Ultrapop

O nordestino sem preconceitos Zé Ramalho

Olhares e ouvidos se voltam para a memória do pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989), neste ano em que se completam cem anos de seu nascimento. "O tempo corre mais ligeiro/ o calendário resumiu-se a quase um mês/ pelo rio Paraíba viajei de vez", canta o paraibano Zé Ramalho em seu novo disco, Sinais dos Tempos, o primeiro que ele lança pelo selo próprio Avôhai Music.

Aos 62 anos, Zé está bem vivo, mas sob a febre das efemérides há bem menos olhares e ouvidos apontados para ele que para seu mestre Gonzagão. Sinais dos Tempos não ajudará propriamente a modificar essa situação. Trata-se de um trabalho desacelerado, vazado pela humaníssima impressão de que o tempo se escoa cada vez mais depressa, cortado de profunda melancolia.

É, sobretudo, um disco em que o autor de clássicos nordestinos e brasileiros como "Chão de Giz" e "Vila do Sossego" (1978), "Frevo Mulher" e "Admirável Gado Novo" (1979), "Eternas Ondas" e "Banquete de Signos" (1980), "A Terceira Lâmina" e "Galope Rasante" (1981) olha para si próprio e para seu passado, no sentido não de revisitá-lo, mas de reavaliá-lo e refletir sobre ele. "Não era para ser assim/ era pra ser bem melhor", rasga, áspero e autocrítico, em "Olhar Alquimista".

Os ciclos do tempo são esquisitos, às vezes cruéis. Luiz Gonzaga merece ser lembrado todos os dias, e a efeméride tola vem a calhar, se pode prestar algum auxílio nesse sentido. A partir do final da década de 1940, ele foi o responsável primordial pela exportação, para o sempre autocentrado Sul-Sudeste do Brasil, de valores bem marcados de orgulho nordestino — musical, artístico, cidadão. O país não seria mais o mesmo depois que sua música agreste e sua sanfona apaixonada se espalhassem para além das fronteiras natais. Na virada dos anos 1950 para os 1960, a carioquíssima bossa nova faria de tudo para sepultar a sanfona de Gonzagão nalguma cova do passado remoto — mas era processo irreversível, não havia caminho de volta.

Filhos ilegítimos e infiéis da docilidade da bossa nova, os tropicalistas Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa colaborariam para impedir o desterro de Gonzagão, a partir de 1967. Eles também eram nordestinos, mas tampouco deveram fidelidade ao pai simbólico — eram especificamente da Bahia de Dorival Caymmi, migrantes que ganhariam o eixo Rio-São Paulo trazendo a tiracolo maneiras mais praianas e malemolentes de ser nordestinos.

Seria a leva de migrantes imediatamente posterior a essa que restabeleceria no seio da música popular brasileira a nordestinidade agreste, de sertão, seca em vez de úmida: os cearenses Amelinha, Belchior, Ednardo e Fagner, os pernambucanos Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Robertinho de Recife, os paraibanos Elba Ramalho e — eis ele aqui outra vez — Zé Ramalho. Cada um à sua maneira, todos contribuíram para que o Nordeste gonzaguiano persistisse e prosperasse à revelia do ódio calado e dos preconceitos velados de espectadores e artistas ancorados no eixo Rio-São Paulo (e do Ecad, o monopólio artístico-empresarial que controla sem nenhuma transparência a distribuição de direitos autorais no país).

Zé Ramalho é protagonista incontestável dessa vertente, e só por isso merece ser cumprimentado diariamente, tal qual um Gonzagão, um Caymmi ou um Jobim. Desde que cantou alto os versos nada bovinos de "Admirável Gado Novo" ("ê, vida de gado/ povo marcado, ê, povo feliz"), sua voz trovejou, floresceu e lançou sementes para muitas direções. Há uma ala da chamada crítica musical (e, ao lado dela, determinadas faixas de público) que silencia sobre a importância crucial dos agrestes nordestinos no nosso tecido musical. Embora barulhentos, são minoritários no Brasil de 2012. Zé continua a falar alto para os seus — que coincidem, em boa medida, com aqueles que até hoje se emocionam e choram ao ouvir a voz de Gonzagão em "Asa Branca" (1947), "Assum Preto" (1950) ou "A Vida do Viajante" (1953).

Zé, ele próprio, não respeita fronteiras musicais. Nascido artisticamente sob os ventos do rock e da bossa nova, da canção de protesto e do iê-iê-iê, do baião e do rock psicodélico, ergueu em discos recentes homenagens musicais intensas a influenciadores tão variados quanto Beatles, Raul Seixas, Bob Dylan, Jackson do Pandeiro e, obviamente, Luiz Gonzaga.

Não cessa de reverenciar a tradição (o rock viajandão do Pink Floyd é referência predominante neste inédito Sinais dos Tempos), mas com o mesmo gosto aprova os sertanejos (nordestinos ou não) que não param de brotar dos interiores de um Brasil a cada dia mais brasileiro. Em anos recentes, cantou em parceria com os paranaenses Chitãozinho & Xororó, a sul-matogrossense Tetê Espíndola, as baianas DanielaMercury, Ivete Sangalo e Pitty, os paraenses Joelma e Chimbinha (da Banda Calypso), a mineira Paula Fernandes. Musicalmente, Zé Ramalho não conhece preconceitos — quem conhece é quem o combate, seja ruidosa ou silenciosamente.

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Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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