá, do "suave" (o rapper Renegado), nossa, como ele é legal. Gostei até da música (ri). Está bem-feito, a gente gosta. Agora, se você está vendo que é uma exploração, que não é nada, que inventou aquilo... Outro dia foi uma dupla no programa ("Viola, Minha Viola"), ninguém conhecia. Eu ouço tudo antes de por no ar, ouvi e falei: esses aqui são bons. "Ah, mas é uma duplinha nova." Quem vai substituir os velhos? Tem que começar, vamos por no palco, vamos ver. Entraram no palco, humildes, dava até dó, calça jeans bem gasta. Um preto e o outro branquinho. O branquinho começou a cantar, tá vendo como a voz dele é afinada? Aí entrou o neguinho, tocando viola, pelo amor de Deus!, que maravilha. Dá vontade de sair da cadeira e dar um beijo! Está aparecendo muita gente boa, a Bruna Viola, lá de Cuiabá. É bonita, tem uma baita presença de palco, toca uma viola de morrer. Essa menina vai, essa vai.

Y!: E Paula Fernandes?

Já ouvi. Eu acho um pouquinho fraco. Não sei, acho que é o tipo de música. Acho que pensaram muito, é muito depressa. Não pode ser rápido, sabe? A Globo tem essa mania.

Y!: Mas não é bacana ser uma mulher que compõe suas próprias músicas? É o que você lutava pra ter muitos anos atrás.

É, é... Tem valor, claro. Mas no nosso estilo tem muita gente boa, violeiras, Juliana Andrade, uma violeira de primeira, de mão cheia. Outro dia fizemos um programa só de mulheres violeiras.

Y!: Como você, que lutou tanto pela emancipação feminina, se sente tendo uma presidenta mulher no Brasil?

Eu não tomo conhecimento de política. São duas coisas que odeio: matemática e política.

Y!: Puxa, mas não acredito que você não fique nem um pouquinho curiosa de ver como ela está se saindo.

Não, eu acho simpática, mas ela ainda não mostrou tudo que é, não. Está muito no começo.

Y!: Quer dizer, você está olhando, só não quer comentar, é isso?

É, porque a gente não tem certeza. É um fato muito novo, muito novo. Eu gosto do jeito dela, gosto.

Y!: É novo, mas Inezita já fazia algo parecido cantando a "Moda da Pinga" em 1954, não?

É isso mesmo, é. Falo que nasci com a espada na mão. Já nasci brigando (ri).