Música popular de cavalgar

Dafne Sampaio
Ultrapop

Você não sabe que a cavalo dado não se olham os dentes? Pois então, lugares comuns equinos não faltam à música popular brasileira. Primeiro vieram os reais cantados pelo caipira/gaúcho/sertanejo, tais como “Cavalo Baio” (Brinquinho & Brioso), “Cavalo Preto” (Palmeira & Luisinho), “Como é Burro o Meu Cavalo” (Bob Nelson), “Cavalo Zaino” (Raul Torres & Florêncio), “Cavalo Enxuto” (Jacó & Jacózinho) e “Cavalo Crioulo” (Luiz Gonzaga).

Mas a partir dos anos 1970, o cavalo ganhou diferentes usos na música popular, desde a viagem mística-suingante-elétrica de “Cavaleiro do Cavalo Imaculado” (Jorge Ben) até o revisionismo regionalista de crítica social de “Ventania (De Como um Homem Perdeu Seu Cavalo e Continuou Andando)” (Geraldo Vandré), passando pela euforia de “Cavalo das Alegrias” (Marku Ribas), a liberdade de “Cavalo Bravo” (Renato Teixeira), e os delírios de “Cavalo Ferro” (Fagner) e “Cavalo de Pau” (Alceu Valença). Só que o duplo sentido acabou ganhando a batalha. Em “Cavalgada”, lançada em 1977, Roberto Carlos e Erasmo Carlos transformaram o simples ato de trotar numa explosão de sacanagens românticas (sim, isso é possível). Nada mais foi o mesmo.

Aí, meu amigo e minha amiga, quando a sacanagem entra na parada não sobra pra mais nada. Potrancas, por exemplo, se multiplicaram nos axés baianos e pancadões cariocas e encontraram com garanhões e pangarés que sumiram dos pastos para ganharem as cidades. E essa cavalgada seguiu em ritmo de festa até ser interrompida brevemente pelo sucesso, em 2003, da quase infantil “Eguinha Pocotó”, de MC Serginho (e Lacraia, in memoriam).

Hoje em dia, os cavalos se encontram numa encruzilhada. Ou vão para o brejo de vez, já que até no campo foram substituídos por Camaros, Dodges Ram e até helicópteros. Ou então ficam na eterna dúvida se são dominados ou se dominam como em “Vai Cavalinho” (Forró da Curtição), provável hit do verão baiano do Trio da Huanna. Certo mesmo é que estrelas mudam sempre de lugar, sua cavalgadura!