Mashup: Emicida versus Yoko Ono

Pedro Alexandre Sanches
Ultrapop

Quando me tornei um apaixonado completo pela obra musical da japonesa Yoko Ono, há poucos anos, uma música em especial me impressionou profundamente: "I Want My Love to Rest Tonight", que a ex-esposa do ex-Beatle John Lennon canta no álbum Approximately Infinite Universe, de 1973. Essa canção volta com tudo à minha lembrança agora, enquanto galopamos no "escândalo" da hora, sobre "Trepadeira", um rap com algum teor misógino que integra o excelente álbum independente O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, do paulistano Emicida.

O rap-samba-rock "Trepadeira" me soou, à primeira e segunda ouvidas, um poema brilhante que usa um jardim de flores, xaxins, plantas, árvores, arbustos, legumes e outros "bichos" para falar de uma moça que, bem, gosta muito de sexo.

As citações verdes e coloridas, à là Itamar Assumpção, espalham ramas pelo chão: margarida, rosa, grampola, camélia, bromélia, ipê, orquídea, samambaia, capim, girassol, violeta, flor de laranjeira, tulipa, chuchu, cravo, erva-daninha, amor-perfeito, jiló, maria-sem-vergonha, trevo-de-quatro-folhas, jasmim, magnólia, vitória-régia, brinco-de-princesa, azaleia, costela-de-adão, comigo-ninguém-pode...

Um verso em especial está sendo interpretado como misógino e incitador de violência contra as mulheres: a moça"merece era uma surra de espada-de-são-jorge". Espada-de-são-jorge, caso alguém não se lembre, é uma planta de folhas compridas e pontudas. Emicida está aqui se arriscando por terreno perigoso. O narrador sugere uma "surra" de flor à namorada "trepadeira" que, talvez, o tenha deixado na dor-de-cotovelo ("cê me quis, salgueiro chorão").

(Nunca é demais lembrar que estamos em terreno pantanoso, o da canção popular, onde homens já disseram monstruosidades múltiplas como as de "Minha Nega na Janela", do também paulistano Germano Mathias: "Eta, nega, tu é feia que parece macaquinha/ olhei pra ela e disse:/ 'vá já pra cozinha'/ dei um murro nela e joguei ela dentro da pia/ quem foi que disse que essa nega não cabia?".)

Mas o que isso tudo teria a ver com a distante "I Want My Love to Rest Tonight" de Yoko Ono? Fiquei bem confuso quando prestei atenção pela primeira vez na letra da "bruxa" que adorávamos caçar por ter sido o pomo da discórdia entre os amados meninos Beatles.

Me pareceu, de cara, uma canção misógina escrita por uma mulher, uma mensagem de perdão paternalista (ou seria maternalista?) para proteger e justificar as atitudes de um macho machista: "Irmãs, não culpem demais o meu homem/ eu sei que ele está fazendo o melhor que pode/ conheço o medo e a solidão dele/ ele não consegue fazer nem mais, nem menos/ ele foi criado por nós, mulheres/ e pelo mundo que o mandou ser um homem". Ora, então deveríamos proteger um misógino (por exemplo, o Emicida, ou eu próprio) por ele manifestar alguma variedade de repulsa ao sexo oposto?

A letra de Yoko nunca mais parou de ribombar na minha cabeça: "Irmãs, não culpem demais o meu homem/ (...) ele foi ensinado pela mãe a nunca confiar em garotas/ ele foi ensinado pelo pai a nunca derramar lágrimas" - imagine então se ele resolver ter a ousadia de dar um selinho na boca de um amigo do mesmo sexo! - "ele vê garotas caçando superastros/ enquanto o homem delas bebe no bar".

O refrão da "bruxa" é ainda mais desconcertante, e aparentemente comodista (maternalista?) - mas quase dá para ouvir uma mulher cantá-lo para o marido ou namorado, uma mãe cantá-lo para o filho, uma amiga cantá-lo para um amigo: "Eu quero que meu homem descanse esta noite/ para que ele consiga encarar o mundo amanhã".

Quanto mais repito mentalmente todos esses versos de Yoko, mais me convenço de que se trata de uma crítica sutil de uma mulher às mulheres, mas também de uma mulher aos homens. Qual é afinal a delícia masculina de ser esta montanha de fragilidades disfarçada atrás da fortaleza rígida de um iceberg? E o que fazemos, mulheres e homens, quando um rapaz tenta se fragilizar chamando mulheres de flores ou dando um beijo na boca de um amigo?

Não sei se a "Trepadeira" de Emicida chega tão fundo quanto a estocada de Yoko. Mas a reação fóbica que a canção do rapper (negro) está suscitando me leva diretamente à conclusão gentil e cruel de "I Want My Love to Rest Tonight": "Se todos nós soubéssemos que ninguém deveria ser humilhado/ mas que a sociedade deve ser humilhada/ nós poderíamos ficar juntos outra vez/ e dirigir nossas energias a transformar o mundo./ Nós todos somos parceiros cegos e paralisados/ frustrados por não sermos o presidente dos Estados Unidos./ Nós não sabemos lidar com nós mesmos/ nem amar nossos parceiros por serem eles mesmos".

Sei lá, entende? O que será que estou tentando dizer quando promovo um mashup maluco entre as mulheres-plantas de Emicida e os meninos-homens de Yoko? Talvez queira lhe pedir que não jogue o poderoso e talentoso rapper na lata de lixo com a misoginia dele, e que nem condene o(a)s racistas ao inferno com o racismo deles (nosso). Em que será que transformaríamos nossos "inimigos" se, em vez de tentar isolá-los (por vezes linchá-los), tentássemos simplesmente trazê-los para perto de nós?

P.S.: Se der, por favor, ouça depois disso tudo a sensacional faixa de encerramento de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui , "Ubuntu Fristaili". Trata de liberdade religiosa (entre outras), e tem o auxílio vocal maravilhoso d(e uns marmanjos e d)as magnólias Fabiana Cozza, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz e Elisa Lucinda. De arrepiar.