Sabiá-laranjeira fez um buraquinho

Ultrapop

Um passarinho virou vedete nesta semana, por conta de reportagem em que a Folha de São Paulo retratou o incômodo de cidadãos da capital paulista com a cantoria do sabiá laranjeira nas madrugadas de inverno. A reportagem serviu para amplificar o tema, mas não é de hoje que ele corre à boca pequena entre paulistanos.

Nas redes sociais, muita gente chilrou – com razão – contra o mau humor dos sorumbáticos que parecem preferir barulho de buzina a tweet de passarinho. Não era dia de a turma da balada confessar o choque de sair do baticum eletrônico e voltar para casa ao som de sinfonia de pardais. Também confesso meu incômodo com o momento em que, lá pelas 3 horas da madrugada, o sabiá-laranjeira vem me conscientizar de que sofro de insônia – o problema não é o sabiá, é a minha insônia.

Parece que há críticos musicais resmungando (por que críticos musicais SÓ resmungam?) da monotonia do canto da sabiá. O bichinho seria, para esses, tão tedioso e/ou pouco criativo quanto funkeiro carioca ou paulista. Mas que loucura esses amantes de música que não amam a música dos passarinhos, hein?

No front oposto moram os músicos: esses não só amam a passarada, como são os passarinhos em pessoa. Há uma multidão de pajaritos na música popular, brasileira ou além-fronteira. Que o diga o “Blackbird” (1968), o pássaro preto dos Beatles, que, como o nosso sabiá-laranjeira, também canta na hora da morte da noite: "Blackbird singing in the dead of night/ take these broken wings and learn to fly".

No Brasil, ninguém traduziu o canto dos pássaros com a propriedade e a pungência dos reis e das rainhas do baião, Luiz Gonzaga à frente de todos eles com todo um viveiro - "Araponga" (1943), “Asa Branca” (1947), “Assum Preto” (1950), “Acauã” (1952), "Pássaro Carão" (1962), “Fogo-Pagou” (1976) e, sim!, “Sabiá” (1951).

“A todo mundo eu dou psiu/ (psiu, psiu, psiu)/ procurando por meu bem/ (psiu, psiu, psiu)/ tendo o coração vazio/ vivo assim a dar psiu/ sabiá, vem cá também”, cantou sabiá-Gonzagão, misturando a dor dos pássaros com a dor das pessoas.

Dor e pio aparecem quase sempre irmanados nos baiões, a pontos extremos como o do dramalhão de “Sabiá Lá na Gaiola” (1956), interpretado por Carmélia Alves: “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho/ voou, voou, voou, voou/ e a menina que gostava tanto do bichinho/ chorou, chorou, chorou, chorou”. Minha mãe amava, foi a canção que ela mais usou para me ninar.

A dor assume proporções colossais no “Assum Preto” de Luiz Gonzaga, ainda mais na linda versão pós-tropicalista de Gal Costa em 1971, e é aqui que a gente percebe qual é a identificação entre o homem (do sertão) e o passarinho: “Tudo em vorta é só beleza/ céu de abril e a mata em frô/ mas assum preto, cego dos óio,/ não vendo vendo a luz, hum, canta de dô”.

Todas as penas da humanidade cabem dentro dessa pequena fábula sertaneja: “Tarvez por ignorança/ ou mardade das pió/ furaro os óio do assum preto/ pra ele assim, ai, cantá mió”. É o passarinho do blues, do folk, do folclore, do choro, do samba, na pulsão irremovível entre liberdade e aprisionamento. Escravizado pelo homem, o pássaro perde o alcance do voo, por perder a visão, e chega a sonhar com mais escravidão em troca do poder de ver: “Assum preto veve sorto/ mas não pode avoá/ mil vez a sina, ai, de uma gaiola/ desde que o céu, hum, pudesse oiá”.

Poder ver ou poder voar? O que seria melhor? Por que não o privilégio de gozar das duas possibilidades ao mesmo tempo? Gonzagão não conseguiu resolver a equação - nem nós.

Há aqui uma curiosidade, uma esquisitice.

No sertão e nos interiores de chitõezinhos e xororós, canta-se muito sobre pássaros (humanos?) engaiolados, aprisionados, apartados da liberdade – cantar por não poder voar.

Um pássaro grande, o “Pavão Mysteriozo” (1974) do cearense Ednardo, vem sendo parcamente evocado na nova versão global de Saramandaia, a cidade antes nordestina, hoje caricaturizada numa cidadela norte-americana à moda de Tim Burton. Seja na moda interiorana de viola ou sanfona, seja na cidadela pop estadunidense, João Gibão vive em meio a gaiolas de passarinhos e esconde, envergonhado, as asas que lhe crescem nas costas. “Pavão misterioso, pássaro formoso/ tudo é mistério/ nesse teu voar/ ai, se eu corresse assim/ tantos céus assim/ muita história eu tinha pra contar.”

E a esquisitice, de volta à cidade grande: na "grande" São Paulo, o que incomoda não é a gaiolice da passarinheza, mas sim o fato de o sabia-laranjeira desfrutar da insuportável liberdade para cantar madrugada afora, desengaiolado. Como ousa o desabusado, numa terra asfaltada como esta, abençoada por homens amarelados, por deuses de concreto e de dinheiro, pela santa poluição e pela sacra podridão de rios que já morreram?

Seria a sabiá-laranjeira que não nos deixa dormir? (Eu juro, aqui no meu bairro ela tem começado a piadeira à 1h30, antecipando com sarcasmo passarinheiro minha sensação de insônia.) Não seria, antes, que a passarinha rebelde vem nos lancinar com a lembrança cortante de que existe algo errado nas nossas vidas de resto despojadas de natureza e liberdade?

P.S.: Elaborei, para o site musical FAROFAFÁ, uma rádio-seleção de maravilhosas canções de passarinhos - e convido todo mundo para participar do gorjear da passarada.