SP, 20 de junho de 2013: o “inimigo” quebra o espelho

Ultrapop

Cada dia tem sido desconcertantemente diferente dos anteriores. As ruas fervem em todo o Brasil, e mais uma vez eu posso, no máximo, contar o que estou vendo e sentindo das complexas ruas paulistanas.

Aqui em São Paulo, até ontem, havia dois inimigos evidentes, contra os quais TODOS os manifestantes se voltavam em uníssono, fosse com maior ou menor sinceridade, com maior ou menor conhecimento de causa.

O inimigo número um, evocado pelo Movimento Passe Livre (MPL) desde os primórdios do Inverno Brasileiro de 2013, era o aumento de preço nas tarifas de ônibus, metrô e trem na capital paulista. Ontem, imediatamente após a segunda vitória da seleção brasileira na Copa das Confederações, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram em sincronia o retorno das tarifas aos preços anteriores aos aumentos.

Um dos inimigos, a inflação nos preços da condução, ruiu diante dos nossos olhos, como que coroando a vitória do Brasil no futebol. Hoje, vi muitos vendedores de bandeiras brasileiras na Paulista. Ao longo da noite, vi ruas cheias de gente e completamente vazias de carros e ônibus. A vitória das ruas soa colossal - e quase inacreditável.

O inimigo número dois, que vinha causando muito estrago nas ruas e muita dor nos cidadãos, era a Polícia Militar, violenta, truculenta e brutal nas primeiras manifestações. Hoje, nas quase quatro horas em que fiquei na rua, vi muitos PMs, mas vi também o povo totalmente despreocupado com a presença deles. Vi-os sempre parando, sem ajudar a desfazer tumultos, mas também sem provocar violência e dor. O segundo inimigo evaporou-se de nós, não consigo decifrar exatamente por que, quem sabe inibido pelo sentimento de triunfo respirado dentro de cada peito, pela inédita vitória política de ontem.

Pois eis aí a próxima encrenca. Sem inimigos comuns a atacar, como ficamos nós, os que adotamos a rua como morada noturna em lugar do sofá em frente da Globo, da Record, da Bandeirantes ou da TV paga gerenciada pelas Organizações Globo? Quem ou o que combateremos agora?

Diante do vazio momentâneo, um terceiro inimigo se afigurou rapidamente: os “com-partido”. Se até anteontem São Paulo parecia (des)governada pelos apartidários verdadeiros e por travestis de apartidários, hoje o drama de realpolitik se materializou de modo mais uma vez surpreendente em asfalto, calçada, carne e osso.

Como não acontecia havia muito tempo, TODAS as bandeiras de esquerda se viram agrupadas num polo da avenida Paulista – curiosamente, se concentraram do lado DIREITO da avenida, enquanto os apartidários e "apartidários" cuidavam da pista esquerda. No espelho, tudo fica invertido.

O desfile cívico foi lindo, lindo, lindo, e lotado, lotado, lotadíssimo. Marcharam novamente juntas, depois de muitos episódios de discórdia, bandeiras do Partido dos Trabalhadores (PT), do Movimento Sem Terra (MST), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), do Partido Socialista Brasileiro (PSB), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do velho Partido Democrático Trabalhista (PDT) de Leonel Brizola, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), da União da Juventude Socialista (UJS), do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), do Partido da Causa Operária (PCO), entre outros que eu não soube identificar.

Até a bandeira engraçadamente azul da União Nacional dos Estudantes (UNE) tremelicou no meio do mar vermelho. Dentro do oceano de brasões, reluzia até a bandeira apartidária do arco-íris, significando os movimentos LGBTTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), acompanhada pelo grito de guerra "até a tarifa baixou, Feliciano, sua hora já chegou".

Estava lindo.

Mas a presença ostensiva das esquerdas, que sempre tiveram prevalência inquestionável nos movimentos políticos de multidão, incomodou muita gente. Os com-partido e com-bandeira, para muitos, viraram o inimigo da vez.

A velha (por vezes puída e desgastada) militância de esquerda incomodou os que, nas manifestações anteriores, gritavam slogans “sem-partido”. Suponho que incomodou também, e MUITO, os direitistas que vieram à Paulista, mas disso não tenho certezas nem provas – não vi NENHUMA bandeira que identificasse manifestantes do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aécio Neves, do PPS de Roberto Freire, do PSD de Gilberto Kassab, do DEM (de quem mesmo?), nem mesmo da vindoura Rede de Marina Silva (que, até onde se saiba, tem vínculos umbilicais à esquerda).

É muito estranho quando você percebe que todos os "partidários" são ou se acreditam de esquerda, e que todos os militantes de direitas estão ou ausentes das ruas ou diluídos na massa "sem-partido". O proprio MPL se manifestou hoje, mais cedo, estranhando as infiltrações "apartidárias" da "pauta conservadora" nas manifestações.

O inimigo, de repente, não eram mais nem os 20 centavos nem a Tropa de Choque: o inimigo hoje era o espelho. Esquerda e direita se viram cara a cara, às vezes se xingando mutuamente e não gostaram na do que viram no reflexo.

Como disse um amigo com quem fiquei conversando um tempão NO MEIO da Paulista em plena quinta-feira (que maravilha), era mais ou menos tudo que sonhávamos: esquerdas, direitas e transgênicos se enfrentando cara a cara, no duro, sem o escudo da agressividade simbólica das redes sociais ou de propagandas televisivas político-partidárias. Desta vez, era nas ruas que a disputa teria que se dar – é assim há muito tempo na Venezuela, por exemplo, como lembrou esse mesmo meu amigo.

O que era bonito de repente ficou feio nas zonas de fronteira entre as tribos, compostas, em muitos casos, por gente que mal se (auto)conhece.

Foi feio demais de ver. Quase sempre, a ala dos com-partido era nitidamente maior quantitativamente que a pista da (puxa!) esquerda. Gritávamos slogans como “abaixou a tarifa, agora bota na conta da Fifa” e “caiu, caiu, caiu!, caiu em Porto Alegre, em São Paulo e no Rio!”. Principalmente nas zonas de fronteira, o chumbo foi grosso. Vi muitos homens grandes e musculosos arrancarem com violência e rasgarem bandeiras da UNE e do MST das mãos de manifestestantes. Vi ameaças físicas, muitas. Não cheguei a ver agressõs, porque me afastava sempre das zonas de tensão - mas tenho certeza que ocorreram e estarão amanhã povoando o YouTube e aparentados.

Você pode discordar, mas preservo meu direito de me manifestar (com a indefectível camiseta de Dilma, que mais uma vez não me rendeu problemas): não me parece nem um pouco democrático ou patriótico um brucutu raivoso que arranca a bandeira do outro e rasga, ou um manifestante vociferante que quer proibir no grito o vizinho de portar a palavra de ordem que ele quiser portar.

“Sem fascismo!” e “sem censura, abaixo a ditadura”, o grupo dos com-bandeira tentava reagir, evidentemente acuado e amedrontado (mas muito, muito valente).

Voltei para casa mais cedo, embrulhado com a violência desta vez encampada por cidadãos contra cidadãos.

Cheguei a tempo de ver um bom trecho do Jornal Nacional. Estou estupefato: a Rede Globo, encantada com imagens tiradas de helicópteros e totalmente afastada do corpo das passeatas-em-si, não narrou NADA do que eu vi nas ruas neste difícil e belo 20 de junho de 2013.